Expansão Marítimo-Comercial europeia

A Expansão Marítimo-Comercial Europeia, conhecida também como As Grandes Navegações foi um processo de expansão do comércio através dos mares, nos séculos XV e XVI, liderado por portugueses e espanhóis, vindo em seguida Inglaterra, França e Holanda. Estes reinos europeus lançaram-se por mares e oceanos desconhecidos, em embarcações pequenas e frágeis. Nessas viagens, conheceram e dominaram imensos territórios e centenas de povos em três grandes continentes: África, Ásia e América. Vejamos um breve estudo sobre esse assunto a seguir.

Mapa de Hartman Schedel. Secunda Etas Mundi, 1493 [1]

1. Antecedentes

Sobre os antecedentes ou fatores que motivaram as grandes viagens comerciais, veja o vídeo a seguir [2]:

Em resumo, estes antecedentes foram:

  • As Cruzadas, que levaram os europeus a terem contatos com novos produtos orientais, chamados especiarias (pimenta, cravo, canela etc.) e de artigos de luxo (marfim, porcelanas, seda, perfumes, tapetes) com o Oriente.
  • Pesadas taxas e impostos que passaram a ser cobrados pelos turcos otomanos a partir de sua conquista à cidade de Constantinopla. Por causa disso, as especiarias revendidas pelos italianos na Europa ficaram ainda mais caras, levando os países europeus a evitarem o Mediterrâneo. Para esse problema, a solução era buscar um caminho marítimo que levasse ao Oriente através do Atlântico.
  • Outra boa razão para as expedições marítimas era a necessidade de obter ouro e prata. Naquela época, as jazidas de metais preciosos da Europa estavam se esgotando e não produziam mais o necessário para a fabricação de moedas. A escassez de moedas dificultava o crescimento do comércio, impedindo que as burguesias europeias aumentassem seus lucros e que os reis ampliassem seus rendimentos por meio da cobrança de impostos.
  • Aliança entre a burguesia mercantil e o rei (poder central). Embora fosse um empreendimento caro e arriscado, a expansão marítima e comercial interessava tanto às burguesias quanto aos reis da Europa. Por isso, eles se aliaram para realizá-la. A burguesia forneceu capital e o rei ofereceu proteção e ajuda aos negócios.

O progresso técnico e científico também colaborou muito para que os europeus se arriscassem a navegar em mar aberto. São exemplos desse progresso o aperfeiçoamento do uso da bússola e do astrolábio (instrumentos que auxiliam na indicação do rumo); o uso bélico da pólvora; a invenção da caravela (mais leve e veloz que a galera) e o desenvolvimento da cartografia.

 

2. Portugal: origem e principais viagens

Portugal é um país localizado a sudoeste do continente europeu, na península Ibérica. Essa península foi habitada por vários povos durante a formação social da Europa medieval.

Durante as guerras de Reconquista, formaram-se vários reinos católicos no norte da península Ibérica: Leão, Castela, Aragão e Navarra. As terras reconquistas dos árabes eram transformadas em condados (territórios administrados por condes).

As lutas de Reconquista tinham um caráter de guerra religiosa e um espírito aventureiro, que faziam parte do modo de pensar dos nobres guerreiros da Idade Média. Um desses nobres, D. Henrique, era membro da família francesa de Borgonha e colocou-se a serviço de Afonso VI, rei católico de Leão, na luta contra os muçulmanos. Em troca, D. Henrique recebeu o condado Portucalense.

Mais tarde, seu filho Afonso Henrique e o grupo político ligado a ele passaram a lutar pela independência do condado, conquistada em 1139. Com isso, formou-se o Reino de Portugal.

Portugal

Depois de sua independência, Portugal foi governado por duas dinastias: Borgonha e Avis.

Os reis da dinastia de Borgonha governaram Portugal por mais de duzentos anos. Durante quase todo esse período, o reino português ainda permaneceu envolvido na luta da Reconquista cristã. A completa expulsão dos muçulmanos e a formação do território disputado pelos portugueses como o conhecemos hoje só ocorreram em 1249, com a conquista da região de Algarves, ao sul.

No reinado de D. Dinis de Borgonha de Borgonha (1279 – 1325), a Reconquista havia terminado e iniciou-se um período de organização interna do país.

A economia de Portugal era basicamente agrária, sendo seus principais produtos o vinho e o azeite. Lentamente, foi-se transformando num país também voltado para a atividade comercial-marítima (pesca e comércio de sardinha, baleia, atum, bacalhau), graças ao crescimento de grupos sociais ligados a essas atividades. De certa forma, eles eram os continuadores das práticas muçulmanas de comércio e navegação, embora fossem inimigos no aspecto religioso.

