As Escrituras (2): formação do cânon e outras considerações

No capítulo (post) anterior, vimos informações mais internas sobre a Bíblia, isto é, aquilo que ela fala de si mesmo, destacando sua revelação, inspiração, inerrância e infalibilidade. Neste, dando prosseguimento à nossa série de estudos sobre Doutrinas Bíblicas, GOTEJANDO OS DITOS DO SENHOR, queremos refletir sobre como a Bíblia veio a surgir como tal, transformando no cânon cristão, suas divisões internas – intertestamentárias – e alguns enfoques sobre os livros apócrifos ou deuterocanônicos.

1. O Cânon do Antigo Testamento

“Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo: desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada responsável por tudo isso” (Lc 11.50-51)

O termo “cânon” deriva do grego kanõn, que designava uma medida de carpinteiro (talvez derivado do hebraico qãneh, que se refere a uma vara de medir, de seis côvados de comprimento), e tem sido usada para identificar aqueles livros considerados espiritualmente superlativos, em comparação com os quais os outros eram medidos e achados de valor secundário no uso geral da igreja. Para os cristãos primitivos e para (posso afirmar) o protestantismo reformado e conservador, esta “vara de medir” refere-se a um grupo de livros reconhecidos como regra de fé e prática.

Durante mais de mil anos de história dos judeus, eles praticavam sua religião, sem ver a necessidade de um cânon padrão. Com o tempo, porém, acreditamos que por providência divina, eles foram se preocupando com o assunto. E durante o período Inter bíblico ou intertestamentário[1], surgiram diversos livros, considerados apócrifos ou pseudoepígrafos que se juntaram aos demais considerados canônicos ou sagrados. Uma tradução dos livros judaicos para o grego feita nesta época é a Septuaginta ou versão dos Setenta (LXX), ocorrida possivelmente, durante o reinado de Ptolomeu Filadelfo (285-245 a.C.), para a sua biblioteca em Alexandria, no Egito.  Esta versão recebeu este nome por causa da quantidade de tradutores, um tanto inexata, que era de setenta e dois anciãos, e foi feita também para atender a conveniência de alguns judeus de fala grega, que por causa da influência do helenismo[2] desconheciam sua própria língua.

Precisamos considerar que a versão dos LXX, embora tenha sido popularizada com a expansão do helenismo e da língua grega, seus tradutores não se limitaram a traduzir apenas os livros conside­rados canônicos pelos judeus. Eles traduziram os demais livros judaicos disponíveis. O trabalho dos massoretas[3] (transmissores), substitutos dos antigos escribas (os Sopherim), foi importante para fazer a seleção dos livros, considerados canônicos dos demais, além de trabalhar para a vocalização e acentuação dos textos. Assim, um Texto Massorético (TM) veio a ser o texto padrão (Tenah) utilizado como cânon, por volta do 1º século a.C., contendo 22 livros, e utilizado nos tempos de Jesus. Archer Jr.[4], fala desta uma divisão do cânon hebraico de edição massorética, da seguinte forma:

  • Os livros da Lei (Pentateuco) ou Torá: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio – 5 livros.
  • Os Profetas(Neviim):
  • Anteriores: Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis – 6 livros.
  • Posteriores – Maiores (Isaías, Jeremias, Ezequiel) e os doze Profetas Menores – 15 livros.
  • Os Escritos(Kêtuvim):
  • Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó, os Rolos ou Megilloth (lidos no ano litúrgico) que são Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester – 8 livros.
  • Históricos: Daniel, Esdras, Neemias e 1 e 2 Crônicas – 5 livros.

Fiz questão de somar a quantidade de cada divisão interna do texto acima, totalizando 39 livros, pois esta corresponde ao atual Antigo Testamento (Veja as divisões abaixo) da Bíblia utilizada pela maioria dos protestantes, embora a ordem seja diferente. Daniel, por exemplo, está, em nossa Bíblia, entre os Profetas Maiores, enquanto para os judeus, ele está entre os históricos. Há ainda outras considerações, mas apenas para nota, nosso último livro do Antigo Testamento é o do profeta menor, chamado Malaquias, enquanto o do atual cânon judaico é 2Crônicas. Na verdade, “… a Bíblia protestante atual em nossa língua segue a ordem da Vulgata Latina [da qual falaremos mais à frente] e o conteúdo da Bíblia Hebraica” (J.R. MICRAY. In: ELWELL: 1990, Vol. I, p. 178). (Veja o vídeo de Yago Martins no final, quando ele cita Josefo fazendo referência aos 22 livros divinos dos judeus “considerados divinos”).

