A importância da Cultura para a História

O estudo a seguir é parte de minha monografia, apresentada ao professor José Mauro Gagliardi – UNIFAI, em 2000.

 

Resumo

O que é cultura e qual sua relação com a História? Como um conjunto de padrões integrados de comportamento, manifestados entre os membros de uma sociedade, a cultura constitui um fenômeno de interesse e objeto de estudo por parte dos cientistas sociais. Das várias ciências que são “auxiliares” (conjugadas) da História, a Antropologia é a que dá maior contribuição para entender esse fenômeno. Por isso, historiadores sociais como os da Escola das Mentalidades, defendem uma interpretação histórica. Daí, ser a cultura um conceito antropológico e também historiográfico, uma vez que ela serve como “lente” para o entendimento da evolução humana. Os sistemas culturais – valores, crenças, religião etc – dos povos não podem ser desligados da interpretação histórica. A História, portanto, como foi proposta nesse breve trabalho, é uma ciência sociocultural que estuda o cotidiano dos indivíduos, auxiliada pelas ciências sociais…

 

Introdução

O que é cultura, e por que ela é um elemento indispensável para o entendimento da história?

Foi pensando na importância desse tema, que nós nos propusemos elaborar neste breve Trabalho de Conclusão de Curso (T.C.C.), uma dissertação sobre alguns aspectos que demonstram a riqueza da cultura. E, com esse objetivo em mente, procuramos apresentar o assunto, desenvolvendo o conceito do mesmo e sua contribuição para o entendimento dos grupos humanos, além de suas relações sociais na história.

A História tem profunda relação com outras ciências sociais, sendo que, dessas, a Antropologia se ocupa exaustivamente do tema que estamos enfocando. Além disso, esta última fornece muitas ferramentas para o estudo desse fenômeno tão rico que é a cultura. É nela, portanto, como uma das disciplinas auxiliares da História, que buscamos conceituar nosso trabalho.

Desenvolvemos nossa reflexão, partindo do fenômeno principal, o tema escolhido, para a análise geral do assunto, com base nos estudos apresentados pelos especialistas e desenvolvidos no decorrer do trabalho. Para isso, os textos enumerados na bibliografia (a base de nossa reflexão), comentários feitos em salas de aula e conversas com colegas da área, foram-nos de extrema importância para a elaboração do mesmo.

Apresentamos, no primeiro capítulo, a natureza da cultura, destacando situações específicas dela, tendo o homem como o principal criador, modificador e elaborador dos padrões culturais. Neste contexto, procuramos também destacar a cultura, como uma herança social da humanidade no que diz respeito a hábitos de massa; normas de comportamento; conhecimento acumulado; cultura material e espiritual; cultura real e ideal…

No segundo capítulo, procuramos enfatizar a mobilidade cultural e o papel do homem nesse processo. Ou seja, descrever como as características culturais são adaptadas pelos grupos humanos. Como a cultura é desenvolvida, segundo os especialistas, através de empréstimos culturais, procuramos destacar também, a relação existente entre cultura e sociedade, desenvolvendo alguns aspectos que identificam uma sociedade.

No terceiro capítulo, procuramos estudar o fenômeno cultural como parte da História, por ser ela (a cultura) intrinsecamente relacionada com as questões sociais e, portanto, indispensável para o estudo das civilizações que é o enfoque prioritário da História. A História, como uma ciência social, deve, ao lado da Antropologia, estudar os fatos históricos e sua relação com os fatores culturais, atentando sobretudo, para as inovações que dizem respeito ao homem e sua atuação na história.

Concluímos nossa dissertação, fazendo uma breve observação da importância da riqueza cultural para a História, destacando a contribuição da etnologia para entender o cotidiano dos grupos sociais, evitando, assim, uma interpretação etnocêntrica.

 

1. O Conceito de cultura

A Antropologia ou Etnologia se ocupam do estudo íntimo e demorado dos grupos tribais, abrangendo, como é de se esperar, também os fenômenos culturais.

Neste capitulo, pretendemos enfocar, o mais objetivo possível, o que alguns especialistas descrevem como conceito e os vários aspectos relativos à natureza da cultura.

Na verdade, as descrições sobre a natureza da cultura são feitas pelos antropólogos com enfoques, às vezes, diferentes um do outro, mas sempre de forma complementares e não contradizentes. É o que constatamos, por exemplo, nos escritos de Hoebel, Benedict, Murdock e Redfield, expostos na obra organizada por Harry L. Shapiro [1].

Conceituar cultura constitui, de fato, uma tarefa realmente ampla devido à ênfase muito variada que os antropólogos dão ao assunto. Uma definição sintetizada de cultura entretanto, podemos ver com E. Adamson Hoebel, segundo o qual

…cultura é algo mais do que um conjunto de formas isoladas de comportamento. É a soma total, integrada, das características de comportamento aprendido que são manifestadas nos membros de uma sociedade e compartilhada por todas… (sic). Assim, cultura é integralmente o resultado de invenção social, e pode ser considerada como herança social, pois é transmitida por ensinamento a cada nova geração. Além do mais, sua continuidade é garantida pela punição dos membros da sociedade que se recusam a seguir os padrões de comportamento que lhes são determinados pelas cultura. [2]

As características de comportamento são muito estudadas pelos cientistas sociais uma vez que estas, particularmente, estão intimamente relacionada às ações humanas e servem como meios de identificação dos traços culturais de um povo. Em outras palavras, cada cultura consiste de uma série de padrões integrados de comportamento, desenvolvidos, segundo Hoebel, a partir de hábitos de massa. E um hábito de massa pode ser chamado de norma de comportamento.

