A formação das monarquias centralizadas europeias.

Sobre o processo de centralização do poder e da consolidação do Absolutismo na Europa, queremos destacar dois POSTS. Este, onde destacamos o início de formação dos Estados Nacionais[1], na Baixa Idade Média, e outro, com destaque à consolidação do  Absolutismo na Europa, Idade Moderna.

França, Inglaterra, Portugal, Espanha. Hoje, é difícil imaginar a Europa sem esses países. Mas eles só começaram a se consolidar a partir da Baixa Idade Média, paralelamente ao desenvolvimento do comércio e das cidades.

Durante a Idade Moderna, com o apoio financeiro da burguesia, os monarcas, que tiveram seus poderes bastante reduzidos, agora conseguem sua consolidação.

Veja, por enquanto, o vídeo [2] a seguir:

Os reis começaram a concentrar grandes poderes, a partir do século XI, em parte por causa do apoio e do dinheiro recebido dos burgueses. Ao longo do processo de centralização do poder, a aproximação entre o rei e a burguesia poria fim à fragmentação política. Entretanto, isso não significou a exclusão da nobreza feudal do poder. Ela se manteve ligada ao rei usufruindo de sua política e de privilégios.

Além dos reis, ganharam importância nesse processo os burgueses, que se tornaram mais tarde o grupo social de maior poder político e, sobretudo, econômico.

 

1. A formação das monarquias

O processo de formação de monarquias com poder centralizado consolida-se entre os séculos XIV e XVI. Ao final de alguns séculos, esse processo deu origem a muitos dos países atuais da Europa, como França, Portugal e Espanha. Entretanto, ele não ocorreu ao mesmo tempo e da mesma maneira em todos os lugares do continente. Em regiões como a península Itálica e o norte da Europa nem chegou a se consolidar.

Quase sempre estiveram envolvidos nesse processo de centralização do poder os mesmos grupos sociais: os reis, a burguesia e os nobres feudais. Cada um desses grupos era movido por interesses próprios. Muitas vezes, esses interesses eram convergentes; outras vezes, radicalmente opostos.

Para a burguesia, novo grupo social que se formava, a descentralização política do feudalismo era inconveniente. Isso porque submetia os burgueses aos impostos e taxas cobrados pelos senhores e dificultava a atividade comercial pela ausência de uma moeda comum e de pesos e medidas padronizados.

Essas circunstâncias acabaram aproximando os burgueses dos reis, interessados em concentrar o poder em suas mãos. Nessa aliança, a burguesia contribuía com dinheiro e o rei, com medidas administrativas que favoreciam o comércio. O dinheiro da burguesia facilitava aos reis a organização de um exército para impor sua autoridade à nobreza feudal.

Essa mesma nobreza feudal, por sua vez, encontrava-se enfraquecida pelos gastos com as Cruzadas e tinha necessidade de um apoio forte, até mesmo para se defender das revoltas camponesas, que se intensificavam. Desse modo procurou apoio nos reis, apesar de muitas vezes se sentir prejudicada com a política da realeza em favor da burguesia, que colocava fim a vários dos privilégios feudais. Dividido entre a burguesia e a nobreza feudal, o rei serviu de uma espécie de mediador entre os interesses dos dois grupos.

Ao final de um longo tempo, esse processo acabou possibilitando a formação de um poder centralizado e a consolidação de uma unidade territorial. Com isso, formaram-se em diversas regiões da Europa monarquias com poder centralizado, nas quais os reis detinham grande parte do poder.

Assim, a monarquia centralizada foi a forma de governo sob a qual se organizou a Europa entre o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.

A seguir, estudaremos o processo de formação de algumas monarquias europeias desse período.

 

2.  A Monarquia francesa

Em 843, o Império Carolíngio foi dividido em três reinos, que, por sua vez, já estavam subdivididos em feudos governados por duques, marqueses e condes. Os reis eram suseranos, que dependiam dos nobres locais para a obtenção de soldados e rendimentos.

Em 987, com a subida ao trono de Hugo Capeto, um desses reinos, o da França, passou a ser governado pela dinastia dos capetíngios.

