Assembleia de Deus Belém: origem e influência

Por Thiago Tropardi Gonçalves (*)

(*) Pesquisa sobre a origem, desenvolvimento e influência do pentecostalismo brasileiro com ênfase nas Assembleias de Deus, apresentada na disciplina Colonização europeia e protestantismo brasileiro, do curso de Pós-graduação em História e Teologia do Protestantismo no Brasil, da Faculdade Teológica Batista.

 

Introdução

 As Assembleias de Deus atualmente constituem a maior denominação protestante/pentecostal do Brasil. Tem-se, no tempo presente, em terras tupiniquins um pentecostalismo bastante variado, amplo e extremamente complexo. Esse movimento pentecostal introduzido em nosso país nas primeiras décadas do século XX deve muito de suas estruturas e praticamente toda a sua formação inicial às duas denominações pentecostais pioneiras em território nacional. A Congregação Cristã no Brasil (CCB) e as Assembleias de Deus (ADs). Essas formam o que chama de “pentecostalismo clássico”, isto é, o pentecostalismo primeiro e pioneiro no Brasil, também conhecido como pentecostalismo de primeira onda. Esse recorte proposto por Paul Freston[1] e engloba os primeiros quarenta anos do movimento pentecostal no Brasil tendo como protagonistas os “pentecostalismos” sueco e italiano representados respectivamente por ADs e CCB.

Fundadas na década de 1910 e 1911 respectivamente, CCB e ADs serviram de bases para todo o movimento pentecostal posterior, suas altas taxas de crescimento, seus fundamentalismos religiosos e a introdução dessas congregações em camadas antes inalcançadas pelo protestantismo tradicional fizeram destes dois grupos os mais importantes e significativos grupos pentecostais no Brasil, ao menos entre os primeiros anos. Este breve texto se propõe observar a história e influência assembleiana na sociedade brasileira, bem como analisar alguns paradigmas e peculiaridades próprias do pentecostalismo praticado nas ADs. Essa complexa e multifacetada estrutura eclesiástica, organizada em ministérios[2] e convenções[3], que abrangem grande parte do território nacional e que possui milhões de membros em seu rol, tem uma dupla origem. Por um lado, foi fundada por missionários suecos e, sem sombra de dúvidas, tem nos suecos sua maior influência inicial mas, por outro lado, também recebeu missionários norte-americanos e, mesmo os suecos fundadores, chegaram ao Brasil vindos dos Estados Unidos da América (EUA) e envolvidos diretamente com o movimento pentecostal norte-americano popularizado por Willian Joseph Seymor que, não obstante, estava surgindo de modo esporádico em diferentes cantões da nação.

Partindo dessa dupla base de influência na fundação e consolidação das ADs no Brasil, da influência inicial sueca e secundária norte-americana, bem como seu peculiar paradigma de expansão, do Nordeste para as outras regiões do país, pode-se observar o ineditismo do protestantismo pentecostal e seu diferenciado conjunto de influências sobre seus membros.

As fontes fundamentais, específicas, utilizadas neste artigo são os trabalhos do professor Gedeon Freire de Alencar sobre as Assembleias de Deus[4], a obra de pesquisadora Marina Correa[5] sobre o mesmo assunto e, principalmente, o compêndio sobre pentecostalismo organizado por Isael de Azevedo[6].

Origem das Assembleias de Deus

Gustaf Hogberg (Daniel Berg) e Adolf Gunnar Vingren[7] foram os fundadores das Assembleias de Deus no Brasil. Os dois missionários de origem sueca chegaram a Belém do Pará no ano de 1911[8]. Na ocasião foram recebidos, de fato socorridos, pela Igreja Batista local, morando durante algum tempo no porão da igreja localizada na Rua Balby 406, em seguida foram morar na casa de um presbiteriano chamado Adriano Nobre de Almeida, este teria sido o primeiro professor de português dos suecos[9]. Em pouco tempo houve uma cisão na igreja, causada pela pregação pentecostal dos suecos, e parte da membresia foi expulsa juntamente com os missionários. Essa dissidência batista foi a matriz da primeira igreja das Assembleias de Deus no Brasil. Cabe lembrar que o nome inicial não é Assembleias de Deus mas Missão de Fé Apostólica[10], as primeiras reuniões da recém-fundada igreja ocorreram na casa de Celina de Albuquerque, à Rua Siqueira Mendes 67, em Belém[11]. Celina, segundo a historiografia oficial, foi primeira crente a receber o batismo no Espírito Santo no Brasil[12].