As normas de comportamento, que podem variar com mais frequência (ou não, conforme o caso), são também conhecidas, na vida social, como padrões culturais. Esses padrões “de” comportamento relativos ao que dever ser – portanto, de caráter normativo –, podem tornar-se padrões “para” comportamento. Nesse caso, “… os indivíduos são modelados mais ou menos de maneira uniforme segundo o molde comum. Um mínimo de padronização é o destino de todos” [3].

São identificados, ainda pelo antropólogo em referência, três tipos de normas de comportamento: as “normas universais”, que são aplicadas a todos os membros de uma sociedade, apenas com pequenos desvios, ainda que relativamente raras em qualquer cultura; as “normas alternativas”, que são padrões que existem onde várias normas (preceitos ou sanções) diferentes são aplicáveis a uma mesma situação; e as “normas específicas”, que são aplicadas aos subgrupos internos em toda a sociedade. Estas últimas são normalmente desconhecidas para o grande público. Desconhecimento esse, relativo ao fato de que apenas alguns se dispõem a seguir essas normas, por fazerem parte de um círculo fechado.

As normas culturais são tão importantes para a determinação dos traços culturais de um povo, que antropólogo como Claude Lévi-Strauss relaciona o nascimento da cultura com a convenção da primeira norma. Esta regra seria a proibição do incesto, comum a todas as sociedades humanas. Nesse caso, temos um exemplo de norma universal.

Voltando ainda aos termos utilizados por Hebel, na definição acima, encontramos também que as características de comportamento podem ser “aprendidas” pelos membros de uma sociedade. Isso equivale a dizer que os componentes de uma cultura podem ser codificados, interpretados e socializados entre seus membros.

Roque de Barros Laraia menciona a posição de vários outros antropólogos sobre a origem da cultura. E destaca a capacidade do homem de usar o cérebro combinado com a utilização das mãos, para examinar um objeto, atribuindo a este um significado próprio. Continua Laraia: “Com efeito, temos de concordar que é impossível para um animal compreender os significados que os objetos recebem de cada cultura. Como, por exemplo, a cor preta significa luto entre nós e entre os chineses é o branco que exprime esse sentimento. Mesmo um símio não saberia fazer a distinção entre um pedaço de pano, sacudido ao vento, e uma bandeira desfraldada. (…) Ou seja, para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou” [4].

Os símbolos são usados para servir de lembretes aos membros de uma cultura. E para exemplificação e interpretação desse fenômeno, antropólogos e sociólogos procuram fundamentar-se nos escritos como os de Leslie White, antropólogo e sociólogo norte-americano [5], segundo o qual, toda cultura depende de símbolos e estes podem assumir qualquer forma física, dependendo da cultura que os adotem.

Dessa forma, como os símbolos estão relacionados com o homem e com sua capacidade de socializar-se, deduzimos então, que esse processo se dá através da comunicação simbólica e pela ilimitada capacidade que ele tem de inventar, aprender, transmitir o que foi inventado, dar nomes aos objetos e às ideias, utilizar-se do conhecimento adquirido e projetar outros tipos ou formas de conhecimento futuros, num processo quase infinito. Como diz Ruth Benedict: ”A raça humana é a única entre todas as espécies animais, devido ao processo realizado de então até hoje. Só o homem tem enriquecido constantemente seu modo de vida pela invenção e pela aprendizagem complexa” [6].

Nota-se que o progresso alcançado pelo homem em consequência do desenvolvimento da cultura foi, e continua sendo, o resultado de uma sequência incontável de erros e acertos; experiência individual e coletiva; aprendizado através de imitação ou de intuição pessoal; enfim, um progresso como resultado de acúmulo de conhecimento que vem sendo transmitido de geração para geração. É o homem que, movido pela “necessidade” [7] e pela inteligência, vem criando técnicas, desde a utilização do fogo (ainda na Idade da Pedra Lascada) para cozinhar seus alimentos, até os mais modernos computadores, para melhor desempenho de suas atividades e de uma melhor qualidade de vida.

Nessa sequência interminável de ensino/aprendizagem, como fruto de um processo de endoculturação ou socialização, o componente cultural mais importante é a linguagem. Como já vimos, o homem tem uma capacidade altamente desenvolvida de comunicar-se por símbolos. E esses símbolos podem ser codificados em linguagem, que por sua vez subdivide-se em linguagem falada (através de esquemas de som); linguagem escrita (registro gráfico da linguagem falada) e linguagem corporal (expressa através de gestos). Sendo os seres humanos capazes de se comunicar e aproveitar os escritos e descobertas de outros povos, eles podem evitar erros cometidos no passado e, ao mesmo tempo, aproveitar-se dos acertos ou descobertas que deram certo para eles.

Obviamente, o tipo de linguagem que tem sido mais utilizado pelas civilizações, através da difusão dos traços culturais por “empréstimo”, tem sido a linguagem escrita. Embora, como diz Benedict, não possamos saber quando a linguagem humana se tornou um conjunto complexo de símbolos, o certo é que, hoje: “… não existe tribo primitiva, por mais pobre que seja sua cultura material, que não tenha uma linguagem complicada e um vocabulário de palavras com sutis diferenças de sentido” [8].

Voltando novamente à definição de cultura apresentada por Hoebel, acima, perguntamos: como as características de comportamento são “manifestadas” entre os membros de uma sociedade?

As manifestações culturais emprestadas são vivenciadas pelos membros de uma determinada sociedade, juntando-se às já existentes, e destinadas a se perpetuar de geração após geração. No entanto, esses empréstimos não acontecem de forma estática e acabada. Todos os traços culturais são recebidos e modificados à forma de quem os emprestou. E esse processo de interação social, daquilo que outros desenvolveram, está intimamente relacionado com a educação.