Destaco também aqui o texto de Lucas Banzoli[5], no qual ele faz referência às palavras de Jesus, que mencionei como cabeçalho deste capítulo: “Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo: desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada responsável por tudo isso” (Lc 11.50-51). Banzoli considera este período citado por Jesus, os dois extremos entre Abel (primeiro mártir da história humana) até Zacarias, o último mártir (não o último livro, pois em nossa Bíblia, o último livro é Malaquias e na Bíblia Hebraica, o último é 2Crônicas, como já vimos) do Antigo Testamento, como sendo o cânon que Jesus aprovou em seus dias. Nesse caso, especifica Banzoli, Jesus estava mostrando uma continuidade temporal, de Abel até Zacarias ou de A à Z, como começo e final, respectivamente, do cânon de seu povo, os judeus. “Uma vez que este Zacarias foi o último profeta canônico que sofreu martírio, a sentença ‘de Abel até Zacarias’ faz todo o sentido, pois compreende todo o período de revelação do Antigo Testamento considerando a história dos mártires, a qual começa em Abel e termina em Zacarias.(BANZOLI).

Desta forma, o Texto Massorético (TM) da Septuaginta (ou de Abel a Zacarias), ou seja, o texto tradicional do povo judeu, sem a inserção de outros livros, considerados apócrifos, era o cânon utilizado por Jesus e seus apóstolos, e foi também dos cristãos primitivos e corresponde ao Antigo Testamento da Bíblia Protestante.

2. O cânon do Novo Testamento

“Para ele [Atanásio], como para Clemente, a regra da fé e o conteúdo da Escritura eram idênticos. A tradição, segundo Atanásio, só tem autoridade quando está de acordo com a Escritura. Como ele faz ver claramente em sua carta pascoal de 367, o cânone neotestamentário é definitivo”.[6]

Em relação ao Novo Testamento, este é parte exclusiva da Bíblia cristã, não utilizada pelos judeus não cristãos, por razões óbvias, como o fato de eles não aceitarem a pessoa de Jesus como o Cristo ou Messias. E foi, ademais, o resultado de muita discussão para as escolhas dos livros que comporiam esta parte das Escrituras, no decorrer do segundo século, após a morte de todos os apóstolos. Em meados do século II, os mestres cristãos decidiram incluir no cânon neotestamentário os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), chamados por Eusébio (3, XXV), de “a santa tétrade dos Evangelhos”, dentre muitos outros, como os Evangelhos de Tomé, Pedro e Matias, por exemplo. Depois, juntaram-se aos Evangelhos, o livro de Atos e as epístolas paulinas. Estas foram as primeiras a conseguir aceitação geral. “Outros livros, tais como o Apocalipse, a Terceira Epístola de João, e a Epístola de Judas, demoraram mais tempo em ser universalmente aceitos.” (GONZÁLEZ: 1995a, p. 102).

Mas não havia ainda um cânon padrão para o Novo Testamento. Este trabalho tornou-se necessário, principalmente depois do surgimento de heresias como resultado de um sincretismo religioso que veio a preocupar os pais da igreja[7] que buscaram uma doutrina única para servir de base escrita e fidedigna para a fé cristã.

A escolha dos atuais 27 livros “genuínos” ou “canônicos”, bem como seu veredicto como parte do cânon, não foi obra apenas dos homens piedosos cristãos daquela época, mas foi direcionada pelo Espírito Santo. Já pelos fins do século II, estes livros já estavam definidos, mas as discussões acerca de sua canonicidade continuaram. “Essas discussões, sem dar-se por encerradas definitivamente, foram concluídas, a grosso modo [negrito no original], no Oriente (com exceção da Síria) e no Ocidente, pelo fim do século IV. As duas decisivas datas são, para o Oriente, a 39ª carta pascal de Atanásio, em 367, e para o Ocidente, o Sínodo de Roma de 382, e os Concílios africanos de Hipona (393) e de Cartago (367)” (CULLMAN: 1984, p. 117).