As ADs nasceram no nordeste brasileiro. Inicialmente e, na verdade durante quase a totalidade de sua história, seu público consistia em pessoas pobres, a maioria negras ou mestiças e nordestinas, isto é, o pentecostalismo assembleiano, ligeiramente diferente do pentecostalismo da CCB[13], nasceu entre os pobres e marginalizados. Levando-se em consideração a alta taxa de analfabetismo e a pobreza generalizada do Brasil no início do século XX com ênfase para a pobreza dos escravos libertos em 13 de Maio de 1888 com a Lei Áurea e seus descendentes, é possível argumentar que, diferente das demais denominações protestantes, as protestantes históricas, as ADs se lançam a um público bastante distinto daquele pretendido pelo protestantismo já instalado desde meados do século XIX.  Essa opção pentecostal pelos pobres parece ter ocorrido não de uma ação planejada, considerando que a origem dos suecos também era humilde deve-se fazer uma leitura do pentecostalismo fundante no Brasil como uma religião de pobres para pobres, uma proposta religiosa aos cansados e oprimidos[14] que, dadas as condições de vida que os pobres cotidianamente enfrentavam na época via no messianismo de espera uma esperança de justiça final e de realização se não nesta, na outra vida. O pentecostal perseguido sofre as mazelas de um país pseudocivilizado e, na mentalidade pentecostal popular, as sofre não apenas em decorrência da situação socioeconômica de sua nação, mas como efeito da perseguição do mundo contra o povo de Deus, o povo pentecostal. De certa forma a pobreza é, no pentecostalismo fundante, um gerador de dignidade e quase uma aprovação de que o cristão pentecostal, uma vez pobre e perseguido, agrada a Deus[15].

Nesse interim, enquanto o protestantismo tradicional, principalmente de missão, buscou estratégias visando alcançar as camadas médias e altas da sociedade, notavelmente minoria, o pentecostalismo, provavelmente de modo inconsciente e natural, se lançou, como já dito, as camadas menos letradas e mais pobres da população. Talvez por conta da região onde primeiramente se instala, talvez pela origem humilde dos suecos que fundaram a denominação no país, ou ainda por causa mesmo do forte diálogo, ou das possibilidades de diálogo, entre o pentecostalismo nascente e as práticas místicas e mágicas do catolicismo popular[16]. Essa interação entre catolicismo-pentecostalismo e pentecostalismo-católicos-pobres ocorre também de modo geral no Brasil da época do surgimento e implantação do pentecostalismo. Passos aponta o contexto dialético do país durante o século XX e como a transição e oposição entre rural e urbano causam choques e fusões entre elementos pertencentes as duas vivências[17]. Nessa dinâmica a cultura popular, e consequentemente a religiosa, é fortemente influenciada por este espectro de fusão-dialética e contradição-dialogada entre os diferentes contextos, modos de pensar e estilos de vida que se chocavam no cotidiano das relações pessoais e coletivas e que, inevitavelmente, transbordavam sobre todos os aspectos da sociedade, inclusive o aspecto religioso. Assim, do Nordeste para o restante do país e a partir de 1911, o pentecostalismo não seguiu apenas fluxos migratórios e transformações históricas, seguiu também fluxos abstratos de mudanças culturais e de mentalidades que se verificam em toda sua trajetória histórica e nos desdobramentos do pentecostalismo como movimento hoje. As ADs cresceram, se movimentaram e muitas vezes resistiram enquanto abraçavam aspectos da sociedade local, esse processo pode ser constatado nos primórdios da história da denominação, nas influências sofridas por ela, na ação dos obreiros tanto suecos como brasileiros, nas articulações de poderes e nos resultados obtidos.