O conceito que alguns têm de cultura como fruto das experiências escolares ou acadêmicas, pode estar relacionado com o maior ou menor número ou grau de informação. Assim sendo, à medida que o tempo vai passando, há uma tendência de o conhecimento acumular-se cada vez mais. É nessa direção que Laraia destaca alguns “gênios” da História (como Aristóteles, Santos Dumont, Einstein…) que fizeram uso do conhecimento acumulado de seu tempo para novas conquistas técnicas e científicas. Utilizando-se de uma das contribuições de Kroeber para a ampliação do conceito de cultura, destaca Laraia, que “… os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor” [9]. Porém, se estes tivessem morrido antes disso, outros, certamente, em questão de tempo, acabariam realizando as mesmas descobertas que eles, talvez, apenas, com algumas variações.

As sociedades modernas possuem elementos culturais muito diversificados e abrangentes. As constantes descobertas simultâneas, em todo o mundo, são um exemplo de usos de “ferramentas” fornecidas por essas culturas. Nessa linha de raciocínio, como vimos, o homem não é apenas um “produtor”, mas também um “produto” da cultura.

Os aspectos de uma determinada cultura que servirão, em grande medida, para outras, são os aspectos “não-materiais” que estarão disponíveis, quando registrados suas formas, teorias, fundamentos… Assim, “… o complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade…” [10], como uma das definições da cultura, trabalha esse aspecto “espiritual” da mesma.

Como último destaque deste capítulo, queremos enfatizar que a herança não-material ou espiritual, deixada por uma cultura e utilizada por outra, é aproveitada, levando-se em conta a sua importância e viabilidade. Nem todos os aspectos de uma cultura, difundidos por empréstimos, são aproveitados integralmente. Além disso, desejos individuais, via de regra, desafiam as normas culturais existentes em uma sociedade, enquanto padrões honrados pela palavra, são quebrados pelo comportamento. Ou seja, a “cultura real” nem sempre corresponde à “cultura ideal”.

Para exemplificar esse conceito de cultura real e cultura ideal em nossa sociedade, destacamos que pesquisa recente aponta os brasileiros como os que mais praticam sexo em todo o mundo [11]. Alguns sexólogos, no entanto, acham que esse resultado não condiz à verdade, porque muitos mentem a respeito desse assunto. Ou seja, falam do que gostariam de ser (ideal) e não do que são, efetivamente (real). E perguntamos: os brasileiros são campeões em atividades sexuais ou o são em “mentir”? Esse exemplo, e tantos outros, servem para mostrar a disparidade existente entre as palavras das pessoas e sua cultura real…

 

2. Cultura e Sociedade

Como vimos, no capítulo anterior, o homem é o único animal que possui cultura. Também, o processo cultural de um povo está intrinsecamente relacionado com sua vida social.

O ser humano, com sua capacidade de inventar e aprender cultura, ao contrário dos animais irracionais, é sempre inquieto com o que já tem conseguido e busca novas descobertas e novas ideias de progresso.

Essas ideias, uma vez socializadas, através do processo de “ensino/aprendizagem”, são inculcadas nos membros de uma sociedade com tendências duradouras. E é sobre esse anseio que o homem tem de viver em sociedade, aliado à herança cultural, recebida de outras gerações, e adaptadas ao seu meio, que pretendemos traçar alguns comentários a seguir.

Como a cultura se modifica? Algumas respostas para essa pergunta, encontramos, por exemplo, nas palavras de George Peter Murdock, [12], que pretendemos destacar.

A cultura muda com o tempo, e de lugar para lugar, porque tem como “agente” modificador, nesse processo, o homem. Este, através da história, tem avançado de um estado da mais rude “selvageria” para a “civilização”. Também tem conseguido, ademais, assimilar diversos sistemas de “hábitos coletivos”, adaptando-se ao seu convívio social. Essa adaptação ocorre, normalmente, em resposta aos hábitos ou ações relativas aos impulsos básicos que tiveram “êxito” entre os membros de uma sociedade.

As ações exercidas com êxito tendem a ser repetidas em situações semelhantes nas quais sejam mais apropriadas, ao contrário daquelas exercidas com “malogro” que tem menos probabilidades de repetições.

Os hábitos comuns aos membros de uma sociedade são definidos, por Murdock, como “costumes” e “ideias coletivas”. Os costumes são os hábitos de ação, e incluem os modos de comportamento como a etiqueta, o cerimonial e as técnicas de manipular as coisas. As ideias coletivas são os “hábitos de pensamento”, portanto, não são diretamente observáveis, mas devem ser inferidas através de sua expressão na linguagem e sem outros comportamentos ostensivos.

As ideias coletivas são as mais expressivas numa sociedade porque dizem respeito a valores, crenças religiosas, regras, sanções, recompensas e punições sociais. Isto é, a cada costume, ou a cada grupo organizado de costumes, geralmente se associa um conjunto de ideias coletivas.

As ideias coletivas geram um comportamento social “efetivo” sujeito a variações de acordo com as circunstâncias. Ao se desviar dos hábitos culturais estabelecidos, em qualquer direção, resultam daí, modificações que dão preferência a novas respostas e podem conduzir a “inovações culturais”.

Murdock apresenta quatro grandes processos que levam a cultura a se modificar [13]. O primeiro “grande processo” que leva a cultura a se modificar, segundo Murdock, é a “inovação” que, por sua vez, subdivide-se em quatro tipos.

Primeiramente, uma modificação cultural pode surgir a partir de uma inovação de elementos de comportamento habitual de um contexto situacional para outro, numa combinação de “síntese” desses elementos, chegando-se assim, a novas “invenções”.

Raramente, acontecem invenções originais. A maioria delas é o resultado de sínteses de hábitos antigos aproveitados por outras culturas, com algumas modificações.