Portanto, no Concílio de Cartago (367) ficou definida a lista dos 27 livros que adotamos atualmente, e compõem o cânon do Novo Testamento que é aceito pelos três principais segmentos do Cristianismo: Igreja Católica, Igreja Ortodoxa Grega e pelos protestantes. Mas a decisão indiscutível para se usar este cânon com o nome de Escrituras divinas a serem lidas nas igrejas, ocorreu em 397, no outro Concílio de Cartago.

3. Divisões da Bíblia e outras considerações

“A união do Novo Testamento ao Antigo Testamento em uma mesma ‘Bíblia” significa por uma parte que se realizou, realiza-se e se realizará um plano divino sobre uma linha histórica particular, escolhida por Deus e que se desenrola, desde as origens até o fim, dentro da história geral” (CULMANN: 1984, p. 120).

Queremos destacar aqui as divisões do Antigo e Novo Testamentos e fazer algumas observações sobre os apócrifos constantes na Bíblia utilizada pela Igreja Católica.

a) Divisões do Antigo Testamento[8]:

Depois de vermos que a Bíblia Hebraica possui 22 livros e que os mesmos correspondem ao Antigo Testamento da Bíblia utilizada pelos cristãos protestantes, num total de 39 livros, vejamos como se dá em geral sua divisão:

  • Lei ou Pentateuco: Gênesis (Gn); Êxodo (Ex) Levítico (Lv); Números (Nm) e Deuteronômio (Dt) – 5 livros.
  • Históricos; Josué (Js); Juízes (Jz); Rute (Rt); 1 e 2 Samuel (1Sm, 2Sm); 1 e 2 Reis (1Re, 2Re); 1 e 2 Crônicas (1Cr, 2Cr); Esdras (Ed), Neemias (Ne) e Ester (Et) – 12 livros.
  • Poéticos e Sapienciais: Jó (Jó); Salmos (Sl); Provérbios (Pv); Eclesiastes (Ec); Cantares de Salomão (Ct) e Lamentações de Jeremias[9] (Lm) – 6 livros.
  • Proféticos:
  • Profetas Maiores[10]: Isaías (Is); Jeremias (Jr); Ezequiel (Ez) e Daniel (Dn) – 4 livros.
  • Profetas menores: Oseias (Os); Joel (Jl); Amós (Am); Obadias (Ob); Jonas (Jn); Miqueias (Mq); Naum (Na); Habacuque (Hc); Sofonias (Sf); Ageu (Ag); Zacarias (Zc) e Malaquias (Ml) – 12 livros.

b) Divisões do Novo Testamento:

As divisões dos 27 livros do Novo Testamento podem ser (sugestão minha) da seguinte ordem:

  • Evangelhos: Mateus (Mt); Marcos (Mc); Lucas (Lc) e João (Jo) – 4 livros.
  • Histórico: Atos dos Apóstolos (At) – 1 livro apenas.
  • Epístolas ou Cartas:
  • => Paulinas: Romanos (Rm); 1 e 2 Coríntios (1Co, 2Co); Gálatas (Gl); Efésios (Ef); Filipenses (Fp); Colossenses (Cl); 1 e 2 Tessalonicenses (1Ts, 2Ts); 1 e 2 Timóteo (1Tm, 2Tm); Tito (Tt); Filemon (Fm) – 13 livros (epístolas).
  • => Gerais: Hebreus (Hb); Tiago (Tg); 1 e 2 Pedro (1Pe, 2Pe); 1, 2 e 3 João (1Jo, 2Jo, 3Jo) e Judas (Jd) – 8 livros (epístolas).
  • Profético: Apocalipse (Ap) – 1 livro apenas.

c) Apócrifos ou deuterocanônicos e a Vulgata

Já vimos acima que durante o Período Inter bíblico surgiram diversos livros e textos que não foram incluídos na Bíblia Hebraica. São os chamados apócrifos (gr. Apokrypha = “coisas ocultas” ou “escritos fora do cânon”). Estamos nos referindo, obviamente, ao Antigo Testamento da Bíblia protestante. “Cerca de treze livros perfazem os apócrifos: 3 e 4 Esdras, Tobias, Judite, o Restante de Ester, a Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (que também é chamado a Sabedoria de Jesus, Filho de Siraque), Baruque, a Carta de Jeremias, os Acréscimos a Daniel, a Oração de Manassés e  1 e 2 Macabeus” (D. H. WALLACE. In.: ELWELL: 1990. Vol. I, p. 96).