Os missionários suecos iniciaram sua pregação a partir da cidade de Belém do Pará. Na época havia considerável progresso na região em função da exportação de borracha vinda da região amazônica. Segundo Alencar as ADs se iniciam no Pará em 1911, alcança o Ceará em 1914, as Alagoas em 1915, o Pernambuco em 1916[18]. Cabe salientar o crescimento não planejado das ADs, esse crescimento foi aleatório e desordenado, acorreu de acordo com as necessidades e possibilidades específicas daqueles contexto, dessa forma a expansão da denominação se deu como consequência de elementos externos como a migração de nordestinos pelo Brasil, tanto para o sudeste quanto para a região amazônica em busca de trabalho na indústria da borracha. A crise da borracha, a partir de 1918 pode também ser considerada um fator de propulsão do crescimento assembleiano, de modo que, a migração de convertidos das regiões Norte para outras regiões e Estados favoreceu o crescimento da denominação. Mesmo Vingren, quando chegou ao Rio de Janeiro em 1929, encontrou uma igreja local o esperando. Assim a região e as condições contingentes em que se instalam as ADs são determinantes para a direção e proporção de seu crescimento.

Os dois missionários fundadores das ADs, Berg e Vingren, apesar de serem europeus de pele clara e, no caso de Vingren, possuir letramento razoável[19], eram, de fato de origem humilde. Berg era um operário e nunca cursou ensino superior, tampouco aprendeu a falar o português corretamente. Daniel, segundos os registros disponíveis, nunca foi consagrado pastor, missionário ou recebeu qualquer título eclesiástico, a posição do pioneiro foi secundária desde o início e, considerando que Berg viveu três décadas mais que Vingren, o protagonismo deste passa gradativamente para Samuel Nystrom e Nels Nelson (e não para Berg), os missionários suecos de segunda geração mais importantes na história assembleiana e em seguida para os líderes brasileiros. Gunnar Vingren possuía melhor instrução que Daniel, especialmente em questões teológicas, Vingren havia cursado o seminário batista sueco nos EUA. Ademais, sua esposa Frida Vingren demostrou desde cedo grande erudição e aptidão em várias áreas[20]. Gunnar foi efetivamente o missionário principal e líder da denominação em seus primeiros anos, pastoreou por 14 anos a igreja de Belém e foi pastor interino de 1924 a 1932 na igreja de São Cristovam no Rio de Janeiro, a época a maior congregação das ADs no país. Não obstante a formação de Vingren, ele e Berg possuíam origem bastante humilde, participavam, quando jovens, da Igreja Batista em Estocolmo uma denominação dissidente e por vezes perseguida pela igreja estatal luterana sueca, essa igreja oficial representava em muitos aspectos uma ameaça as dissidentes. Alguns registros mostram inclusive a empolgação dos missionários suecos com a liberdade religiosa brasileira estabelecida pela Constituição republicana. A liberdade religiosa que desfrutavam em terras brasileiras não existia na Suécia.

Com tamanha liberdade e vindos de uma matriz pobre a ação dos missionários com relação a pregação foi naturalmente a pregação indiscriminada, isto é, sem escolher previamente o alvo da pregação. Não existia entre os missionários suecos a prioridade de converter o público das camadas superiores e abastadas da sociedade, na verdade parece que inexistia qualquer público alvo para os suecos, eles procuravam pregar sua religião onde esta fosse ouvida e, entre os pobres, a mensagem pentecostal recebeu considerável aceitação. Em muitas ocasiões os missionários suecos eram protegidos pela lei vigente e, não são poucos os casos em que as autoridades os protegem, ou pelo menos amenizam perseguições, de padres católicos que, em muitas regiões do Brasil, eram pequenos coronéis a ditar leis e exercer grande influência nos bairros de suas paróquias.

Talvez o elemento mais significativo a contribuir para a expansão pentecostal no Brasil tenha sido a matriz católico-popular presente desde meados do período colonial. Na América portuguesa se estabeleceu um tipo[21] de catolicismo popular. Esse catolicismo se formou pela união de um catolicismo guerreiro patrocinado pela ação portuguesa adentrando o litoral e estabelecendo uma espécie de guerra, ou dominação cultural, sobre os nativos somado a um catolicismo patriarcal. O catolicismo guerreiro forçou sua entrada através do poder do Estado português. Juntamente com o catolicismo guerreiro o catolicismo patriarcal encabeçado por senhores de terra, donos de grandes latifúndios produtores, principalmente de açúcar e, depois, café. Essa modalidade de catolicismo exerceu grande influência na sociedade colonial, as grandes plantations eram também pequenas paróquias e a união oficiosa (muitas vezes oficial) entre igreja e proprietários de terra foi fundamental para o estabelecimento desse catolicismo. Muitos escravos e indígenas se converteram sob a influência do catolicismo patriarcal. A união desses “catolicismos” deu à luz ao catolicismo popular que serviu de campo missionário para os suecos.