Em 1831, a dinastia de Borgonha chegou ao seu final, porque o rei D. Fernando, ao falecer, não deixou um sucessor do sexo masculino. A rainha viúva, D. Leonor Teles, ocupou o poder como regente. Entretanto, estava disposta a entregar a chefia do trono português para sua filha Beatriz, casada com D. João I, rei de Castela.

Dinastia de Borgonha
- D. Afonso Henriques (1139 – 1185).
- D. Sancho I (1185 – 1211).
- D. Afonso II (1211 – 1223).
- D. Sancho II (1223 – 1248).
- D. Afonso II (1248 – 1279).
- D. Dinis (1279 – 1325).
- D. Afonso IV (1225 – 1357).
- D. Pedro I (1357 – 1367).
- D. Fernando I (1367 – 1383).

Os comerciantes interessados no desenvolvimento marítimo apoiaram D. João nas lutas pela preservação da independência política de Portugal.

Com D. João, iniciou-se a dinastia de Avis, período no qual a nobreza agrária subordinou-se aos reis, que reforçaram e centralizaram os poderes em suas mãos, favorecendo a expansão comercial-marítima portuguesa.Após desenvolver diversas tecnologias de navegação, como a Caravela (navio de estrutura leve movido pelo vento), a cartografia (elaboração de mapas), a bússola (instrumento de orientação espacial), os portugueses efetuaram diversas viagens. Essas tecnologias foram desenvolvidas na Escola de Sagres, fundada pelo infante D Henrique, filho do rei D. João I.

Dinastia de Avis
- D. João I (1385 – 1433).
- D. Duarte (1433 – 1438).
- D. Afonso V (1438 – 1481).
- D. João II (1481 – 1495).
- D. Manuel I (1495 – 1521).
- D. João III (1521 – 1557).
- D. Sebastião I (1557 – 1578).
- D. Henrique (1578 – 1580).

Cronologia da Expansão portuguesa

  • 1415 – Conquista de Ceuta.
  • 1419 – Expedição portuguesa chega à ilha da Madeira.
  • 1431 – Reconhecimento do arquipélago dos Açores.
  • 1434 – Gil Eanes ultrapassa o cabo Bojador.
  • 1443 – Nuno Triatao atinge a Senegâmbia; Dinis Dias ultrapassa a foz do Senegal.
  • 1482 – Diogo Cão descobre o Zaire.
  • 1488 – Bartolomeu Dias atinge o cabo sul-africano, onde enfrenta uma perigosa tempestade. Por essa razão, denomina-o cabo das Tormentas. Com esse grandioso evento, abra-se a possibilidade de chegar às Índias contornando a África. Por essa razão, o rei de Portugal, D. João, resolve alterar o nome do cabo para outro mais otimista: cabo da Boa Esperança.
  • 1498 – Vasco da Gama, comandando uma frota de quatro navios (São Gabriel, São Rafael, Bérrio e uma barca de mantimentos), atinge a cidade de Calicute, na Índia.
  • 1500 – Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil.

 

3. Navegações espanholas

Antes dos espanhóis, foram os portugueses que saíram à frente nas navegações. Entretanto, vamo-nos deter às navegações feitas pelos espanhóis, por terem sido a Espanha quem colonizou a América, com exceção do Brasil.

Enquanto os portugueses exploravam o litoral africano avançando pelo Atlântico em direção às Índias, os espanhóis lutavam para reconquistar os territórios perdidos para os árabes na península Ibérica.

Essa prolongada luta contra os árabes retardou a formação do reino de Espanha, fato que explica o atraso dos espanhóis em relação aos portugueses na arrancada para as Grandes Navegações.

O Reino de Espanha só se formou após o casamento, ocorrido em 1469, entre os reis católicos Fernando (do Reino de Aragão) e Izabel (do Reino de Castela).

Unindo seus reinos e esforços, Fernando e Izabel continuaram a lutar contra os árabes até que, em 1492, conseguiram expulsá-los da península Ibérica. Livre do domínio estrangeiro, a Espanha pôde se lançar às Grande Navegações. Nesse mesmo ano, Fernando e Izabel decidiram financiar o ousado projeto de um experiente navegador genovês chamado Cristóvão Colombo.

Enquanto os portugueses buscavam chegar às Índias contornando a África, o projeto de Colombo em atingir o Oriente navegando sempre em direção ao Ocidente. Colombo sabia que a Terra é arredondada, por isso decidiu atingir as Índias dando volta em torno do mundo. No entanto, imaginava que o nosso planeta fosse menor do que realmente é. Equipado de uma pequena esquadra de três caravelas, em agosto de 1491, partiu do porto de Palos.