Um segundo tipo de modificação cultural, por inovação, conforme Murdock, é a resultante de “invenção paralela”. Elementos culturais, antigos, podem coincidir de serem aproveitados por vários outros povos ao mesmo tempo. Nesse caso, várias invenções paralelas também podem ocorrer. As solicitações dos vários registros de patentes, caos de até duas solicitações – como a do telefone por Bell e Gray – no mesmo dia, são exemplos disso. As invenções paralelas são mais frequentes entre povos de cultura similares.

Um terceiro tipo de modificação cultural, por inovação, é a invenção por ”tentativa”, ou como dizem os psicólogos, o aprendizado por “ensaio” e “erro”. A necessidade, repito, leva as pessoas a buscarem soluções para seus problemas, tentando certo número de variações e combinações até o estabelecimento de um novo elemento cultural.

O aparecimento de crises como falta de víveres, epidemias, guerras etc., são situações que forçam as pessoas a criarem invenções através de várias tentativas. O ditado ‘a necessidade é mãe da invenção’, enfatiza Murdock, aplica-se melhor à “tentativa” do que a “invenção” propriamente dita.

O quarto e último tipo de modificação cultural, por inovação, e, por sinal, o mais comum e mais importante, é o “empréstimo cultural”. Chamado também pelo historicista de “difusão”, ou ainda, pelo psicólogo, de “imitação”. Nesse caso, o inovador, como introdutor de um novo hábito, torna-se o primeiro, do seu grupo, a adotar o hábito de outra cultura.

A maioria dos elementos em qualquer cultura resulta do empréstimo, e Murdock cita um número considerável desses exemplos herdados de outras culturas e empregados pelos americanos.

Um segundo “grande processo” de modificação cultural se baseia na “aceitação social”. Ou seja, enquanto um elemento cultural “inovado” não for praticado pelo grupo, ele é apenas um hábito individual, e não elemento de cultura dessa sociedade. A inovação deve ser socialmente “compartilhada”.

Esse novo hábito – uma vez aceito socialmente – pode fazer parte, a partir desse ponto, da “subcultura” (família, clã, comunidade…) ou pode até tornar-se “universal”, isto é, ser compartilhada por todos os membros da sociedade.

Ainda um terceiro “grande processo” de modificação cultural, descrito, por Murdock, é a “eliminação seletiva”. Esse processo é resultante da competição, pela sobrevivência, entre os hábitos socialmente aceitos por inovação. Ou seja, só perdurará aquele hábito que trouxer satisfação para o grupo.

Devemos considerar, entretanto, que os elementos culturais de um povo não desaparecem enquanto não passarem a outros sua contribuição. É nesse sentido, que as chamadas ‘artes perdidas da antiguidade’, de forma geral, constituem um “mito”.

A modificação cultural por “seleção”, está relacionada também, com as técnicas ou descobertas científicas “acumuladas”, pelos homens, através da história. Por exemplo, a “vela de cebo” cedeu lugar ao “lampião de querosene”; este ao “bico de gás”; este último à “luz elétrica”, e assim por diante.

O quarto e último “grande processo” de modificação cultural, enfatizado por Murdock, é o da “integração”.

Os hábitos que flutuam em grau de aceitação social e competem pela sobrevivência, também se adaptam, progressivamente, para um “todo integrado”.

Embora requeiram tempo, novas formas de comportamento habitual, que ocupam o lugar das antigas, se ajustam e se adaptam, pouco a pouco, em determinada cultura e são também ajustadas em outras partes, com suas alterações recíprocas e seus efeitos acumulativos. O “automóvel”, o “telefone”, o “avião” e outros, são exemplos que Murdock cita como sendo resultado de hábitos integrados.

Os elementos culturais que passam por todos esses processos descritos por Murdock, e sintetizados acima, uma vez aceitos socialmente e integrados, formando assim, uma nova cultura, servirão como elemento identificador de um grupo, de uma comunidade, de uma civilização ou mesmo de uma Nação. Esses sistemas de “instituições”, desde os mais simples até aos mais complexos, são objetos de estudo dos sociólogos e podem ser entendidos como “sociedades”.

Uma sociedade pode ser sinteticamente definida como “… um grupo de pessoas que vivem juntas durante um extenso período, ocupam um território e, eventualmente, começam a organizar-se em uma unidade social, diferente de outros grupos” [14].

A vida em “grupo” e a organização em uma unidade “social” pressupõem algumas etapas de adaptações a serem seguidas, além de relacionarem-se, como vimos, com a cultura e com o homem.  Ainda que muito discutidas, as “sociedades” das espécies animais não mudam nem modificam o seu espaço. As organizações humanas é que são extremamente “mutáveis” no tempo e no espaço.

Logicamente, o que destacamos, daquilo que os sociólogos costuma chamar de “extremamente mutáveis”, nas sociedades humanas, são seus padrões de comportamento, influenciados pela mobilidade cultural. Outras  situações vividas em conjunto, no entanto, tendem a ser duradouras. No dizer de Robert Redfield, “sociedade é gente reunida com objetivos comuns e mutuo entendimento (…) A sociedade, pois, tem organização. É gente fazendo coisas com e para os demais, no interesse de cada um e de todos, nas formas pelas quais essas pessoas concordam em aceitar” [15].

Os membros das sociedades organizadas são incentivados pelos seus líderes a lutarem pelos interesses do grupo. Esses interesses podem variar, por exemplo, desde uma reivindicação mais simples, como impedir uma emenda constitucional, por exemplo, até as lutas armadas para requerimento de lotes de terras ou reforma agrária, e outras.

Os resultados das lutas e reivindicações de uma sociedade, também estão relacionados com o tipo de liderança que o grupo tem (que pode variar entre um líder carismático ou radical e autoritário); com a atitude dos membros ou liderados (que podem, ou não, concordar com a posição do líder); com os objetivos do grupo (e como esses objetivos estão definidos); com a ideologia seguida etc. O êxito das reivindicações, portanto, depende em grande medida dessas características.

