Archimínia de Meirelles Barreto: seu exemplo e legado na história do protestantismo brasileiro

Entre as Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro, título do livro da Professora Rute Salviano Almeida[1], quero destacar a pessoa e o trabalho de Archimínia de Meirelles Barreto, uma brasileira que muito cooperou para a história e defesa do Cristianismo Protestante em seu/nosso país.

Sinto-me especialmente beneficiado e grato à Professora Rute, por escrever sobre a pessoa de Archimínia, como “pioneira na literatura apologética protestante e primeira professora pública na Bahia”. Com certeza, ao fazer isto, a professora consegue, como é o propósito de seu livro, tirar esta e outras mulheres do “anonimato” e “esquecimento”, e trazer à tona suas contribuições dadas à nossa história. Se bem que, como batista, a memória de Archimínia não foi esquecida nos anais e publicações de sua igreja.

Para não ser apenas reprodução pura e simples do trabalho da Professora Rute, resolvi destacar no decorrer deste artigo, “um pouco sobre” a vida de Archimínia, o contexto histórico/religioso na Bahia, na época, e parte do seu legado para a nossa história.

1.   Um pouco sobre a vida de Archimínia Barreto

A baiana Archimínia de Meirelles Barreto e mais três irmãos (Belarmínio, Olímpio e Aclíndio) e duas irmãs (Jacquelina e Exupera) eram filhos do Padre Fernando Plínio Meirelles Barreto e de D. Leopoldina. O fato de ser filha de padre nunca foi motivo de ocultamento ou disfarce por parte de Archimínia. Ela nasceu em 12 de julho de 1845, em Inambupe, e morreu em 7 de janeiro de 1930, no subúrbio de Periperi, portanto, uma vida de quase 85 anos de devotado trabalho em prol da sociedade baiana.

Em 1875, Archimínia foi nomeada professora, mediante concurso, aos 30 anos, tornando-se a primeira professora pública no estado da Bahia, quando o Brasil era ainda governado pelo Imperador Dom Pedro II, portanto, no Segundo Reinado. Tinha domínio do latim e do francês, fruto da esmerada educação recebida de seu pai, padre e homem muito culto.

Após dezoito anos trabalhando como professora, Archimínia, que até então era católica e casada, converte-se à fé protestante, em 5 de fevereiro de 1893, juntamente com sua irmã Jacquelina, na Primeira Igreja Batista da Bahia, sendo batizadas no mesmo dia.

Archimínia

Esta “…velha fotografia, esmaecida pelo tempo, revela o apuro do traje de formatura, busto e longa cabeleira ornados de flores, a larga planície da testa, o olhar vivo, o ar inteligente e decidido.” [2]

A conversão de Archimínia trouxe-lhe tristes consequências, sendo uma delas, a separação por parte de seu marido Joaquim Euthychio de Oliveira, com o qual tivera duas filhas: Eunice e Evangelina. Como seus pais já eram falecidos e devido o abandono, também por parte da família de seu ex-marido, Archimínia e suas duas filhas foram morar com sua irmã Jacquelina, que já estava viúva naquele ano de 1893.

Outra consequência de sua conversão foi a perseguição sofrida nas escolas por onde passava. Acusada de ter ‘parte com o diabo’, Archimínia foi rejeitada por muitos pais de seus alunos, perseguida por estes e transferida de escola diversas vezes por causa de sua fé.

Com 56 anos de idade, Archimínia sofre um acidente e fratura uma perna. Infelizmente, não encontrei informações acerca de sua vida como mãe e professora secular após isto. Ao que parece, a expressão “professora aposentada”, (ALMEIDA, 2014: 298), sugere que ela tenha trabalhado ainda muito tempo no magistério, além do trabalho apologético, como escritora, do qual falaremos mais à frente.

Archimínia faleceu em 20 de janeiro de 1930, aos 85 anos [3], como já falamos, deixando um excelente exemplo de dedicação e entrega na defesa e divulgação de sua fé.