Colombo navegou sempre para o oeste e, a 12 de outubro, aportou nas Bahamas, encontrando, então, um continente “novo” para os europeus: a América. Pensando ter chegando às Índias, Colombo chamou de índios os povos que lá encontrou.

Colombo fez quatro viagens à América. Esteve nas atuais São Domingos, Cuba e Jamaica, onde permaneceu por um ano. Apesar disso, morreu sem saber que havia encontrado um continente até então desconhecido dos europeus. Esse continente foi chamado de América em homenagem ao navegador, matemático e astrônomo Américo Vespúcio, que desfez o engano de Colombo afirmando a existência de uma “grande terra” no meio do Atlântico que não tinha nada a ver com o Velho Mundo.

A Espanha amplia seus domínios

Animados pelo sucesso das viagens de Colombo, os reis espanhóis financiam outras expedições. O objetivo era descobrir caminhos e ampliar seus domínios, fazendo novas conquistas.

Entre as expedições patrocinadas pelo governo espanhol no início do século XVI, destacam-se a de Vasco Nuñez de Balboa, que depois de atravessar o istmo do Panamá descobriu o oceano Pacífico, em 1513; a de Fernão de Magalhães, que iniciou a primeira viagem de circunavegação da Terra, contornando o extremo sul do continente americano, em 1519; a de Sebastião Del Cano, que completou essa viagem, chegando de volta à Espanha em 1522, comprovando a esfericidade da Terra.

Simultaneamente à primeira viagem de circunavegação, outras expedições oficiais espanholas iniciavam a ocupação das terras americanas a fim de se apropriarem de suas fabulosas riquezas.

As principais viagens espanholas foram:

  • 1492 – chegada de Colombo à América;
  • 1499 – Alonso Ojeda chega à Venezuela;
  • 1500 – Vicente Yanes Pinzón chega à foz do rio Amazonas, chamando-o de Mar Doce;
  • 1502 – quarta viagem de Colombo à América;
  • 1513 – Vasco Nunez Balboa atingiu o oceano Pacífico;
  • 1519 – Fernão de Magalhães e Sebastião Del Cano iniciam a primeira viagem de circunavegação, concluída em 1521;
  • 1519 – Fernão Cortez inicia a conquista do México;
  • 1531 – Francisco Pizarro inicia a conquista do Peru.
Navegações portuguesas e espanholas

Viagens e conquistas portuguesas e espanholas – Séculos XV e XVI

O tratado de Tordesilhas

O Tratado de Tordesilhas foi um tratado assinado entre Portugal e Castela (Espanha) em 1494, destinado a resolver as rivalidades entre os dois Estados Ibéricos pela posse das terras descobertas por Cristóvão Colombo em 1492. Segundo este tratado, o mundo ficava dividido por um meridiano de pólo a pólo, situado 370 léguas a Oeste de Cabo Verde; as terras já descobertas ou que viessem a ser descobertas localizadas a Ocidente (oeste) desse meridiano pertenceriam a Castela e as localizadas a Oriente (leste) pertenceriam a Portugal.

Espanha e Portugal assinam o Tratado de Tordesilhas e dividem o Novo Mundo entre si [3].

4. Navegações inglesas

A expansão marítima inglesa, assim como a espanhola, só se iniciou no final do século XV. As razões principais desse atraso foram a Guerra dos Cem Anos, contra a França, e a Guerra das Duas Rosas, conflito interno pelo poder, que causaram grandes prejuízos à Inglaterra.

Em 1497, navegando a serviços da Inglaterra, o italiano Giovanni Caboto tentou encontrar uma passagem para o Oriente pelo extremo norte. Nessa viagem, explorou alguns pontos da América do Norte. No entanto, não se descobriu a passagem desejada e a Inglaterra passou a se utilizar do caminho descoberto pelos portugueses para chegar às fontes das especiarias orientais, estabelecendo-se em alguns pontos da Índia.

Em 1557, o pirata inglês Francis Drake, na segunda viagem em torno da Terra, assaltou navios espanhóis carregados de riquezas extraídos da América.

Percebendo que a prática da pirataria lhe traria lucros imediatos, o governo inglês passou a incentivá-la, tornando-se o principal sócio dos grandes piratas. Por esse motivo, a Inglaterra só iniciou a colonização da América do Norte no final do século XVI.