O conceito de sociedade é muito amplo, podendo abranger, segundo Redfield, um grupo de nações (ou grandes sociedades), parte do globo terrestre (como sociedade Ocidental e sociedade Oriental) e até mesmo a população total do globo. Nesse caso, dada a complexidade do tema e a necessidade de identificação dos traços culturais do povo, como objeto de estudo, os antropólogos e sociólogos preferem trabalhar unidades mais simples da população, como grupos, classes, comunidades, uma unidade (ou estado) nacional, uma tribo, uma nação no seu todo…

Redfiel destaca três aspectos de sociedade.

O primeiro deles é o que diz respeito ao “trabalho”. É possível identificar uma sociedade em gente executando trabalho. A divisão do trabalho entre homens e mulheres é universal. A divisão de tarefas, por sexo e idade, em contra partida, varia de sociedade para sociedade.

No decorrer dos tempos, com o avanço de técnicas, ferramentas e aumento de população, entre outros fatores, a divisão do trabalho se tornou mais completa e complexa.

Além disso, enfatiza Redfield, alguns efeitos surgiram, em decorrência disso, como, mais diversificação de artigos e serviços; visão limitada do trabalhador, apenas a um segmento muito pequeno do conjunto; maior intercâmbio entre trabalhadores, num contexto mais globalizado, porém, sem sentimentos e valores comuns.

Como uma ação transformadora da realidade ou (dos elementos naturais em elementos artificiais, através da aplicação da energia física e mental), o trabalho deveria servir de motivação e realização para o homem. Ao invés disso, devido a essa “segmentação” referida por Redfield, e a chamada “exploração” do homem pelo próprio homem, muitos (os explorados) acabam não tendo consciência do que fazem nem para que serve o seu trabalho.

O segundo aspecto de uma sociedade são as “convicções sobre a vida”.

A forma básica de uma sociedade é a de que seus membros participam de sentimentos e crenças em relação ao que é bom. O trabalho, além de outros fatores, está também direcionado para esse propósito. Em algumas sociedades, por exemplo, seus membros rezam enquanto trabalham. Eles têm um plano de vida, com significado moral, correto, verdadeiro e belo.

Em algumas sociedades, os “mitos” são representações descritivas de seus valores morais e expressões culturais de suas convicções sobre a vida.

Em sociedades maiores, essas convicções sobre a vida tendem a ser mais complexas, uma vez que, nesse caso “… não contém mais uma só cultura para todos, mesmo em uma nação ou cidade, mas sim grande quantidade de culturas incompletas (…). Então, o sentido da vida tende a se perder; os homens se sentem incertos e confusos” [16]. Essa confusão e incerteza levam as pessoas a agir intencionalmente para modificar e orientar o “sentido da vida”.

O terceiro aspecto de uma sociedade, destacado por Redfield, é o “sentimento de solidariedade”.

A confiança e a lealdade que os membros de uma sociedade têm em relação uns aos outros, reforçam a coesão do grupo em oposição aos inimigos, além de despertar neles, um sentimento de maioridade perante outros povos.

Há, porém, casos de sentimentos secundários, como os relativos a ’in-grupos’ e a ’ex-grupos’. Os interesses do in-grupo (agrupamento de pessoas com lealdade, direitos e obrigações comuns) não são os mesmos com relação aos dos ex-grupos (os grupos opostos). Nesse caso, o sentimento de solidariedade fica dividido pelo contraste e concorrência entre os grupos.

Pelo que se percebe das definições dadas, pelos especialistas, a esses subgrupos, podemos relacionar o quem Murdock chama de “in-grupos” e “ex-grupos”, respectivamente, com o que Vila Nova chama de “grupo de participação” e de “não-participação” [17]. Ou ainda, ao que Cohen chama de “grupo de dentro” (ou ‘nós’ do grupo) e “grupo de fora” (ou ‘eles’ do grupo). O primeiro caso é aquele que constitui um conjunto de pessoas, cujos indivíduos se sentem bem e à vontade, e cuja associação é baseada em critérios predeterminados. O segundo caso é aquele grupos cujos membros são geralmente “estereotipados”. Conforme Cohen, “… exemplos típicos de grupos de dentro são a família, os grupos raciais, religiosos e étnicos, clubes, organizações e partidos políticos. Os membros desses grupos veem os outros grupos raciais, religiosos e étnicos como grupos de fora…” [18].

As divergências entre os grupos de sociedades complexas, quando não resolvidas, podem gerar conflitos de vários níveis. Nesse caso, os indivíduos, mesmo não conseguindo dominar todos os aspectos culturais de sua sociedade, devem conhecer pelo menos certos padrões, e submeterem-se a eles, afim de evitar conflitos generalizados e não serem rejeitados pela maioria. As guerras internas, por exemplo, acontecem, via de regra, em consequência de quebra de acordos, ofensas, violação de uma lei, e, por assim dizer, da falta de ajustes dessa natureza.

Nota-se que as ideias relativas aos hábitos e costumes coletivos que tiveram êxito numa sociedade, como já mencionamos, tendem a ser duradouras, quando recebidas pela maioria dos indivíduos, através da aceitação social. Os casos que não trazem satisfação para o convívio social do grupo, são rejeitados e a unidade social integrada acontece.

A uniformidade social da maioria, em uma sociedade, pode ser percebida em várias situações. Por viverem juntos, os indivíduos precisam se organizar e resolver seus problemas.