Um seu descendente, Filipe Augusto é considerado o primeiro rei a iniciar o processo de consolidação da Monarquia francesa. Em seu reinado (1180 – 1223), as cidades começaram a ser libertadas do domínio dos senhores feudais, o que favoreceu a consolidação da burguesia. Apoiado por ela, Filipe impôs sua autoridade aos nobres. Durante seu governo, Paris passou a ser a capital do Reino da França.

O processo de consolidação da Monarquia na França foi impulsionado por Luís IX (1226 – 1270). Ele criou uma moeda única, cuja aceitação se tornou obrigatória em todo o território do reino. Contribuiu, assim, para o comércio, facilitando a circulação das mercadorias.

Durante o reinado de Filipe IV (1285 – 1314), mais  conhecido como Filipe, o Belo, os mercadores e banqueiros estrangeiros chegaram a ser expulsos da França para evitar a saída de dinheiro, o que fortaleceu ainda mais a burguesia francesa e o próprio rei.

Seu governo entrou em conflito com a Igreja, porque queria cobrar impostos do clero. Com a morte do papa Bonifácio VIII, foi escolhido para substituí-lo o francês Clemente V. Em 1309, Filipe, o Belo, pressionou-o para que transferisse o papado de Roma para a cidade francesa de Avignon (sudeste da França). Assim, a Igreja ficou sob o controle do rei francês. A sede da Igreja só voltaria para Roma em 1377.

O Grande Cisma do Ocidente, Cisma Papal ou simplesmente Grande Cisma foi uma crise religiosa que ocorreu na Igreja Católica de 1378 a 1417.

Entre 1309 e 1377, a residência do papado foi alterada de Roma para Avignon, na França, pois o Papa Clemente V foi levado (sem possibilidade de debate) pelo rei francês para residir em Avignon. Em 1378, o Papa Gregório XIvoltaria para Roma, onde faleceria. A população italiana desejava que o papado fosse restabelecido em Roma. Foi então eleito o Urbano VI, de origem italiana. No entanto, ele demonstrou ser um papa muito autoritário, de modo que uma quantidade considerável do Colégio dos Cardeais, anularia a sua votação e foi realizado um novo conclave, sendo eleito Clemente VII, que passou a residir em Avignon. Iniciara-se assim o Cisma, em que o Papa residia em Roma e o Antipapa residia em Avignon , reclamando ambos para si o poder sobre a Igreja Católica. Posteriormente, surgiria outro Antipapa em Pisa. O cisma terminou no Concílio de Constança em 1417, quando o papado foi estabelecido definitivamente em Roma… [3]

A Monarquia francesa consolidou-se nos séculos XIV e XV, durante a Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra. Aliás, esse conflito seria importante também para a Inglaterra consolidar seu poder central, como veremos logo adiante.

3.  A Monarquia inglesa

Nas Ilhas Britânicas, em meados do século XI, havia quatro reinos: Escócia, País de Gales e Irlanda, formados pelos celtas, e Inglaterra, formada por povos anglo-saxões.

Em 1066, o duque Guilherme, da Normandia (região do norte da França), invadiu e conquistou a Inglaterra.

Guilherme, o Conquistador, como ficou conhecido, era vassalo do rei francês. Ele dividiu a Inglaterra em condados, para os quais nomeou um funcionário a fim de representá-lo. Esse funcionário (xerife) tinha autoridade sobre todos os habitantes, fossem eles senhores ou camponeses. Com isso, Guilherme acabou fortalecendo seu poder.

Em 1154, um nobre francês, Henrique Plantageneta, parente de Guilherme, herdou a Coroa do Reino da Inglaterra, passando a chamar-se Henrique II (1154 – 1189). Nesse período ocorreu de fato a centralização do poder na Inglaterra.

Henrique II foi sucedido por seu filho, Ricardo Coração de Leão (1189 – 1199). Dos dez anos de seu governo, Ricardo ausentou-se da Inglaterra por nove anos, liderando a Terceira Cruzada e lutando no continente europeu para manter seus domínios na França. Essa longa ausência causou o enfraquecimento da autoridade real e o fortalecimento dos senhores feudais.

