Religião e Política: aproximações e assimetrias entre Gramsci e Tillich

Dr. Jorge Pinheiro [1]

As Ciências da Religião (no plural), disciplina que se aplica a estudar o fenômeno religioso, a partir de diferentes áreas do conhecimento, trazem, também, perguntas quanto as questões políticas e sociais que devem ser pensadas, entre as quais os conceitos de democracia representativa, participativa e direta.

Para este diálogo entre religião e política, o Professor Jorge Pinheiro [2] utiliza como base teórica os pensamentos de Antonio Gramsci e Paul Tillich. E enquanto o primeiro é bastante estudado nas universidades brasileiras, o segundo é praticamente desconhecido. E Jorge Pinheiro estuda as aproximações entre ambos no que tange às questões em pauta.

Sobre Gramsci, o autor destaca suas ideias acerca do cristianismo, o intelectual e a democracia.

Em relação ao “cristianismo”, Gramsci defende Marx como sendo herdeiro de dois movimentos culturais: Reforma Protestante e Revolução Francesa. Sua práxis – ideias de ação com reflexão, segundo Marx –, para Gramsci, é o coroamento destes movimentos, ou seja, o coroamento como reflexo de um movimento intelectual de reforma e moral dialetizado no contraste entre cultura e alta cultura. Por isso mesmo, a religião cristã foi e continua a ser uma necessidade, uma forma necessária de racionalidade do mundo e da vida. Gramsci vê a Reforma como uma revolução cultural que se traduziu na construção do pensamento contemporâneo, passando pela filosofia alemã, com Lutero – o homem da Reforma – e o jacobinismo – ala mais radical do movimento social da Revolução Francesa.

Voltando ao autor, ele analisa que no tocante ao que Gramsci fala do cristianismo, este acaba fazendo uma ponte ente Émile Durkheim e Max Weber. O primeiro considera a religião a partir da ideia de vínculo social. E, assim, a religião constituiria uma comunidade moral na qual seus adeptos comungam dum mesmo ideal, e, para Weber, o cristianismo, como igreja, atua como empresa de salvação das almas, com suas doutrinas, organização de seu clero, disputa entre visões e interesses distintos no quadro das crenças religiosas. Na síntese dos dois pensadores – Durkheim e Weber – Gramsci busca o que une para o primeiro e realça o que o segundo separa, ou seja, o cristianismo, para ele, é uma concepção de mundo que elabora versões sobre a realidade, o que possibilita aos fiéis atuar segundo determinada ética, mas também os une no interior da mesma comunidade.

Em relação às ideias de Gramsci acerca do “intelectual”, Pinheiro destaca o que ele diz acerca do papel dos intelectuais católicos na Idade Média, cujas ideias serviram como ‘cimento cultural’ entre os diferentes setores da sociedade da época. Deste cimento cultural surge a ideologia na qual se baliza a solidariedade dos cristãos. Ao perder parte desta solidariedade, a Igreja Católica deixou de ser positiva e passou a agir como força reativa às mudanças. Dos interesses diversos, surgiu, segundo Gramsci, o conceito de Estado ampliado – relativo à ideia de Estado Moderno, no Ocidente.

Em relação às ideias de Gramsci, sobre a “democracia”, este conceito repousa, exatamente, no Estado ampliado, que conjuga força política mais sociedade civil. Com isso, todo movimento deve acontecer no sentido de uma absorção do Estado político pela sociedade civil, com o predomínio crescente de elementos de autogoverno e autoconsciência, para, com isto, evitar a chamada ‘estatolatria’. O papel do cristianismo está implícito ou inserido, então, segundo Gramsci, na sociedade civil, como parte do conjunto das organizações e difusão de sua ideologia, como também, na contribuição de seus valores éticos.

Resumindo, então, afirma Pinheiro, podemos utilizar seus conceitos de Estado ampliado e de hegemonia civil… como ferramenta para delimitar e compreender o desenvolvimento das sociedades ocidentais contemporâneas, principalmente aquelas que se propõem democráticas, e o cristianismo coopera para a formação de um estado-ético.

E sobre Paul Tillich? Como a linguagem de Paul Tillich é teológica, sua análise é revestida de conceitos bíblicos, destacando o que ele chama de ‘profetismo’, desde o Antigo Testamento, que se traduz em clamor e ação em prol da justiça, passando pelo cristianismo primitivo e pela Reforma, um movimento profético de crítica social e racionalidade na autonomia.

Com isto, Tillich se afasta das correntes socialistas, mas dialoga com Gramsci no que se refere a correlação entre razão e autonomia. Segundo ele, a autonomia se deu através de ciclos que atravessaram épocas, como nos movimentos religiosos: cristianismo primitivo, migração de povos, Reforma, anabatista e socialista.

Deste último movimento, o socialismo, Tillich entende que o pensamento marxista, por exemplo, nunca se esgotará, uma vez que a corrupção da situação humana tem raízes mais profundas do que as estruturas históricas e sociológicas. Estão encravadas nas profundezas do coração humano. Por isso, o movimento profético está sempre presente, ora revolucionário, ora conservador. O próprio socialismo, segundo Tillich, é produto da evolução espiritual e econômica, que preparou e se impôs com a Renascença, a Reforma e o surgimento do capitalismo. Ou seja, estas ideias cooperaram e continuam cooperando para o exercício democrático.

Desta forma, cristianismo e política não são realidades estanques, porque as raízes do pensamento político não são apenas pensamentos. Cristianismo e política, no mundo ocidental, estão imbricados, mas não existem sem a necessidade de correção, ou seja, da democracia.

democracia, para Tillich, pressupõe também a existência de vários partidos políticos e a liberdades civis, o que não aconteceu no mundo stalinista, por exemplo. Mas o mundo que experimentou o stalinismo, a guerra e o pós-guerra, sem as dinâmicas do poder, sem a tragédia da vida e da história não é o reino de Deus, nem a finalidade do ser humano, pois o fim está limitado à eternidade e nenhuma imaginação pode atingir o eterno. O ser humano – entenda-se o homem cristão – deve levantar-se como uma voz profética de um mundo novo…

Portanto, como bem observou o autor Jorge Pinheiro, apesar das diferenças, pode-se fazer um diálogo e observar as aproximações entre as ideias de Gramsci e as de Tillich, porém, fazendo a defesa da democracia proposta por este último, uma democracia que coopera para uma harmonia metafísica do movimento profético e que se instaura do processo histórico.

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Notas / Referências:

  • [1]  Resenha crítica apresentada na disciplina Protestantismo e Cultura, do Curso de Pós-graduação em História e Teologia do Protestantismo no Brasil, da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, ao Professor Dr. Jorge Pinheiro, em dezembro de 2014.
  • [2] PINHEIRO, Jorge & Nairá. Ciências da Religião: reflexões para hoje. São Paulo: Fonte Editorial, 2014, p. 33-50.

 

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