A criação de “instituições” pelas sociedades visa a atender as necessidades de seus indivíduos. Como um sistema organizado de padrões sociais, as instituições são divididas em cinco tipos básicos “… a instituição familiar, educacional, religiosa, econômica e governamental” [19]. E suas funções são determinadas por leis próprias, e aceitas pelos membros das sociedades. A Lei é a sociedade inteira participando e resolvendo seus problemas. Porém, ela surge mais definida na força centralizada e monopolizadora do “estado”, instituição politica destinada a manter a ordem social. Portanto, as instituições mantêm as sociedades mais ou menos dentro das regras estabelecidas. E essas regras são definidas com base nas ideias coletivas do grupo.

 

3. Cultura e História

Como ponto de partida de nossa reflexão deste capítulo, queremos fazer menção das palavras de Benedict – reproduzidas por Laraia –, segundo a qual “… a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo [20].

O ponto de vista do historiador, condicionado pela herança cultural recebida, poderá ser esta espécie de “lente”, com a qual ele perceberá os fatos. Esta percepção, no entanto, poderá ser “ofuscada” ou “desembaraçada”, dependendo de como esse historiador olha o mundo. Pode acontecer, também, de o historiador não querer fazer u8so da “lente cultural”, à sua disposição e, com isso, chegar a resultados irreais.

Por isso, ao estudarmos o conceito de cultura na História, temos em mente a tentativa de compreensão desse fenômeno como sendo um dos fatores preponderantes do processo histórico.

Dos diversos significados da palavra história, ficamos com um deles, descrito por Marilena Chauí: “estudo das transformações das sociedades e comunidades sob o impacto de acontecimentos políticos (revoluções, guerras civis, conquistas territoriais), econômicos (crises, inovações técnicas, descobertas de novas formas de exploração da riqueza ou procedimentos de produção, mudanças na divisão social do trabalho), sociais (movimentos sociais, movimentos populares, mudanças na estrutura e organização da família, da educação, da moralidade social etc.) e culturais (mudanças científicas, tecnológicas, artísticas, filosóficas, éticas, religiosas etc.)” [21].

Uma pergunta óbvia que normalmente é feita ao estudo histórico é se ele é científico. Há um longo caminho percorrido pelos estudiosos até chegar a uma definição aceitável do termo. De fato, a exemplo das outras “ciências” humanas, a História também passou a ser considerada como “sujeito” de investigação do ser humano, a partir do século XVIII, sobretudo, quando surge a ideia de “civilização”. Nessa caminhada, através dos tempos, a História tem tentado reconstruir e analisar a evolução do homem desde seu surgimento até nossos dias.

Como ciência humana, a História procura fornecer à sociedade, uma explicação de suas origens, sob o enfoque político-econômico e sociocultural, apesar das várias objeções. Essa explicação histórica – com esse enfoque – precisa estar fundamentada na verdade dos fatos. Nesse caso, o mesmo caminho intelectual do filósofo, para determinar se um fato é verdadeiro ou não, deve ser também seguido pelo historiador.

Qual a condição para o conhecimento verdadeiro? Chauí nos responde que, para formular um juízo verdadeiro, precisamos definir duas situações: a “aparência” e a “essência”. A primeira diz respeito ao erro, ao falso, à mentira à superficialidade e ilusão das coisas, enquanto a segunda surge quando conseguimos libertar-nos da aparência da realidade. “Em outras palavras, a verdade sendo o conhecimento da essência real e profunda dos seres é sempre universal e necessária, enquanto as opiniões variam de lugar para lugar, de época para época, de sociedade para sociedade, de pessoa para pessoa” [22]. Portanto, desvincular a “aparência” – que pode ser a ofuscação – da lente do historiador é um passo necessário para que ele chegue à “essência” dos fatos.

Isso é possível? Ou seja, o historiador conseguirá olhar o passado sem as ideias pré-concebidas do ponto de vista de quem já sabe a consequência ou o resultado de determinado fato ou processo que esteja sendo objeto de investigação? Segundo o positivismo [23], isso é possível. Entre outras coisas, para essa corrente, o historiador não deve agir como um “juiz” do passado, mas apenas dar conta do que realmente se passou, mantendo-se “… isento, imparcial, emocionalmente frio e não se deixar condicionar pelo seu ambiente sócio-politico-cultural” [24]. Os fatos, segundo o positivismo, falam por si, e não há nenhuma interdependência entre o historiador e seu objeto de estudo. Como uma norma metodológica, o Positivismo enfatiza que “… a história-ciência (sic) pode atingir a objetividade e conhecer a verdade histórica objetiva, se o historiador observar as recomendações anteriores [25].

Uma linha de raciocínio, após a ciência ter-se separado da Filosofia, aponta uma transição entre a escola metodológica positivista e as interpretações dadas a partir do pensamento de Marx, o qual cria a “história-cientifica” [26] com uma abordagem da realidade material centrada no homem. Mas este homem, só existe produzido pelo conjunto das relações sociais de produção. Um “ser social”, materialista, objetivo, concreto, exterior ao pensamento.

O teor científico da historiografia marxista é a ênfase no papel das contradições; priorizado pelo estudo dos conflitos sociais, fundamentado em “O Manifesto Comunista”, como um fio condutor, tese de que a história de todas as  sociedades até nossos dias, é a história da “luta de classes”.

A evolução do conceito da História como ciência social no século XX com os “Annales”, grupo de historiadores que tinha Marc Bloch e Lucien Febvre, como os seus principais fundadores. E, como observa Vavy Pacheco Borges, esses estudiosos “… embora sem uma unidade teórica, abrem, pelo exemplo de inúmeros trabalhos de análise histórica, um campo mais amplo de análise, além do limitado positivismo. Ao invés do estudo dos fatos singulares, procuram chamar a atenção para a análise de estruturas sociais (econômicas, políticas, culturais, religiosas etc.), vendo seu funcionamento e evolução” [27]. Borges e Reis trabalham essa forma de interpretar a história conforme o paradigma dos “Annales”, destacando o quanto eles foram importantes para retirar a História de seu isolamento e aproximá-la das outras ciências sociais.