Não obstante, cabe mencionar a essência sincrética e mestiça do catolicismo popular. Esse catolicismo formou-se não em todos os aspectos, combatendo as religiões animistas indígenas e afro. Em certo sentido o catolicismo brasileiro se formou apesar das religiões indígenas e afro e, no decorrer deste processo de formação, incorporou inúmeros elementos dessas matrizes religiosas, assim as religiões afro e indígenas fundiram parte de seu ethos ao catolicismo em construção. Não é incomum associar os santos católicos aos orixás africanos, de fato não incorre, para a maioria dos católicos mesmo atualmente, qualquer incoerência em ir à missa em certas ocasiões e fazer oferendas aos orixás africanos em outras. Basta visitar o litoral do país durante as festas de final de ano para constatar as oferendas a Iemanjá feitas por muitos católicos. Esse catolicismo popular é aquele em que o santo fica de castigo, virado de cabeça para baixo com parte do corpo submerso, quando não atende a pedidos. No caso do pentecostalismo e do neopentecostalismo parece ocorrer o mesmo pois em muitos casos Deus pode ser pressionado e colocado contra a parede ou, se o voto não for cumprido por Deus o fiel pode deixar de arcar com sua parte. Parece, nos meandros da mente evangélica, que quando algo está errado há um problema moral com Deus e, talvez, algum problema metodológico em termos de rito (para encurralar Deus) com o fiel.

Sobre essa matriz católica o pentecostalismo se expandiu e essa expansão deu-se em duplo sentido. Por um lado, os pentecostais possuíam forte resistência e mesmo uma mentalidade apologética com relação a religião do outro, pois para os pentecostais em geral o catolicismo era uma falsa religião, uma religião de demônios. Assim a rejeição a tudo que parecia católico (ou de religião afro) era inevitável. Entretanto, mesmo com o teor apologético, houve uma incorporação inconsciente da matriz católica e de alguns de seus elementos. O pentecostalismo no Brasil adquiriu uma face sui generis agregando elementos do pentecostalismo sueco (inicialmente) e do pentecostalismo norte-americano (em um segundo momento) e somando-os a conceitos, práticas e esquemas do catolicismo popular brasileiro que, por si só, era profundamente sincrético e místico.

Uma das grandes influências geralmente deixada de lado e mesmo ignorada na observação do processo de expansão e construção do pentecostalismo brasileiro é sua matriz sueca. Muitos têm negligenciado a origem sueca dos missionários e do pentecostalismo brasileiro em prol de uma matriz inicial norte-americana, o que consiste em erro de análise. A presença inicial do movimento pentecostal no país foi fortemente sueca e apenas uma segunda, muitas vezes terceira, geração de missionários pentecostais vindos ao país eram estadunidenses. Os principais nomes estrangeiros da fundação e desenvolvimento do pentecostalismo assembleiano em terras brasileiras são suecos, os já citados Daniel Berg, Gunnar Vingren, Nels Nelson[22] e Samuel Nystrom[23]. Houve ainda alguma falha na comunicação quando da chegada de missionários do norte da América ao Brasil. Enquanto os missionários suecos possuíam forte apelo evangelístico, os norte-americanos priorizavam questões de educação, os suecos possuíam projetos que visavam rápida conversão de um número de pessoas cada vez maior em termos absolutos ao tempo que o outro grupo buscava estratégias mais funcionais e que frutificassem a médio e longo prazo.[24]