No final do século IV e início do século V, Jerônimo (347-419) fez uma tradução da Bíblia Hebraica para o latim, que ficou conhecida como Vulgata (divulgada ou popular). Na sua Bíblia, Jerônimo conserva parte dos livros dos apócrifos citados acima, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus bem Sirach), Baruque, 1 e 2 Macabeus (7 livros), além de acréscimos nos livros Ester e Daniel. Mas é importante destacar que Jerônimo faz questão de escrever diversas notas sobre estes livros e acréscimos. Só para citar um exemplo, depois de Ester 10.3[11], há uma destas notas que diz: “Traduzi com toda a fidelidade o que se acha no texto hebraico. As passagens que seguem [Ester 10.4 a seguir], encontrei-as apenas na edição ‘vulgata’ (isto é, ‘divulgada’) em língua e caracteres gregos e as coloquei aqui no fim do livro, marcados – como é nosso costume – com o óbelo, quero dizer, o sinal distintivo à margem”. Segundo os editores da referida Bíblia, “… a edição ‘vulgata’ de que fala São Jerônimo, é a antiga versão itálica, usual naquele tempo”. Jerônimo considera estes livros acrescidos em posição secundária aos demais. E ao que parece esta atitude foi uma recomendação de Agostinho de Hipona, com o qual Jerônimo teve várias divergências. GONZÁLEZ (1995b, pp. 160-161) afirma sobre uma carta de Agostinho destinada a Jerônimo sugerindo ele acrescentar “… notas que mostrem claramente em que pontos tua versão [a Vulgata de Jerônimo] difere da Septuaginta, cuja autoridade é inegável… Além disso não vejo como, depois de tanto tempo, alguém possa descobrir nos manuscritos hebraicos alguma coisa que tantos tradutores e bons conhecedores da língua hebraica não tenham visto antes”.

Bem, no Concílio de Trento, no século XVI, a Igreja Católica oficializou esta versão da Bíblia de Jerônimo, diferentemente do ramo protestante. E estes livros e acréscimos passaram a ser chamados pelos católicos de “deuterocanônicos.”, isto é, uma espécie de segundo cânon ao lado dos demais livros, enquanto os protestantes os colocam no mesmo nível dos demais apócrifos.

Considerações finais:

Vimos como os judeus viveram por muito tempo sem um texto padrão que lhes servissem como um cânon. Mas com o tempo, houve a necessidade deste trabalho o que foi possível até por volta do século I a.C. aproximadamente. E como os cristãos são, na sua origem, uma comunidade que de certa maneira deu continuidade ao trabalho dos judeus em um novo momento – Nova Aliança –, o cânon dos judeus passou a ser também o cânon dos cristãos.

Ao texto judaico, Antigo Testamento foi acrescentado outro, pelos cristãos, que veio a ser chamado Novo Testamento, que também contou com providência divina na história de sua formação e formatação. Bom seria destacar aqui ainda, como a Bíblia Sagrada em seu todo foi dividida em capítulos e versículos e como chegou até nós o primeiro volume em Português, mas estes são assuntos que poderão ocupar outro ou outros capítulos…

Sugiro, para finalizar, o acompanhamento de todo o processo de formação do cânon, em vídeo de Yago Martins a seguir:

Referências bibliográficas:

  • ARCHER Jr., Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 3ª edição, 1984.
  • BANZOLI, Lucas. “De Abel até Zacarias”: O cânon bíblico de Jesus. Disponível em: <http://www.lucasbanzoli.com/2018/07/de-abel-ate-zacarias-o-canon-biblico-de.html>. Acesso em: 21/03/2019.
  • CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica: os primeiros quatro séculos da Igreja Cristã. Rio de Janeiro, 1999.
  • CULLMAN, Oscar. A formação do Novo Testamento. São Leopoldo (RS). Sinodal, 1984.
  • DOUGLAS, J. D. (Editor Organizador). O Novo Dicionário da Bíblia, Volumes I, II e III. São Paulo: Vida Nova, 1979.
  • ELWELL, Walter. A. (Editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I, II e III. São Paulo: Vida Nova, 1990.
  • GONZÁLEZ, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo, Vol. 1 – A era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995a.
  • _________, Justo L. E até aos confins da Terra: uma história ilustrada do Cristianismo, Vol. 2 – A era dos gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1995b.
  • HÄGGLUND, Bengt. História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia: 2003.