2.   Um pouco sobre o contexto histórico/religioso na Bahia

Como vimos, a vida de Archimínia abrange o final do século XIX e início do século XX. Ou seja, sua vida coincide com o fim do Segundo Reinado, sob o governo de Dom Pedro II e início da República, a qual foi proclamada em 15 de novembro de 1889.

No Segundo Reinado, o catolicismo era a religião (igreja) oficial, marcada pelo sistema do padroado, que “… dava ao imperador o direito de intervir na nomeação de elementos do clero para cargos mais importantes. Já o beneplácito concedia ao imperador o direito de vetar as determinações do Vaticano. Só depois da aprovação do imperador é que as determinações papais tinham validade no Brasil” [4]

O sistema do Padroado foi implantado no Brasil, na época de Pedro I, em 1827, cinco anos após sua Independência, um país que já nasceu católico. Mas as interferências do imperador nos assuntos religiosos geravam constantes atritos entre este e o clero católico brasileiro, no final do Segundo Reinado, levando muitos religiosos a fazerem frente ao movimento republicano e luta pelo fim da monarquia no Brasil.

Foi neste contexto que teve início a Primeira Igreja Batista da Bahia, em 1882, da qual Archimínia seria membro. Esta igreja foi beneficiada com o envolvido do clero católico na efervescência político-religiosa, pequeno número de paróquias e de padres naquele estado. Com isto, muitos fiéis católicos procuraram entre os batistas, alternativas que pudessem satisfazer suas necessidades espirituais.

Mas mesmo assim, a Igreja Católica não tardou a reagir contra o crescimento dos batistas na região baiana. A pesquisadora Elizete da Silva [5], ao falar dos batistas na Bahia, relata que

“… para os pioneiros batistas, o catolicismo não era considerado como uma religião cristã, mas puro paganismo que tinha deturpado as verdades bíblicas. O verdadeiro cristianismo era o seguido palas igrejas evangélicas, era o que pregavam os líderes batistas.” (SILVA, 1998:60). Mas para os católicos, ao contrário, os batistas eram tidos como hereges ‘… inimigos que têm como intuito plantar a discórdia, enfraquecer a união, desviar os fracos e roubar-lhes o mais precioso legado de nossos pais, a nossa Religião.’ (SILVA, 1998:60).

Diversos casos de perseguição e violência aos crentes batistas, são mencionados em atas da Primeira Igreja Batista da Bahia. A Constituição de 1891, promulgada dois anos antes da conversão de Archimínia, trazia em seu bojo o fim do padroado e a liberdade de culto para todos. Além disto, a Igreja Católica deixava de ser a religião oficial do Brasil. Ela prescrevia que “todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto, associando-se para esse fim e adquirindo bens, observadas as disposições do direito comum“ [6]. Mas mesmo assim, aquele tempo “… era de ignorância e fanatismo, os quais concebiam e dava à luz a intolerância, irmã gêmea da violência” (CAVALCANTI, 1969:19).

A liberdade constitucional não era acatada. Aliás, era muito criticada pelo clero católico porque dava aos “hereges” a liberdade de espalharem suas falsas ideias, levando os incautos a acatar sua religião. Por isso mesmo, os padres fizeram o que puderam para impedir, por exemplo, que as obras de Archimínia fossem publicadas nos jornais da cidade.

3.   Um pouco sobre o legado de Archimínia Barreto

Quando Jesus contou a parábola do servo vigilante, lembrando os seus discípulos acerca de sua responsabilidade como mordomos fiéis e sábios durante sua ausência, afirmou no final, que “… a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá” (Lc 12.48b). [7]  Acredito que à Archimínia, uma de suas servas, Jesus deu talentos ou habilidades especiais com os quais ela pode servir com muita dedicação a igreja cristã protestante de seu (e também nosso) tempo. Uma dessas habilidades foi o trabalho apologético.