Não queremos aqui nos deter muito na análise histórica, mesmo porque, isso demandaria um exaustivo trabalho, dada a riqueza de escritos existentes a respeito. Apenas destacamos, para efeito de síntese e de finalização do tema, por nós proposto, algumas observações sobre o estudo feito por Cláudia Otoni de Almeida Marotta [28], acerca da trajetória percorrida pela história a partir dos anos 60, ou seja, uma nova corrente chamada “História das Mentalidades”, que veio dar prosseguimento ao pensamento dos Annales.

Com uma proposta inovadora, a História das Mentalidades provocou algumas mudanças, tanto de natureza quantitativa, quanto qualitativa, sobretudo na metodologia positivista.

Dirigindo-se para a elaboração de uma História Nova – modalidade historiográfica que surgiu na França a partir de questionamento sobre o modo de ver, entender e aprender a história –, a História das Mentalidades vem propor que se estude a grande maioria da população e suas diversas atividades, abrindo, assim, uma espécie de leque e aumentando os pontos de observação.

A história tradicional, diz Marotta, deixou muitas lacunas sem serem preenchidas. Visando fornecer respostas a essas perguntas não respondidas, a História Nova procurou auxílio em outras ciências que pudessem ajudá-la na elaboração de seus objetivos. Assim, a História Nova é um exemplo de interdisciplinaridade, de abertura a diversas áreas do saber, numa espécie de intersecção entre ela e outras ciências.

A Antropologia, como já dissemos, é uma das ciências auxiliares da História, que fornece a esta última, meios de interpretação dos diversos elementos culturais de uma população. Nesse sentido, “a História das Mentalidades interessa-se por aquilo que escapa inconscientemente dos indivíduos, tenta entender o que está subentendido, escondido (…), desde objetos de adorno até a leitura de documentos literários e artísticos” [29].

Diferentemente de história das ideias – dos “grandes” homens etc –, a História das Mentalidades deseja saber como os aspectos culturais, entre outros, foram captados pelo povo em geral. Essa nova mentalidade “… não pode ser desligada da história dos sistemas culturais, dos sistemas de valores e de crenças, pois, para cada sociedade em sua época histórica, existe uma mentalidade e também várias mentalidades, ou seja, mentalidades arcaicas, modernas, cientificas, tradicionais” [30].

Muito próximo do antropólogo, do psicólogo ou do sociólogo, mas ao mesmo tempo, evitando repetições, o historiador, dessa nova proposta, procura entender os fenômenos socioculturais ou mesmo o “inconsciente coletivo” de um povo. Tanto o dominador quanto o dominado. O individual e o coletivo; o geral e o marginal; a história da cultura espiritual e a da material; os heróis e os vilões; os grandes e também pequenos fatos; as datas; o oprimido; o cotidiano em geral… são assuntos de interesse do historiador.

A perspectiva da História das mentalidades é reconstruir uma sociedade mais próxima de suas próprias verdades. Reconstituição essa, baseada não em dados meramente descritivos, dispersos, factuais e aparentes, mas numa história problematizada que elimina a noção de superioridade de cultura ou de civilização [31]; que retira o nome pejorativo de “bárbaros”, de outros povos examinados; que analisa os sentimentos, o “id” e o “ego”; que analisa a realidade psíquica e a memória coletiva; que entenda a como uma cultura tem noções: de Deus, de amor, de morte…; e de como tudo isso move as estruturas materiais e é igualmente movido por elas. Os fatos históricos, portanto, têm que ser estudados, levando-se em consideração a sua repercussão social com suas causas e efeitos, motivados pelos ideais dos grupos – em estudo –, e influenciados pela cultura que une seus membros…

 

Conclusão

A partir do que foi exposto procuramos demonstrar a relação entre a Cultura e a História. Nosso objetivo foi mostrar, nesse trabalho, que o conceito de cultura, objeto de estudo da Antropologia Cultural ou Etnologia, jamais deverá estar desassociada da História, tendo em vista as grandes contribuições que ela tem dado à formação dos grupos sociais. E, como já vimos, a História também é uma ciência social. Por isso, não há como estudar uma sociedade sem estudar a sua cultura.

Tentamos salientar, também, que o homem, como um ser social – criador e criação da cultura –, é capaz de modificar o conhecimento acumulado, recebido de outros e adaptá-lo ao seu meio, formando, assim, uma nova cultura, ou, em muitos casos, uma diversidade cultural inacabada, como acontece com as sociedades complexas.

Qual deve ser o papel da história frente a essa complexidade cultural, quando se estuda a humanidade? A História se ocupa do passado da humanidade. Mas, esse passado pode ser remoto e também recente. De qualquer forma, o historiador tem que estudá-lo, situando o seu cotidiano, sob um certo olhar etnológico.

Há alguma sociedade ou civilização que pode servir como modelo ideal ao estudar a humanidade? Se, feito sob um molhar etnológico, descobrir-se-á que estudo dessa natureza é reforço do etnocentrismo daquela cultura que o historiador julga como ideal. Não existe civilização que serve como parâmetro para outra, uma vez que indivíduos e sociedades mudam com o tempo e este é a dimensão de análise da História. Além disso, o processo histórico não obedece a um desenvolvimento linear.

Como exemplo de um fato histórico aliado ao tempo e às inovações culturais, podemos citar o caso brasileiro da Proclamação da República, conjuntamente com o ideal democrático que ela trazia em seu bojo. A própria palavra “democracia” aponta-nos para um passado bem remoto – à Grécia antiga –, onde o termo foi criado. Inventada em Atenas, como resultado de uma convenção social em seus dias, a palavra democracia tem sido utilizada pelos brasileiros, e durante o século XX – principalmente –, tem feito parte do seu vocabulário político.