 

5. Navegações francesas

Várias nações europeias mostraram-se totalmente insatisfeitas com as determinações do Tratado de Tordesilhas celebrado entre Portugal e Espanha.

O rei Francisco I da França, por exemplo, deixou claro que não respeitaria o Tratado de Tordesilhas, dizendo: “Desconheço a cláusula do testamento de Adão que dividiu o mundo entre Portugal e Espanha!”.

Em 1524, navegando a serviço do rei francês, Giovanni Verrazano tentou encontrar uma passagem para o Oriente através do extremo norte; acabou explorando uma extensa faixa do litoral da América do Norte. Dez anos depois, a França patrocinou a expedição do navegador Jacques Cartier, que explorou o rio São Lourenço e tomou posse de partes dos atuais Canadá e Louisiana.

Assim como os ingleses, os franceses também se dedicaram à pirataria e ergueram inúmeras feitorias na África e na Ásia. Ao mesmo tempo, tentaram, sem sucesso, estabelecer-se na América portuguesa, onde chegaram a fundar colônias: a França Antártica (1555 – 1567), no Rio de Janeiro, e a França Equinocial (1612 – 1615), no maranhão.

 

6. Navegações holandesas

A demora holandesa em participar das Grandes Navegações explica-se pelo fato de que a Holanda vinha aplicando seu capital no rentável comércio do mar do Norte e no financiamento da expansão portuguesa. Além disso, o país esteve sob o domínio da Espanha durante grande parte do século XVI.

Livre do domínio espanhol a partir de 1579, a pequena República da Holanda lançou-se à conquista de inúmeros territórios situados na África, na Ásia e na América, muitos dos quais pertencentes a Portugal.

O império colonial holandês chegou a englobar áreas ricas e distantes entre si, tais como a região do Cabo, na África; Java, Ceilão e ilhas Molucas (também chamadas de ilhas das especiarias), na Ásia; Nova Amsterdã (atual Nova Iorque), várias capitanias do nordeste brasileiro e as Antilhas, na América. Nessa expansão, os holandeses invadiram o Brasil por duas vezes: entre 1624 e 1625 estiveram na Bahia, e entre 1630 e 1654 apoderaram-se das regiões açucareiras localizadas ao norte da capitania de Pernambuco.

 

7. Efeitos da expansão europeia

A expansão marítimo-comercial dos séculos XV e XVI teve como conseqüências importantes transformações no panorama histórico da época. Entre elas, cabe destacar:

  • o extraordinário crescimento do valor e do volume do comércio internacional. Nesse contexto, o tráfico de escravos tornou-se uma fonte importantíssima de acumulação de capital;
  • o mudança do eixo econômico do Mediterrâneo para o Atlântico. Com isso, inicia-se o declínio econômico das cidades italianas e a ascensão comercial de países banhados pelo Atlântico, tais como Portugal, Espanha, França, Holanda e Inglaterra;
  • a situação de povos africanos, asiáticos e americanos aos europeus. Estes organizaram vastos impérios coloniais e se apropriaram das riquezas dos povos subjugados, tais como: escravos e marfim da África; especiarias e artigos de luxo da Ásia; ouro, prata e açúcar da América.

A mentalidade do homem daquele tempo também mudou: ele passou a enxergar o mundo de forma cada vez mais racional.

 

Referências / Bibliografia:

  • BATISTA, Israel. Antecedentes e causas da Expansão Marítima. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=iCcBJ10sd1o>. Acesso em 08/08/2016.
  • BOULOS Jr., Alfredo. História Geral – Vol. 2. São Paulo: FTD, 1995.
  • COTRIM, Gilberto. Saber e Fazer História – 6ª Série. São Paulo. Ed. Saraiva. 2000.
  • ROTAS das Grandes navegações europeias do século XVI. Disponível em: <http://slideplayer.com.br/slide/5652141/>. Acesso em 08/08/2016.
  • TRATADO de Tordesilhas. Imagem disponível em:<http://www.laifi.com/laifi.php?id_laifi=1000&idC=15004#>. Acesso em 08/08/2016.
  • TRATADO de Tordesilhas. Texto disponível em: <http://www.sohistoria.com.br/dicionario/popup.php?id=137>. Acesso em 08/08/2016.

 

Notas:

  • [1] Disponível em:<https://www.raremaps.com/ gallery/archivedetail/10188/Secun da_etas_mundi/Schedel.html>. Acesso em 08/08/2016.
  • [2] Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=iCcBJ10sd1o>. Acesso em 08/08/2016.
  • [3] Disponível em: <http://www.laifi.com/laifi.php?id_laifi=1000&idC=15004#>. Acesso em 08/08/2016.
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