Notas:

  • [1] Inter bíblico é o nome que se dá ao período que vai de Malaquias, último profeta do Antigo Testamento (segundo nossas versões) até João Batista, no Novo Testamento. Foi um período de aproximadamente 400 anos, em que os judeus eram dominados primeiramente pelos persas e depois pelos romanos e sob influência da filosofia e língua gregas.
  • [2] O Helenismo foi a junção da cultura grega com outras do mundo oriental (mesopotâmica, egípcia, persas…), propagada por Alexandre, o Grande, portanto, durante o período Inter bíblico, e que influenciou muito o povo judeu e todo o mundo romano, ao mesmo tempo em que foi útil para a propagação do cristianismo.
  • [3]Os massoretas eram os estudiosos que deram ao texto do Antigo Testamento sua forma final, entre 500 e 950 d.C. Receberam este nome porque conservaram por escrito a tradição oral (ou ‘massora’) no que diz respeito a vocalização e acentuação certa do texto, e o número de ocorrências de palavras raras e ortografias pouco comuns. Receberam o texto consoantal [sic] sem vocalização, da parte dos Sopherim, e intercalaram os pontos vocálicos que deram a cada palavra sua pronúncia e forma gramatical exatas” (ARCHER Jr. Op. Cit., p. 65).
  • [4] ARCHER: 1984, pp. 70-71.
  • [5] BANZOLI, Lucas. “De Abel até Zacarias”: O cânon bíblico de Jesus. Disponível em: <http://www.lucasbanzoli.com/2018/07/de-abel-ate-zacarias-o-canon-biblico-de.html>. Banzoli destaca as divergências entre os teólogos em relação ao Zacarias mencionado nas palavras de Jesus, mas ele defende que o referido Zacarias era o filho de Baraquias, conforme Mateus 23.35. Embora na ordem dos livros este Zacarias foi o autor do penúltimo livro, conforme costa em nossa Bíblia, mas ele foi o último mártir, para efeito de consideração do cânon do Antigo Testamento. O Novo Dicionário da Bíblia (Vide Bibliografia) comenta, sobre o que alguns pensam, que nesta passagem bíblica “… o Senhor Jesus se referia ao martírio de Zacarias, filho de Joiada, em 2Cr 20-22, e que o equívoco a respeito do nome do pai de Zacarias seria ou devido a erro do evangelista [Mateus], ou então, visto que não ocorre nos melhores manuscritos do Evangelho de Lucas, que as palavras ‘filho de Baraquias’ seriam uma adição do copista. Visto que o livro das Crônicas é o último livro da Bíblia hebraica, o aparecimento dos nomes de Abel e Zacarias, nesse versículo do Novo Testamento, seria o equivalente à nossa frase ‘de Gênesis ao Apocalipse’. Mas pode ser, como afirma Banzoli: de “A” (de Abel), a “Z” (de Zacarias).
  • [6] In: HÄGGLUND (Op. Cit., p. 67).
  • [7]Quando falamos nos Pais Apostólicos [ou Pais da Igreja], geralmente nos referimos a alguns autores cristãos do fim do primeiro século e do início do segundo, cujos escritos chegaram até nós. Estes escritos – em sua grande maioria de natureza incidental (cartas, homilias) – são de valor para nós porque, ao lado do Novo Testamento, são as fontes mais antigas que possuímos como testemunho da fé cristã” (HÄGGLUND: 2003, p. 13).
  • [8] A presente divisão é adaptada da Bíblia Sagrada com referências e anotações de Dr. C. I. Scofield, edição de 1987. Além das divisões com os nomes dos livros, achei importante descrever também a forma de abreviações normalmente aceitas e a quantidade de livros de cada divisão.
  • [9] Scofield coloca Lamentações entre os profetas. Achei melhor, como aprendi em alguma ocasião, coloca-lo entre os poéticos, embora seja de autoria de um profeta: Jeremias.
  • [10] Aqui também o Dr. Scofield utilizou uma contagem diferente: ele não separa profetas maiores de menores, e sim todos juntos: profecias.
  • [11] Bíblia Sagrada (Centro Católico), 25ªedição.  São Paulo, Ed Ave Maria, 1978.