No entanto, as inovações pelas quais o conceito de democracia tem passado, demonstram um distanciamento vertiginoso entre o cotidiano brasileiro e o cotidiano grego antigo. Por isso, ao estudar os fatos é imprescindível localizá-lo no tempo e tentar descobrir como eram os homens – agentes históricos – nesse tempo.

Tudo que se relaciona como o homem tem sua história, e para descobri-la, o historiador faz perguntas, como: o quê? quando? onde? por quê? etc. E as respostas para essas perguntas trazem atrás de si, todo um arcabouço cultural quem envolve o cotidiano dos indivíduos. Por isso, somente a História, auxiliada pela Antropologia, poderá desvendá-lo…

Bibliografia

  • CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995.
  • COHEN, Bruce Jerome. SociologiaGeral. São Paulo: Mc Graw – Hill do Brasil, 1980.
  • Harry L. (Org.). Homem, Cultura e Sociedade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Fundo de Cultura, 1972.
  • LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.
  • MAROTTA, Cláudia Otoni de Almeida. O que é História das Mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1991.
  • REIS, José Carlos. A História entre a Filosofia e a Ciência. São Paulo: Ática, 1996.
  • Vavy Pacheco. O que é História. 16ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 1991.
  • VILA NOVA, Sebastião. Introdução à Sociologia. São Paulo: Atlas, 1985.

 

Notas

  • [1]   Homem, Cultura e Sociedade. Op. Cit. (nº 7): obra onde os autores ocupam, respectivamente, os capítulos 7 (A natureza da Cultura); 8 (O Desenvolvimento da Cultura); 11 (Como a Cultura se modifica) e 16 (Como Atua a Sociedade Humana).
  • [2]   A Natureza da Cultura. Op. Cit. (nº 7), p. 208/9.
  • [3]   Ibid., p. 212.
  • [4]   LARAIA, 1986, p. 57.
  • [5]   Por exemplo: LARAIA, 1986, p. n57. Aqui. Leslie White é citado por Laraia neste contexto, porque aquele associa os símbolos com o ser humano. Outros também, como Clifford, Geetz e David Schneider (Ibid. p. 63), consideram a cultura como sistemas simbólicos, através de uma abordagem idealista. Veja também: Vila Nova, 1985, p. 31 e 32, onde este sociólogo trabalha o pensamento de Leslie White sobre o “valor do símbolo”, em sua associação desse pensamento com o processo de socialização.
  • [6]   O Desenvolvimento da Cultura. In: SHAPIRO, 1972, p. 223.
  • [7]  Dizemos “movidos pela sociedade”, porque aceitamos que esta leva as pessoas à procura de novas descobertas. Não se deve, porém, generalizar esse conceito. Às vezes os homens criam algo de que não necessitam. Ruth Benedict enfatiza, não ser a cultura, “mãe inevitável das invenções”. Além disso, certas técnicas, mesmo sendo necessárias, não foram aproveitadas por outras culturas. Idem, p. 227/9.
  • [8]   BENEDICT. In: SHAPIRO, 1972, p.225.
  • [9]   LARAIA, 1986, p. 50.
  • [10]  Eduard Tylor, 1871. In: LARAIA, 1986, p. 25.
  • [11]  Noticiário veiculado no Jornal da Noite, pela Rede TV – Canal 9, em 21/06/2000.
  • [12]  Como a cultura se modifica. In: SHAPIRO, 1972, p. 292/307.
  • [13]  Fazemos referências, aqui, a essas situações, dada a sua importância, apesar de, em parte, ter sido co-mentadas já no capítulo anterior.
  • [14]  COHEN, 1980, p.19.
  • [15]  Robert REDFIELD. Como atua a sociedade humana. In; SHAPIRO, 1972. p. 397.
  • [16]  Ibid, p. 400/1.
  • [17]  VILA NOVA, 1985, p. 72. Vila Nova chama ‘nosso grupo’ (We-group e in-group), o grupo de participação; e ‘grupo de fora’ (other–group e out-ogroup), o grupo de ‘não-participação’.
  • [18]  COHEN, 1980, p. 50.
  • [19]  Ibid., p. 57.
  • [20]  Ruth BENEDICT, 1972. In: LARAIA, 1986. p. 69.
  • [21]  CHAUÍ, 1995. p. 276.
  • [22]  Ibid., p. 101.
  • [23]  REIS, 1996. Em sua obra, o autor apresenta um estudo de como a História se emancipa da Filosofia – século XIX – tendo sua separação definitiva com os “Annales”, quando estes aproximam a História das outras ciências sociais.
  • [24]  REIS, 1996. p. 13.
  • [25]  BOURDÉ e MARTIN. In: REIS, 1996. p.13.
  • [26]  Cf. REIS, 1996. p. 40-53.
  • [27]  BORGES, 1991. p. 38.
  • [28]  MAROTTA, 1991.
  • [29]  Ibid., p. 19.
  • [30]  Ibid., p. 20.
  • [31]  O termo “civilização” começou a ganhar força no século XVIII, tendo como parâmetro, o modelo europeu. Daí, dizer que a história ocidental é “eurocêntrica”. No século seguinte, uma linha divisória é estabelecida entre as sociedades mais simples e as mais complexas. Alguns grupos conseguiram evoluir até chegar ao ponto considerado “civilizados”. Outros, ainda estão no ponto de “barbárie” ou pré-civilizados. “Mas será que nada temos para aprender dos ‘pré-civilizados’”? (Jaime PINSKY. As primeiras civilizações. 2ª ed. São Paulo: Atual, 1998, p. 23).
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