Mediante seus escritos, como em a Mitologia dupla, sua principal obra, Archimínia faz rigoroso trabalho de pesquisa, percorrido por várias fontes históricas e literárias, sobretudo a mitologia greco-romana, com o objetivo de trazer à tona ao leitor, sobretudo o católico que precisaria conhecer esta verdade, isto é, como a idolatria foi se avolumando no decorrer da história eclesiástica católica, convertendo-se numa religiosidade “cavalo do Troia” ou presente de grego que o clero católico vem dando aos seus fiéis através dos tempos. E ao reconhecer esta verdade, Archimínia procurava fazer triunfar a “verdade evangélica”, genuinamente bíblica. Como esta obra foi escrita a pedido do pastor Zacharias C. Taylor, pioneiro dos batistas na Bahia, que viu seu preparo para tal tarefa, em sua dedicatória a este pastor ela destaca, entre outras coisas:

Reconhecendo que a idolatria em que nós, brasileiros, fomos educados pelos portugueses nossos possuidores, tinha a sua origem em Roma, fácil me foi descobrir a parecença dos santos da Igreja Católica Romana com os deuses da Igreja Romana Mitológica (…) Aceitai, pois, ilustre irmão, este livrinho, a que dei o nome de Mitologia Dupla, como lembrança de uma brasileira que sabe avaliar os esforços que tendes empregado para elevar a seu país ao grau de civilização que possui o vosso…” (ALMEIDA, 2014:295).

Mas Archimínia escreveu também uma diversidade de artigos sobre as mulheres cristãs, evangelismo, folhetos de edificação, muitos textos polêmicos etc., mas sempre primando pela ortodoxia evangélica batista, em detrimento da falácia e da ‘miscelânea do catolicismo’.

De Jerusalém, saiu o evangelho, e de Roma, a idolatria. Jesus é um rei eterno, e o Papa, um homem negociante de alma. Sirvamos ao nosso Rei, a despeito dos mercenários de Roma. A Ele, o Deus de toda a Glória, Pai, Filho, e Espírito Santo, sejam todas as glorias para todo o sempre. Amém. (Idem:297).

Convém destacar, também, outro talento de Archimínia: sua coragem. Exemplo disso, é o caso de um apelo feito a ela por um inspetor para que ela abjurasse sua fé. Ela repreende-o por invadir a seara de sua consciência. Percebendo sua atitude, o inspetor torna-se seu melhor defensor junto à repartição educacional de ensino.

Mais um exemplo de coragem de Archimínia foi demonstrado em 1910, quando a população baiana, ao aguardar com tensão a passagem do cometa Halley, no dia 7 de maio daquele ano, cuja cauda poderia arrastar a terra, a igreja e a praça do lugarejo serviram como ponto de orações e cânticos dos católicos, com medo do “fim do mundo”. Diante daquela neurose coletiva, Archimínia e sua família permaneceram calmos em sua própria casa, continuando com seu culto doméstico cotidiano, motivo de testemunho e conversão de duas famílias da vizinhança. “O padre não gostou. Aquilo era, para ele, um fim de mundo. Escreveu a Archimínia, intimando-a a retirar-se de Pojuca sob a alegação de que iria realizar uma procissão e não teria condições de impedir que o povo lhe apedrejasse a casa” (CAVALCANTI, 1969:21). Isto não aconteceu porque seu sobrinho Lauro, coronel do Exército, foi avisado por ela e tomou providência junto ao Chefe da Polícia para dar segurança à sua tia.

Ainda outro caso de demonstração de coragem por parte de Archimínia, aconteceu quando o vigário do subúrbio da Plataforma pediu para que a Igreja Batista daquele bairro não se reunisse num determinado domingo por causa de uma ‘santa missa’ especial. O pastor e os diáconos da Igreja Batista concordaram com a não realização do culto, decisão que contrariou Archimínia. Ela chamou o pastor à sua casa e ambos resolveram pela realização do culto em outro endereço: “… desistimos de realizar o culto, não porque tenhamos medo do Sr. Vigário Arlindo, mas porque o espírito de paz e de prudência a isso nos induziu. (Idem:21).

O preparo intelectual, o destemido trabalho e a coragem de Archimínia não levaram-na a se sentir “grande” e acima da média das pessoas de sua época. Ela era humilde e de uma grandeza de caráter exemplar, como uma serva abnegada que muito cooperou para o Cristianismo Protestante.