O erro em se atribuir a matriz inicial do pentecostalismo brasileiro aos Estados Unidos incorre, essencialmente, do fato de os missionários suecos no Brasil terem passado pelo referido país antes de chegar ao Brasil. Um equívoco é pensar que os escandinavos desconheciam o movimento pentecostal, ou ao menos um “proto-pentecostalismo”, antes de chegar à América. Na verdade, existia um crescente movimento de “pentecostalização” nos países escandinavos antes dos eventos de Los Angeles em 1906[25], o recebimento do Batismo no Espírito Santo por Lewi Pethrus em 1902 deixa clara essa realidade e, já em 1905-1906, ocorreram avivamentos espirituais nas regiões suecas de Örebro, Estocolmo, Kristianstad e Hässleholm. Ainda em 1911 começaram a surgir exclusões e cismas entre igrejas batistas suecas.[26] A tabela abaixo mostra de modo panorâmico a presença sueca e norte-americana no início das ADs no país.

Tabela – Missionários suecos e norte-americanos nas ADs nas primeiras décadas.

Origem Enviados até 1930 Enviados até 1940 Enviados até 1950 Total enviados até 2000
Missão Livre Sueca 31 44 53 68

Filiados as AG

6 14 23 72

 É possível perceber, pelos dados apresentados, que a influência e presença norte-americana cresce de forma gradual e ultrapassa a presença sueca no geral até o ano 2000. Não obstante até a década de 1950 pelo menos a presença sueca foi maior e mais importante tanto da perspectiva numérica quanto em relação aos cargos e funções exercidos por estes.[27]

A presença de pastores brasileiros foi outro fator fundamental no crescimento assembleiano. A chegada de missionários escandinavos[28] não foi o bastante para atender as necessidades da igreja crescente. Assim em 1912 foi consagrado o primeiro pastor brasileiro das ADs, Isidoro Filho que foi consagrado por Gunnar Vingren para pastorear uma jovem congregação na Ilha de Marajó[29]. Sobre o trabalho dos suecos nos primórdios das ADs e a crescente necessidade de pastores e obreiros Araujo afirma:

Para atender à necessidade sempre crescente de obreiros, a igreja reuniu-se no dia 15 de dezembro de 1919 com o objetivo de separar José Paulino Estumano de Morais para servir como pastor. O reforço de missionários suecos de 1921, porém, não foi suficiente para atender aos apelos que chegavam dos campos de trabalho. A igreja necessitava de muitos obreiros. Atendendo a esses reclamos, a Assembleia de Deus de Belém separou, no dia 2 de março de 1921, Bruno Skolimowski[30] para servir como pastor.[31]

O trecho elucida a grande necessidade de obreiro na época dos pioneiros e a crescente tendência a separação de pastores nativos para conduzir as congregações. Interessante é o fato de os missionários norte-americanos não aparecerem como participantes importantes na fundação das ADs no trecho citado, cedendo espaço a suecos e brasileiros e apontando para sua pouca relevância a época.

Por incorporar elementos da religiosidade popular, misticismo e sincretismo e por possuir objetivos altamente expansionistas e conversionistas as ADs cresceram rapidamente. Alencar aponta um vertiginoso crescimento médio de 15.000% ao ano até 1950[32]. Se o recorte for ampliado e considerarmos o crescimento da denominação entre 1930, o período imediatamente posterior à primeira Convenção,  e 2010, o crescimento médio é de 911,4%, com a membresia saltando de 13.511 pessoas em 1930, para 12.314.410 pessoas em 2010. Em comparação, a população brasileira cresceu cerca de 506,3% no mesmo período.[33]  Os fatores que levaram e favoreceram essa expansão já foram mencionados aqui.

Um dos marcos da história assembleiana foi a Convenção Geral de 1930, realizada em Natal. Esse encontro é marcado pela entrega da liderança da denominação, ou do trabalho, aos brasileiros. Segundo a historiografia oficial das ADs, a Convenção foi pacífica, com poucos contratempos e a entrega do poder e liderança dos suecos para os brasileiros ocorreu sem maiores problemas. Segundo Conde[34], a Convenção Geral de 1930 era o mais importante encontro da denominação até então. Araujo salienta a iniciativa dos pastores brasileiros em idealizar e convocar a convenção. Segundo a versão deste ultimo