No reinado de João Sem-Terra (1199 – 1216), irmão de Ricardo, o enfraquecimento da autoridade real foi ainda maior. Após ser derrotado em conflitos com a França e com o papado, João Sem-Terra foi obrigado, pela nobreza inglesa, a assinar um documento chamado Magna Carta (1215). Por esse documento, a autoridade do rei da Inglaterra ficava bastante limitada. Ele não podia, por exemplo, aumentar os impostos sem prévia autorização dos nobres. A Magna Carta estabelecia que o rei só podia criar impostos depois de ouvir o Grande Conselho, formado por bispos, condes e barões.

Henrique III (1216 – 1272), filho e sucessor de João Sem-Terra, além da oposição da nobreza, enfrentou forte oposição popular. Um nobre, Simon de Montfort, liderou uma revolta da aristocracia e, para conseguir a adesão popular, convocou um Grande Parlamento em 1265, do qual participavam, além da nobreza e do clero, representantes da burguesia.

No reinado de Eduardo I (1272 – 1307), oficializou-se a existência do Parlamento. Durante os reinados de Eduardo II e de Eduardo III, o poder do Parlamento continuou a se fortalecer. Em 1350, o Parlamento foi dividido em duas câmaras: a Câmara dos Lordes, formada pelo clero e pelos nobres, e a Câmara dos Comuns, formada pelos cavaleiros e pelos burgueses.

Como podemos ver, na Inglaterra o rei teve seu poder restringido pela Magna Carta e pelo Parlamento. Mas isso não significou ameaça à unidade territorial ou um poder central enfraquecido, muito pelo contrário. Comandada pelo rei, conforme os limites impostos pelo Parlamento, a Inglaterra se tornaria um dos países mais poderosos da Europa, a partir do século XVI. Até hoje, a Inglaterra é uma monarquia parlamentarista.

4.  A Guerra dos Cem anos

Guilherme, o Conquistador, ao dominar a Inglaterra, acabou ligando-a aos franceses, já que ele era vassalo do rei da França.

No início do século XIV, o rei Eduardo III da Inglaterra manifestou a intenção de ocupar o trono francês, do qual se julgava herdeiro. Ao mesmo tempo, desejava dominar a região de Flandres (atuais Bélgica e Holanda), grande produtora de tecidos.

Essas ambições acabaram provocando um conflito entre a Inglaterra e a França: a Guerra dos Cem Anos. Ela tem esse nome porque, com pequenas interrupções, prolongou-se por mais de um século: de 1337 a 1453. O início do conflito é marcado pela invasão do território francês pelos exércitos da Inglaterra.

Os ingleses venceram as batalhas iniciais, apoderando-se de grande parte do território francês. Mas essas vitórias intensificaram a união e a resistência da população francesa. O principal símbolo dessa união foi Joana d’Arc, uma jovem camponesa que obteve vitórias contra os exércitos ingleses, reanimando os franceses.

Assustados com a jovem camponesa, os ingleses conseguiram aprisioná-la. Julgada por heresia, foi condenada à morte numa fogueira. Mas isso não impediu que os franceses retomassem os territórios perdidos e expulsassem os ingleses.

Na imagem, a heroína francesa que foi canonizada como Joana d’Árc, morta em 30 de maio de 1431 [4].

O desfecho da Guerra dos Cem Anos contribuiu para estabelecer os limites territoriais tanto da França vitoriosa quanto da Inglaterra derrotada, além de ter suscitado nos dois lados a formação de um importante sentimento nacional.

 

5. A Monarquia portuguesa

Portugal foi um dos primeiros países da Europa a consolidar um governo forte, centralizado na pessoa do rei. A formação da Monarquia portuguesa iniciou-se nas lutas dos cristãos pela expulsão dos árabes islâmicos que, desde o século VIII, ocupavam a península Ibérica. Essas lutas ficaram conhecidas como guerras de Reconquista.

Durante o domínio árabe, os reinos cristãos ficaram restritos ao norte da península – como Navarra. A partir do século XI, pouco a pouco eles conseguiram ampliar seu território. Foram fundados,então, vários reinos, entre os quais Aragão, Leão, Castela. Com isso, os árabes começaram a recuar em direção ao litoral sul.

Durante as guerras de Reconquista, destacou-se o nobre francês Henrique de Borgonha. Como recompensa, ele recebeu do rei de Leão e Castela, Afonso VI, a mão de sua filha e terras que constituíram o condado Portucalense.