 

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As Escrituras (1): a verdade revelada e inspirada por Deus

“Buscai no livro do Senhor, e lede; nenhuma destas coisas faltará…” (Is 34.16).

“Toda a Escritura divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16).

 

“Temos visível evidência que a Bíblia é uma revelação de Deus. E nos é dito na Bíblia que Deus deu a revelação por inspiração. Se a Bíblia é a revelação de Deus, justo é deixá-la falar por si mesma sobre a sua própria natureza.[1]

 

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Ouça, após a leitura, “Bíblia Sagrada”, com Luiz de Carvalho:

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Com este artigo (post), estou iniciando uma série de breves estudos sobre doutrinas bíblicas, do ponto de vista, obviamente, de um protestantismo conservador, num plano chamado GOTEJANDO OS DITOS DO SENHOR, baseado em Deuteronômio 32.2, onde lemos: “Goteje a minha doutrina como a chuva, destile o meu dito como o orvalho, como chuvisco sobre a erva e como gotas de água sobre a relva”. Uma das doutrinas que queremos destacar é acerca das Escrituras, e faremos isto em dois capítulos, neste, a partir de interpretações de textos que as próprias Escrituras falam de si mesmas, em relação, principalmente, ao Antigo Testamento, e outra, com destaque à formação histórica e composição do cânon utilizado pelos cristãos.

Atribuímos o significado às Escrituras (do grego, graphai) ou Escrituras Sagradas, o mesmo que é aplicado à palavra “bíblia” (livros), plural do termo grego biblion, “rolo” ou “livro”, que originalmente veio de papiro, uma planta aquática, cuja casca interna era secada para se tornar uma matéria e escrita de uso generalizado no mundo antigo. Mas ao mesmo tempo, tornou-se o Livro por excelência, o registro reconhecido da revelação divina em uma coleção de textos (livros) considerados pelos judeus e cristãos como divinamente inspirados.

  1. As Escrituras: revelação de Deus ao homem

“Que é a verdade?”, perguntou Pilatos a Jesus (Jo 18.38). Há possibilidade de se buscar esta virtude? Se não houvesse um meio de chegar ao conhecimento de Deus, do homem e do mundo, Pilatos então teria razão. Mas há, e está em forma de livro, as Sagradas Escrituras, que é a verdade revelada de Deus ao homem. Ela é a revelação escrita do único Deus verdadeiro, visando a salvação do homem, e que demonstra sua autoridade divina por meio de muitas provas infalíveis. “O mundo pela sabedoria (filosofia) não conheceu a Deus” (1Co 1.21). As verdades que informam o homem como passar da terra para o céu devem ser enviadas do céu à terra. Em outras palavras, o homem precisa de uma revelação. Há outra revelação que o homem pode alcançá-la por meio da razão, que é a natureza. Mas é a Palavra de Deus, a única capaz de “… penetrar até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4.12). Como disse Kant, um dos maiores pensadores de todos os tempos, acerca dos cristãos: “fazem bem em basear a sua paz e piedade nos Evangelhos porque somente neles está a fonte das verdades profundas e espirituais, depois de a razão haver explorado em vão todas as possibilidades.”

Para que a revelação de Deus passasse de pai para filho e se perpetuasse de geração para geração, precisaria estar escrita, em forma de livro. E “… tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” (Rm 15.4). A memória e a tradição podem falhar, por isso, acreditamos, Deus agiu com a máxima sabedoria e também dum modo normal dando ao homem a sua revelação. O Deus dos hebreus é a autoridade máxima a ser evocada quando se trata de sua Palavra. É nEle que se contempla toda a autoridade em última análise. E não somente sua autoridade, mas Ele próprio tornou-se conhecido na sua auto revelação escrita, a Bíblia Sagrada, que se tornou uma coletânea autorizada da sua revelação, em forma de livro, para servir de regra de fé e prática ao seu povo.