Encerrando este artigo, quero destacar que o exemplo de Archimínia deve ser pauta das discussões e debates teológicos sobre o papel da mulher na igreja, como faz, por exemplo, a Professora Rute, em suas aulas e em seus livros [8], o que aliás, me despertou a estudar um pouco mais sobre isto. No âmbito protestante, para a mulher genuinamente cristã, independentemente de sua posição eclesiástica (ser ou não “pastora”, por exemplo), o que mais fica patente é o seu compromisso com Jesus que exigirá e recompensará o uso correto ou investimento eclesiástico, de seus servos ou servas a quem foram dados seus talentos ou dons. É nesta temática, dedicação e serviço da mulher cristã, que a professora Rute desenvolve suas aulas. Seja como professora ou educadora, escritora, pregadora, conselheira etc., na seara do Mestre há muito o que a mulher, e o homem cristãos podem fazer. E que o exemplo de Archimínia nos inspire para tal tarefa…

Notas:

  • [1] ALMEIDA, Rute Salviano. Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro. São Paulo: Hagnos, 2014.
  • [2] imagem extraída do livro Mitologia Dupla, transcrita por CAVALCANTI, Ebenézer G. de O Jornal Batista, de 2 de novembro de 1969. Disponível em: http://pt.slideshare.net/adson232/mitologia-dupla-biografia-de-archimnia-barreto-autora. Acesso em 14/02/2015. Citada, também, por ALMEIDA, 2014:292.
  • [3] Há uma pequena divergência entre as duas fontes consultadas sobre a biografia de Archimínia. Enquanto ALMEIDA, 2014:298), afirma que Archimínia “morreu, aos 87 anos, em 20 de janeiro de 1930”, o relato de Ebenézer Gomes Cavalcanti, afirma que ela “… faleceu a 7 de janeiro de 1930, no subúrbio de Periperi” (MITOLOGIA DUPLA, Op. Cit., Nota 2:17). O mais importante é que estes anos foram vividos na ‘perseverança dos santos’ e na ‘fé em Jesus”.
  • [4] SILVA, Francisco de Assis. In: ALMEIDA, 2014:127.
  • [5] SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de Doutorado, pela FFL CH-USP. São Paulo: 1998. Disponível em: <file:///C:/Users/ALCIDES/Downloads/Protestantismo-tese+elizete%20(1).pdf.>. Acesso em 17/02/2015.
  • [6] Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (24 de fevereiro de 1891). Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>. Acesso em 19/02/2015.
  • [7] BÍBLIA SAGRADA, A.R.C., Sociedade Bíblica do Brasil, 4ª Edição, S.B.B., publicada pela CPAD. Rio de Janeiro: 2013.
  • [8] Tive contato, e pretendo ler os seguintes livros da professora Rute Salviano Almeida, todos pela Editora Hagnos: Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro (base deste artigo); Uma Voz feminina calada pela inquisição e Uma voz feminina na Reforma.

Referências bibliográficas:

  • ALMEIDA, Rute Salviano. Vozes Femininas no Início do Protestantismo Brasileiro. São Paulo: Hagnos, 2014.
  • BÍBLIA Sagrada A.R.C. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 4ª Edição, Publicada pela C.P.A.D. (Casa Publicadora das Assembleias de Deus): 2013.
  • CAVALCANTI, Ebenézer G. de O Jornal Batista, de 2 de novembro de 1969. Disponível em: http://pt.slideshare.net/adson232/mitologia-dupla-biografia-de-archimnia-barreto-autora. Acesso em 14/02/2015.
  • CONSTITUIÇÃO da República dos Estados Unidos do Brasil (24 de fevereiro de 1891). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm>. Acesso em 19/02/2015.
  • SILVA, Elizete da. Cidadãos de outra pátria: anglicanos e batistas na Bahia. Tese de Doutorado, pela FFL CH-USP. São Paulo: 1998. Disponível em: <file:///C:/Users/ALCIDES/Downloads/Protestantismo-tese+elizete%20(1).pdf.>. Acesso em 17/02/2015.
Esta entrada foi publicada em Teologia e marcada com a tag . Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.