Até 1930, eram os missionários suecos que lideravam ou supervisionavam todas as Assembleias de Deus no país. Nenhum trabalho aberto pelos missionários [brasileiros] havia recebido autonomia, mesmo sendo boa parte das igrejas do norte e do nordeste dirigida por pastores nacionais. […] Antes da Convenção de 1930, só os missionários [suecos] se reuniam para decidir o andamento das Assembleias de Deus. Os pastores brasileiros eram apenas comunicados das resoluções e as implantavam.[35]

Este trecho permite a inferência de certo abuso de autoridade ou, na melhor das hipóteses, de certo autoritarismo velado por parte dos missionários suecos. Assim, segundo os [registros] oficiais, os suecos, após algum tempo isolados na liderança da igreja, haviam cedido espaço para os pastores brasileiros que reivindicavam de modo moderado um papel mais significativo na liderança nacional. Segundo Almeida, a entrega da liderança ocorreu por conta de os suecos sentirem que “era chegada a hora de deixarem a obra nas mãos dos trabalhadores nacionais e partirem para as áridas terras do sul do país”. E ainda acrescenta que “Todos os templos e locais de reuniões que pertenciam a Missão foram entregues às igrejas brasileiras”.[36]

Essa versão oficial foi questionada por Alencar. Este afirma que os suecos foram pressionados a entregar a liderança aos brasileiros. Os pastores nacionais parecem ter “tomado” a liderança dos suecos e não simplesmente “recebido” deles tal autoridade[37]. Entre os fatores apontados que levam à conclusão de uma tomada de poder no lugar de uma simples entrega estão a decisão apenas por parte dos pastores brasileiros de realizarem a Convenção Geral, o que por si já mostra que existia alguma autonomia para estes pastores e que os suecos não eram autoritários ou exclusivistas na liderança como Araujo deixa subentendido.

O comunicado original de convocação da Convenção afirmava que havia a “… necessidade urgente de uma Convenção Geral […] para resolverem certas questões que se prendem ao progresso e harmonia da causa do Senhor[38]. Essa aparente tensão existente antes da Convenção, e que culminou na convocação para a mesma, existiu efetivamente, pois as fontes primárias indicam que haviam tensões, debates, conflitos e crises no seio da igreja. Essa crise estava na liderança como atesta o documento “Todos nós sabemos a crise por que, como uma dura prova, passou a Assembléa de Deus neste paiz e não podemos nos conformar com este estado de coisas”[39]. O texto afirma claramente a crise na igreja, é um texto escrito de líderes para líderes que segue afirmando que a conformação com o “estado de coisas” era algo fora de questão. O documento aponta ainda para uma convenção com início, mas sem previsão de término, o que pode significar a espera de reuniões prolongadas e de debates cansativos para os idealizadores, o próprio documento é chamado pelos autores de “manifesto” e é explicito o caráter de urgência do mesmo. Entre os objetivos apontados no texto está o de “remover certos obstáculos que podem embaraçar a causa de nosso Senhor Jesus Cristo”.[40]

A Convenção Geral de 1930 foi determinante na história das ADs. Está claro que a versão oficial conta apenas o que é salutar e esconde aspectos importantes do conflito e da tensão existente entre missionários e pastores nacionais. Todavia, o mais relevante é lembrar que após essa convenção a igreja tomou novos rumos, seu sistema inicialmente congregacional transformou-se de modo gradativo em episcopal, pastores e líderes optaram historicamente, após 1930, por sistemas de administração piramidais que concentrassem em matrizes cada vez maiores a autoridade e o poder espalhados por diversas localidades. A convenção mais importante até então é aquela que abre o caminho para uma igreja em constante transformação que, apesar de a muitos parecer um organismo estanque e engessado, vive desde a fundação um pleno processo de maturação e constante adaptação. Em certo sentido é correto afirmar, tomando as devidas e pequenas proporções necessárias aqui, que as ADs são mesmo a Ecclesia Reformata et Semper Reformanda est[41]. Possivelmente não a reforma sempre apontando para os CINCO SOLAS[42], mas certamente a reforma apontando para uma melhor adequação ao contexto onde está inserida e visando maiores possibilidades de expansão. Obviamente isso não quer dizer que a denominação siga em uma crescente progressista utópica em busca da perfeição inatingível ou que as mudanças sejam sempre para melhor ou na direção de objetivos como uma espiritualidade saudável, a diminuição das desigualdades ou coisa que o valha. Contudo é inegável que as ADs herdaram com primazia o princípio de adaptação do catolicismo popular e, aliado a esse princípio mantiveram em grande medida os valores de ética e prática religiosa que há séculos são marcas do protestantismo tradicional. Pode-se dizer com segurança. O Pentecostalismo, especialmente sua variante assembleiana, não é “Protestantismo no Brasil”, é de fato “Protestantismo Brasileiro”.

