O Deus da Idade Média

Introdução: Deus, assunto de história

O objeto destas conversas é a concepção de Deus no Ocidente medieval. As religiões se voltam, de um modo geral, para pessoas sagradas, ou mesmo divinas, uma grande virada na história da humanidade foi a substituição do culto de uma pluralidade, senão de uma multidão de deuses no paganismo antigo (ainda que uma concepção unitária da divindade procurasse emergir mesmo neste caso), pela crença em um só Deus. Não se trata aqui de evocar a religião no conjunto do cristianismo medieval – sobre isso existe uma rica bibliografia. Deus, assim, é o assunto que nos interessa, é o assunto que abordamos, é a nossa busca.Diferentemente de Javé e de Alá, que o judaísmo e o islam protegeram de qualquer figuração, o Deus dos cristãos pode ser representado. O Ocidente medieval conheceu conflitos em torno do iconoclasmo, conflitos que entretanto não chegaram à gravidade atingida no cristianismo ortodoxo grego em Bizâncio. Mas, para ver o Deus dos cristãos, não basta afirmar que ele pode ser representado. Convém ainda atentar para o importante fato de que ele foi concebido e representado como uma pessoa humana. O Deus dos cristãos é antropomórfico e sua “antropomorfização” se fez, essencialmente, durante o período medieval.A imagem de Deus não se liga apenas à iconografia. Também está no centro da teologia, da liturgia, da espiritualidade, da devoção. Como os homens e as mulheres da Idade Média imaginavam Deus? Que relacionamento mantinham com ele? Este é o assunto, a um tempo muito amplo e muito preciso, destas conversas.A imagem de Deus numa sociedade depende sem dúvida da natureza e do lugar de quem imagina Deus. Existe um Deus dos clérigos e um Deus dos leigos; um Deus dos monges e um Deus dos seculares; um Deus dos poderosos e um Deus dos humildes; um Deus dos pobres e um Deus dos ricos. Tentamos apreender esses diferentes “Deus” em torno de alguns dados essenciais: o Deus da Igreja, Deus da religião oficial; o Deus das práticas, que na Idade Média são fundamentalmente religiosas, antes que emerjam aspectos profanos. São os dogmas, as crenças, as práticas que nos interessam, na medida em que definem e deixam entrever a atitude dos homens e das mulheres da Idade Média em relação a Deus.No decorrer desta reflexão e desta busca, teremos a surpresa de descobrir que, entre as realidades que nos mostram os textos, os rituais, as imagens e a prática social e devocional, foi possível vislumbrar – de todo modo, é a hipótese que aventamos aqui – um certo desencontro, para dizer o mínimo, entre monoteísmo oficial e formas de politeísmo. Como se o cristianismo medieval tivesse realizado com Deus um milagre suplementar… O Deus concreto dos homens e das mulheres da Idade Média foi ora o Deus Pai, ora o Deus Filho, ora o Espírito Santo. Acrescentamos a isso o que consideramos um dos grandes acontecimentos da história medieval: a introdução – na Trindade, ou ao lado dela – de uma pessoa feminina, a Virgem Maria. Durante nossa investigação, um fato se tornou cada vez mais forte, um fato que sem dúvida teria escandalizado a Igreja e os cristãos do século passado, e que ainda surpreenderá sem dúvida certos cristãos de hoje: as imagens de Deus mudam com o correr do tempo. Não falamos somente da moda iconográfica. Que um Cristo imberbe suceda a um Cristo barbado, ou o contrário, é definitivamente um detalhe. Mas que Deus apareça sobretudo sentado, sobre um trono, “como majestade”, segundo a expressão consagrada, ou que seja mostrada mais habitualmente a imagem de Jesus sofredor crucificado do que o cadáver de Jesus descido da Cruz estendido sobre os joelhos de sua Mãe, ou mesmo o Deus Pai, isso tem uma significação profunda, e leva a considerar as relações entre o Deus do dogma e o dos fiéis uma obrigatória visão histórica. Não hesitamos em dizer, existe para o historiador, e consequentemente, no ser humano, uma história de Deus. É essa história que também é esboçada nestas conversas, com um respeito absoluto pelas crenças.

                                                                          (LE GOFF, J. O Deus da Idade Média. pp. 9 a 13).

Veja o livro completo (gravado em PDF) em:

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LE GOFF, J. O Deus da Idade Média

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Importante resenha, feita por Marcos José Diniz Silva, em:

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Deus, assunto de história

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