O filho e herdeiro de Henrique de Borgonha, Afonso Henriques, proclamou-se então rei de Portugal em 1139, rompendo os laços com Leão e Castela. Tinha início, assim, a dinastia de Borgonha. Afonso Henriques, o conquistador, estendeu seus domínios para o sul, até o rio Tejo, e fez de Lisboa sua capital.

Em 1383, com a morte do ultimo rei (sem herdeiros diretos) da dinastia de Borgonha, D. Fernando, o Formoso, a Coroa portuguesa ficou ameaçada de ser anexada pelo soberano de Castela, parente do rei morto. A burguesia, por sua vez, temia ver seus interesses comerciais prejudicados pelos nobres castelhanos.

Para evitar a perda da independência, os portugueses aclamaram D. João, meio-irmão do rei morto, novo rei. João, mestre da cidade de Avis, venceu a disputa e assumiu o trono em 1385. O apoio financeiro da burguesia foi decisivo nessa vitória. Assim, durante toda a dinastia de Avis, os reis favoreceram e apoiaram as atividades burguesas.

 

6. A Monarquia espanhola

 A formação da Monarquia espanhola também esteve ligada às guerras de Reconquista da península Ibérica. Vimos que durante esse processo, diversos reinos foram constituídos. Em 1469, o casamento de Fernando (herdeiro do trono de Aragão) com Isabel (irmã do rei de Leão e Castela) uniu três reinos. Era o primeiro passo para a formação da Espanha.

Em 1492, os exércitos de Fernando e Isabel apoderaram-se de Granada e expulsaram os árabes da península Ibérica, consolidando a monarquia.

No século XVI, com Carlos I, a Monarquia de Castela, atual Espanha, fortaleceu-se ainda mais.

As rebeliões camponesas

Além das guerras internas e externas e dos interesses da burguesia, outro movimento contribuiu para o fortalecimento do poder dos reis: as revoltas camponesas.

Essas revoltas eram conseqüências da fome, da miséria e da superexploracão dos camponeses. Assustados com as rebeliões, os senhores feudais aceitavam a autoridade do rei, que, fortalecido, podia organizar exércitos para reprimir os numerosos movimentos de contestação.

Na França, as principais rebeliões ganharam o nome de jacqueries. Isso em virtude da expressão “Jacques Bonhomme”, designação desdenhosa usada pelos nobres para referir-se a qualquer camponês (algo como Zé Ninguém). Na Inglaterra, os rebeldes foram liderados por um camponês artesão chamado Wat Tyler e por um padre de nome John Ball.

Os camponeses na França e na Inglaterra lutavam por melhores condições de vida. Não suportando mais as pesadas taxas exigidas pelos nobres, eles invadiram os castelos e saqueavam os depósitos de alimento.

As revoltas não duraram muito tempo, pois foram reprimidas com violência pelos exércitos ligados ao rei. Mesmo assim, contribuíram para mostrar a insatisfação e a capacidade de luta dos camponeses.

 

Notas/Referências:

  • [1]  PILETTI, Nelson & Cládino. História: EJA – Educação de Jovens e Adulto – Ensino Fundamental, 3º Ciclo. São Paulo: Ática: 2003, p. 114 a 120 – Texto básico..
  • [2]  BATISTA, Israel.  Estado Absolutista Moderno – Parte 1. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=tJRoGE0GIHQ>. Acesso em 16/11/2015.
  • [3] Grande Cisma do Ocidente. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Cisma_do_Ocidente>. Acesso em 16/11/2015.
  • [4] Joana d’Arc. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joana_d%27Arc. Acesso em 16/11/2015.

 

Esta entrada foi publicada em História e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

3 respostas a A formação das monarquias centralizadas europeias.

  1. Anônimo disse:

    Ruum
    Obdg😍😍😍

  2. Opa! Obrigado, Gustavo, pelo carinho…

  3. Gustavo davi disse:

    Queria ter o privilégio de ter uma aula com esse professor.. em um texto extremamente resumido e sucinto explicou tudo que o meu professor vem tentando em semanas e nao consegue.. Meus Parabéns! Auxiliou demais o meu conhecimento a respeito dessa parte da Idade Média.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.