Notas / Referências:

  • [1] FRESTON, Paul. Protestantes e política no Brasil: da Constituinte ao impeachment. Campinas, Unicamp, 1993.
  • [2] Ministério (s) na linguagem assembleiana é a área de atuação formada por uma “igreja-sede e suas diversas congregações e/ou igrejas filiadas, agrupadas dentro de bairros e/ou cidades em um ou mais Estados” (ARAUJO, 2007, p. 152). OS ministérios são espécies de franquias em que as igrejas são organizadas. Esses ministérios geralmente são independentes administrativamente uns dos outros (ainda que sejam teologicamente coirmãos) e, mesmo que façam parte da mesma Convenção Geral, possuem considerável autonomia. A organização de um ministério nas ADs geralmente começa pela Matriz Geral, uma grande congregação que tem autoridade sobre todas as demais (geralmente chamada literalmente de “ministério” por pastores assembleianos) as igrejas-sede que são grandes congregações distribuídas em regiões específicas das cidades e que são coordenadas e submissas a matriz geral (ao ministério) enquanto coordenam e possuem autoridade sobre congregações menores de bairros (geralmente chamadas apenas de “Sede”). Em seguida vem as Igrejas Sub-sedes, as maiores igrejas dos bairros são as sub-sedes, estas não tem autoridade sobre as congregações menores mas são usadas para realizar eventos de médio porte, ensaios e reuniões regionais e para transmitir informações da Sede e do Ministério (as sub-sedes são chamadas de “Regionais”) e, na parte mais inferior do sistema piramidal assembleiano estão as Congregações ou igrejas locais, igreja comuns de bairro com membresia relativamente pequena (que nos padrões das ADs ficam entre 80 e 400 pessoas) que são submissas a toda estrutura de administração eclesiástica (geralmente chamadas de “Congregações”. Esse aparato organizacional como um todo é o que forma um Ministério.
  • [3] As convenções são organizações de múltiplas ADs que unem diferentes ministérios, apesar de cada ministério ser razoavelmente independente a maioria destes se filia a uma convenção de ministérios e igrejas coirmãs ou funda sua própria convenção. Dentre as mais significativas convenções estão a CGADB e a CONAMAD.
  • [4] ALENCAR, Gedeon Freire; Assembleias de Deus: Origem, implantação e militância, Arte Editorial, 2010,187p. Protestantismo Tupiniquin: Hipóteses sobre a (não) contribuição evangélica à cultura brasileira.  Arte Editorial, 2005, 160p. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus – 1911-2011. Novos Diálogos, 2013. 383p.
  • [5] CORREA, Marina; Assembleias de Deus; Ministérios, carisma e exercício de poder. Fonte editorial, 2013. 348p.
  • [6] ARAUJO, Isael de; Dicionário do Movimento Pentecostal. CPAD, 2007. 944p.
  • [7] ARAUJO, 2007, p. 122-124, 898-903.
  • [8] Segundo Araujo os missionários teriam recebido uma profecia de Adolfo Uldine que os orientava ir pregar em um lugar chamado ´´Pará“. ARAUJO, 2007. p. 900.
  • [9] ARAUJO, 2007. p. 901.
  • [10] ARAUJO, 2007, p. 40.
  • [11] Ibid.
  • [12] ARAUJO, 2007. p. 7.
  • [13] Inicialmente italiano e branco, embora a membresia da CCB também fosse formada por pobres.
  • [14] Mateus 11.28.
  • [15] Afinal, dos pobres é o Reino de Deus. Lucas 6.20.
  • [16] PASSOS, João Décio (org). Movimentos do Espírito: Matrizes, afinidades e territórios pentecostais. Paulinas. 2005. p. 47-78.
  • [17] PASSOS, 2005. p. 55.
  • [18] ALENCAR, 2010, p. 70.
