As Cruzadas

A Idade Média pode ser dividida em dois momentos: a Alta e a Baixa Idade Média. É no contexto da Baixa Idade Média que surgem as cruzadas, uma espécie de guerra santa, empreendida pelos católicos para lutar contra os muçulmanos que dominavam Jerusalém e outras regiões consideradas sagradas pelos cristãos no Oriente.

A guerra pela Terra Santa, que durou do século XI ao XIV, foi iniciada logo após o domínio dos turcos seljúcidas sobre esta região considerada sagrada para os cristãos. Após o domínio da região, os turcos passaram impedir ferozmente a peregrinação dos europeus, através da captura e do assassinato de muitos peregrinos que visitavam o local unicamente pela fé. [1]

Foram envolvidos nestes confrontos, que se estenderam por mais de duzentos anos, nobres, camponeses, mendigos, e até crianças, que ficaram conhecidos como cruzados. Enfrentaram longas jornadas até o Oriente com o objetivo de combater os “infiéis” (neste caso, os muçulmanos) e convertê-los ao Cristianismo.

Na verdade, a iniciativa de lutar contra os muçulmanos iniciara-se três séculos antes, quando da conquista destes à península Ibérica. Mas as lutas ganharam a dimensão de uma verdadeira “guerra santa”, a partir do século XI, principalmente depois que os turcos seljúcidas dominaram a região da terra santa – Jerusalém e arredores.

Os seljúcidas eram um povo nômade turco de religião islâmica sunita que gradualmente adotou a cultura persa e contribuiu para a traição turco-persa na Ásia medieval Central e Ocidental. Estabeleceram o chamado Império Seljúcida que estendia-se da Ásia Central até atual Turquia e Palestina, devido à conquista desta última, tornaram-se alvos dos cristãos ocidentais. [2]

Em 1071, Jerusalém foi conquistada pelos turcos, também muçulmanos, porém mais radicais. Desde então, tornaram-se muito perigosas as peregrinações à Terra Santa.[3] Por causa disto, os bizantinos, cristãos ortodoxos orientais, que por esta época, início do século XI, estavam bem enfraquecidos militarmente e sem condições de enfrentar a pressão dos turcos em seus domínios, pediram ajuda aos cristãos ocidentais. O papa Urbano II, que acusa os turcos de assassinarem os peregrinos e profanarem os lugares santos, procura encorajar os cristãos do Ocidente à guerra. Para viabilizar a expedição, convocou senhores feudais, bispos, cavaleiros e toda a população. A cruz costurada nas costas dos voluntários tornou-se símbolo das expedições, daí o nome Cruzadas dada ao movimento.

As expedições

As Cruzadas oficiais foram convocadas a partir do sermão do papa Urbano II, em 1095. A fim de reunir o maior número de homens para essa empreitada, ele conclamou todos os cavaleiros, clérigos e fiéis cristãos a se mobilizarem e a vingarem os lugares sagrados em troca da libertação dos pecados.

(…) Empreendei o caminho do Santo Sepulcro, arrancai aquela terra àquele povo celerado e submetei-la a vós: ela foi dada por Deus em propriedade aos filhos de Israel; como diz a Escritura, nela correm rios de leite e mel. Jerusalém é o centro do mundo, terra feraz por cima de qualquer outra quase como um paraíso de delícias; o Redentor do gênero humano a tornou ilustre com sua vinda, a honrou com sua passagem, a consagrou com sua Paixão, a redimiu com sua morte, e a tornou insigne com sua sepultura (…) Empreendei, pois este caminho em remissão de vossos pecados, certos da imarcescível glória do reino dos Céus. (…) Todo aquele que queira cumprir esta santa peregrinação e que faça promessa a Deus e a Ele se tenha consagrado como vítima viva, santa e aceitável, leve sobre seu peito o sinal da Cruz do Senhor. [4]

Vejamos um resumo das Cruzadas. Primeiramente, é bom salientar que alguns textos mencionam uma Cruzada de Mendigos ou Cruzada Popular, organizada por um monge, chamado Pedro, o Eremita, em 1096. Mas fiquemos apenas com as oito cruzadas [5] destacadas abaixo. Convém destacar, também, que muitos historiadores não dedicam muito espaço a estas expedições, limitando-se normalmente aos objetivos e consequências, sobretudo comerciais, das Cruzadas:

  • Primeira Cruzada (1096 a 1099): convocada pelo papa Urbano II, no ano anterior, reuniu a nobreza europeia, com o objetivo duplo de auxiliar os cristãos ortodoxos do leste e liberar Jerusalém e a Terra Santa do jugo muçulmano. A atitude do papa – nesta Primeira Cruzada – foi motivada em parte pelo imperador Aleixo I Comneno, de Constantinopla (1081-1118), que temia uma investida muçulmana contra seus territórios, dada a proximidade de seus domínios com a cidade santa de Jerusalém. Urbano II prometeu aos participantes da expedição, a absolvição dos pecados, além da garantia de terras e riquezas quando da reconquista da Terra Santa. Mas, segundo o professor Israel Batista, Jerusalém foi devastada e cerca de cento e quarenta mil pessoas foram mortas, num momento de grande fanatismo dos cristãos europeus.
  • Segunda Cruzada (1147 a 1149): proclamada pelo papa Eugénio III, pregada por São Bernardo de Claraval e liderada pelos monarcas Luís VII da França e Conrado III da Germânia. Esta acabou por complicar a relação entre os reinos cruzados, bizantinos e governantes muçulmanos. Esta Segunda Cruzada terminou em desastre para os cristãos ocidentais, acabando por complicar a relação entre os reinos cruzados, bizantinos e governantes muçulmanos.
  • Terceira Cruzada (1189 a 1192): conduzida por Ricardo I (Ricardo Coração de Leão) da Inglaterra, Filipe Augusto da França e Federico Barba Ruiva, do Sacro Império Romano-Germânico. Esta Terceira Cruzada também não resultou em vitória para os cristãos mas o rei Ricardo Coração de Leão conseguiu assinar um acordo de paz com Saladino permitindo a peregrinação dos cristãos com segurança até Jerusalém.
  • Quarta Cruzada (1202 a 1204): pregada pelo papa Inocêncio III e liderada por Balduíno IX, Conde de Flandres e o Marquês de Montferrant, deixou notáveis consequências política e religiosa porque enfraqueceu o Império Oriental e agravou o ódio entre a cristandade grega e latina. Além disso, nesta Quarta Cruzada, a disputa com grupos, considerados hereges, incentivou, a criação do Tribunal do Santo Ofício, tempos depois (1231).