  • [19] Vingren se formou em maio de 1909 no Seminário Teológico Batista Sueco. ARAUJO, 2007. p. 900.
  • [20] Frida compunha hinos, escrevia artigos teológicos para os jornais da denominação, era mãe dedicada e hábil administradora, pregava e servia como pastora local na ausência do marido, entre outras qualidades. Ver, GONÇALVES, Thiago. Frida Vingren: Uma voz feminina no início do pentecostalismo brasileiro. Em www.amorin.pro.br/?p=541.
  • [21] ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostalismo. Vozes. 1995.
  • [22] ARAUJO, 2007. p. 502.
  • [23] ARAUJO, 2007. p. 508.
  • [24] O Dicionário do Movimento Pentecostal lista o seguinte: 68 missionários foram enviado ao Brasil pela Missão Livre Sueca nas Assembleias de Deus. Destes 53 chegaram ao Brasil até 1950. Já no caso dos filiados as Assemblies of God(AG) que trabalharam no Brasil os números são de 72 missionários dos quais 23 chegaram ao Brasil até o ano de 1950. Dentre os suecos 44 missionário trabalharam no Brasil antes de 1940, enquanto apenas 14 missionários vindos dos Estados Unidos trabalharam no país no mesmo período. Se o recorte temporal for reduzido até a o ano de 1930 teremos 6 missionários dos EUA trabalhando no país contra 31 missionários vindos da Suécia em atividade. (ARAUJO, 2007, p. 467, 472).
  • [25] “Em 1900 o total mundial de pentecostais, carismáticos e neocarismáticos chegou a 981.400 pessoas” ARAUJO, 2007, p. 239.
  • [26] ARAUJO, 2007. p. 574-577.
  • [27] Não é intenção aqui menosprezar o papel e influência dos EUA na história das ADs no Brasil. Contudo é pertinente mostrar a concepção de que o pentecostalismo e, mais especificamente, as ADs são um projeto norte-americano implantado pura e simplesmente no Brasil é um equívoco, erro crasso. Não obstante cabe mencionar a considerável influência estadunidense em questões como educação teológica, influência literária. Assim, não se pode perder de vista a influência sueca inicial, tampouco a estadunidense posterior e, principalmente, a característica autóctone e adaptativa do pentecostalismo(assembleiano). ALENCAR, 2010, p.90,91.
  • [28] É salutar mencionar a presença de missionários noruegueses no Brasil, até 1950 o país recebeu pelo menos 14 missionários de origem norueguesa. ARAUJO, 2007. p. 470.
  • [29] ARAUJO, 2007, p. 43.
  • [30] Bruno Skolimowski era polonês, tendo chegado a Belém em 1911 em busca de trabalho. Casou-se com a brasileira Maria Barbosa se converteu ao evangelho em 1919. Apesar de estrangeiro ele era considerado e contado com os pastores nacionais pois não possuía qualquer ligação com os missionários suecos e havia se convertido já no Brasil.  ARAUJO, 2007. p. 810.
  • [31] ARAUJO, 2007, p. 43.
  • [32] ALENCAR, 2010, p. 20.
  • [33] ALENCAR, 2013, p. 308.
  • [34] CONDE, 1960, p. 132.
  • [35] ARAUJO, 2007, p. 207, 208.
  • [36] ALMEIDA, Abraão (org). História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro. CPAD. 1982, p. 30.
  • [37] ALENCAR, 2010, p. 120-123.
  • [38] Convocação da Convenção Geral de 1930 em Natal. Retirado de Jornal Boa Semente 1929 (mantida a grafia original). O texto foi publicado por meses no jornal Boa Semente (ALENCAR, 2000, p. 185.)
  • [39] Ibid.
  • [40] Ibid.
  • [41] Significado: “Igreja Reformada sempre em Reforma” ou “Igreja reformada sempre se reformando”.
  • [42] SOLA SCRIPTURA, SOLA FIDE, SOLA GRATIA, SOLO CRISTUS, SOLI DEO GLORIA. Marcas características do protestantismo.
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