Cruzada das Crianças (1212): cruzada não oficial. “Diante das constantes derrotas das Cruzadas, difundiu-se a lenda de que o Santo Sepulcro – local onde, segundo o Novo Testamento, Jesus Cristo foi sepultado – só poderia ser conquistado por crianças, pois elas eram isentas de pecados. Em 1212, 20 mil crianças germânicas e 30 mil francas foram encaminhadas a Jerusalém. Muitas acabaram morrendo pelo caminho, outras foram assassinadas ou aprisionadas e vendidas como escravas nos mercados do Oriente. Em resumo, a expedição foi um enorme fracasso.”Idem, Nota 3

  • Quinta Cruzada(1217 a 1221): idealizada no Quarto Concílio de Latrão, em 1215, mas efetivada no ano de 1217, a mando do papa Honório III e liderada por André II, rei da Hungria, Leopoldo VI, duque da Áustria, Jean de Brienne, considerado por eles rei de Jerusalém; e Frederico II, do Sacro Império Romano-Germânico. Como as anteriores, esta Quinta Cruzada foi um fracasso, não conseguindo nem mesmo superar as enchentes do rio Nilo e desistindo de seus objetivos de tomar uma fortaleza muçulmana no Egito.
  • Sexta Cruzada (1228 a 1229): liderada por Frederico II, conseguiu obter a posse de Jerusalém, de Belém e de Nazaré para os cristãos por dez anos. Nesta Sexta Cruzada, Federico II, que era herdeiro do trono de Jerusalém, mas partidário do diálogo com os muçulmanos, foi excomungado duas vezes pelo papa Gregório IX, por causa disto. Em 1244 os cristãos perderam o domínio dessas localidades novamente para os muçulmanos.
  • Sétima Cruzada(1248 a 1254): liderada pelo rei francês Luís IX. O objetivo do rei, nesta Sétima Cruzada era alcançar o Egito. Após algumas investidas o exército de cruzados conseguiu vitórias importantes e o domínio de alguns territórios, mas a prisão do líder francês fez com que tudo se perdesse.
  • Oitava Cruzada (1270): liderada, também por Luís IX. O objetivo desta Oitava Cruzada era dar prosseguimento às lutas anteriores, mas foi atacado e morto pela peste, ao chegar em Túnis (Tunísia, África do Norte). Após sua morte, as expedições – também fracassadas – foram encerradas.

Consequências das Cruzadas

Apesar de não terem alcançado totalmente seu objetivo, aliás no aspecto religioso, todas foram um fracasso, as Cruzadas promoveram grandes mudanças em toda a Europa, como a reabertura do Mediterrâneo à navegação e ao comércio entre o Ocidente e o Oriente, interrompido em grande parte pela expansão muçulmana.

Conforme Leo Huberman, as Cruzadas

“… ajudaram a despertar a Europa de seu sono feudal, espalhando sacerdotes, guerreiros, trabalhadores e uma crescente classe de comerciantes por todo o continente: intensificaram a procura de mercadorias estrangeiras; arrebataram a rota do Mediterrâneo das mãos dos muçulmanos e a converteram, outra vez, na maior rota comercial entre o Oriente e o Ocidente, tal como antes” [6] .

Portanto, as Cruzadas serviram para:

  • restabelecer as relações entre o Ocidente e o Oriente;
  • promover a abertura do mar Mediterrâneo aos mercadores da Europa Ocidental;
  • que os europeus passassem a conhecer novos produtos trazidos do Oriente, como gengibre, pimenta, canela, cravo-da-índia, óleo de arroz, açúcar, figos, tâmaras e amêndoas, tapetes, espelhos de vidro, madeiras, sal, perfumes…

Veja também o vídeo Cruzadas 1, com o Professor Israel Batista:


–  –  –  – –  –  –  –  –  –  –  – –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –  –

Referências:

  • [1] Imagem disponível em: <http://biadeboralopes.blogspot.com.br/2012/09/as-cruzadas.html>. Acesso em 30/04/2014.
  • [2] Veja mais em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Turcos_selj%C3%BAcidas>. Acesso em 30/04/2014.
  • [3] PILETTI, Nelson & Claudino. EJA – Educação de Jovens e Adultos – História – 3º Ciclo. São Paulo: Ática, 2003, p. 106 a 109.
  • [4] Parte do Discurso do papa Urbano II, 1095, convocando os cristãos a lutarem nas Cruzadas. Texto disponível em: <http://ascruzadas.blogspot.com.br/2009/04/bem-aventurado-papa-urbano-ii-popolo.html>. Acesso em 30/04/2014.
  • [5] Veja mais sobre As Cruzadas, em: <http://www.infoescola.com/historia/as-cruzadas/> e seus links correlatos, seguidos no decorrer do texto.
  • [6]  HUBERMAN. Leo. História da riqueza do homem. In: PILETTI, Nota 3.

 

Esta entrada foi publicada em História e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.