  1. A inspiração das Escrituras

Os registros históricos acerca do povo de Israel, dos milagres e ensinamentos de Jesus, do testemunho dos primeiros cristãos e, consequentemente, da história do Cristianismo demonstram a inspiração da Bíblia e seus efeitos benéficos sobre os que aceitam e vivem seus ensinamentos. Ela é “divinamente inspirada” (2Tm 3.16), literalmente, dada pelo sopro de Deus, para que o “homem de Deus”, “… seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm 3.17). O apóstolo Pedro afirma também que “… a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21).

A inspiração pode ser definida como “a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre a mente humana, pela qual os profetas, apóstolos e escritores sacros foram habilitados para exporem a verdade divina sem nenhuma mistura de erro” (In: PEARLMAN: 1977, p. 21). E também como “… o poder inexplicável que o Espírito Divino exerce sobre os autores das Escrituras, em guiá-los até mesmo no emprego correto das palavras e em preservá-los de todo erro, bem como de qualquer omissão” (Idem, p. 21).

A palavra Escritura, como aparece em 2Timóteo 3.16 e em outros textos, refere-se ao Antigo Testamento e é entendida como a Palavra de Deus. É como se o próprio Deus houvesse falado cada palavra[2] do livro, tornando-se o resultado da divina inspiração espiritual. Podemos dizer que a declaração de Pedro (2Pe 1.21) revela que o Espírito Santo estava presente duma maneira especial e milagrosa sobre os escritores das Escrituras, revelando-lhes as verdades que antes não conheciam e guiando-os também no registro dessas verdades e dos acontecimentos, dos quais eram testemunhas oculares, de maneira que as pudessem apresentar com exatidão substancial ao conhecimento de outrem.

A inspiração, ao invés de ser tratada como um assunto bastante complexo, conforme tem sido discutido nos vários credos cristãos através da história, como um assunto cheio de enigmas teológicos e tumultuado por definições obscuras etc., na verdade, ela pode ser entendida de forma bastante simples, a partir de reflexões de textos como os expostos acima. Mas com o passar dos tempos, a igreja teve de enfrentar doutrinas e opiniões erradas e defeituosas, por isso, doutores cristãos tiveram que definir e detalhar a doutrina da inspiração, tornando-a bastante complexa. Mas em resumo a inspiração das Escrituras pode ser definida como[3]:

  • Divina e não apenas humana – Diferentemente do que se diz acerca de grandes sábios, como Platão, Sócrates, Aristóteles, Browning, Shakespeare e outros gênios do mundo literário, filosófico e religioso, que eram especiais, mas humanos, a inspiração da Bíblia tem um caráter absoluto e sobrenatural que demonstram o elemento divino e espiritual em sua mensagem.
  • Única e não comum – Alguns confundem a inspiração com o esclarecimento e mantêm a opinião de que esse esclarecimento espiritual seja a explicação adequada sobre a origem da Bíblia. Mas este esclarecimento não é o mesmo que inspiração. Conforme depreendemos, por exemplo, de 1Pedro 1.10-12 (“Da qual salvação [em Cristo e por Ele] inquiriram e trataram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos foram anunciadas por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho; para as quais coisas os anjos desejam bem atentar”). Por este texto, entendemos que os profetas recebiam verdades por inspiração e lhes era negado esclarecimento necessário à sua compreensão dessas mesmas verdades. O Espírito Santo inspirou-lhes as palavras, mas não achou por bem conceder-lhes a compreensão do seu significado. Neste caso, o texto sagrado está acima do entendimento humano e os profetas ou escritores apenas criam na mensagem que recebiam de Deus.
  • Viva e não mecânica – A inspiração não significa ditado, no sentido de que os escritores fossem passivos. A própria palavra inspiração exclui o sentido de ação meramente mecânica, e a ação mecânica exclui qualquer sentido de inspiração. O Divino Espírito usou as suas faculdades mentais produzindo desta maneira uma mensagem perfeitamente divina, e que, ao mesmo tempo, conservasse os traços da personalidade do autor. Embora seja a Palavra do Senhor, é ao mesmo tempo, em certo sentido, a palavra de Moisés, ou de Paulo. “Deus nada fez a não ser pelo homem; o homem nada fez, a não ser por Deus. É Deus quem fala no homem, é Deus quem fala pelo homem, é Deus quem fala como homem, é Deus quem fala a favor do homem.” Se o entrosamento de mente e corpo já é um mistério demasiado grande, mesmo para o homem mais sábio; quanto mais não é o entrosamento do Espírito de Deus e o espírito do homem!
  • Completa e não somente parcial – Segundo a teoria da inspiração parcial, os escritores seriam preservados do erro em questões necessárias à salvação dos homens, mas não em outras matérias como sejam: história, ciência, cronologia e outras semelhantes. Portanto, segundo essa opinião, seria mais correto dizer que “A Bíblia contém a Palavra, em lugar de dizer que é a Palavra de Deus“. Essa teoria nos submergiria num pântano de incertezas, pois quem pode, sem equívoco, julgar o que é e o que não é essencial à salvação? Onde está a autoridade infalível que decida qual parte é a Palavra de Deus e qual não o é? E se a história da Bíblia é falha, então a doutrina também o é, porque a doutrina bíblica se baseia na história bíblica. Finalmente, as Escrituras mesmas reivindicam para si a inspiração plenária. Cristo e seus apóstolos aplicaram o termo “Palavra de Deus” a todo o Antigo Testamento.
  • Verbal e não apenas de conceitos – Segundo outra teoria, Deus inspirou os pensamentos, mas não as palavras dos escritores. Isto é, Deus inspirou os homens, e deixou ao critério deles a seleção das palavras e das expressões. Mas a ênfase bíblica não está nos homens inspirados, mas sim nas palavras inspiradas. “Havendo antigamente falado aos pais pelos profetas” (Hb. 1.1). “Homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.21). Ainda mais, é difícil separar a palavra do pensamento; um pensamento é uma palavra antes de ser ela proferida. (“não comeceis a dizer em vossos corações“; “o tolo disse em seu coração“); uma palavra é um pensamento ao qual se deu expressão. Pensamentos divinamente inspirados naturalmente teriam sua expressão em palavras divinamente inspiradas. Paulo nos fala de “palavras ensinadas pelo Espírito” (1Co 2.13). Finalmente, uma simples palavra é citada como sendo o fundamento de doutrinas básicas (Jo 35; Mt 22.42-45; Gl 3.16; Hb. 12.26, 27).
  1. Inerrância e infalibilidade das Escrituras[4]:

A questão da autoridade é central para qualquer teologia e, no caso da teologia protestante, a Bíblia tem ocupado um papel importante na definição desta autoridade. A Reforma (século XVI) passou para seus herdeiros a crença de que a derradeira autoridade não se acha na razão nem no papa, mas nas Escrituras inspiradas. Por isso, dentro do protestantismo conservador, a questão da inerrância tem sido muito debatida.

As duas palavras mais comumente usadas para expressar a natureza da autoridade bíblica são “inerrância” e “infalível”. Embora estes termos sejam aproximadamente sinônimos com base na etimologia, são usados de modo diferente. Na teologia católico-romana, “inerrância” é aplicado à Bíblia, e “infalível” à igreja, especialmente à função do papa e do magisterium[5]. Visto que os protestantes rejeitam a infalibilidade tanto do papa como da igreja, o termo tem sido aplicado cada vez mais às Escrituras.

A inerrância é o ponto de vista de que, quando todos os fatos forem conhecidos, demonstrarão que a Bíblia, nos seus autógrafos originais e corretamente interpretada, é inteiramente verdadeira, e nunca falsa, em tudo quanto afirma, quer no tocante à doutrina e à ética, quer no tocante às ciências sociais, físicas ou biológicas.

Mas há várias considerações a serem feitas em relação à inerrância e infalibilidade no campo teológico. Destaco aqui apenas os argumentos bíblicos em prol destes pontos:

  • A Bíblia ensina sua própria inspiração, e isto requer inerrância (2Tm 3.16 – “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça”. Ou seja, a Bíblia dá testemunho de si mesma.
  • A Bíblia ensina a Sua própria autoridade, e isto também requer inerrância (Mt 5.17-20 – aqui Jesus fala sobre o mínimo pormenor (“… nem um jota ou um til se omitirá…”) da lei que será cumprido); Jo 10.34-35 – Jesus diz que “… a Escrita não pode falhar).
  • Israel, povo do Antigo Testamento, tinha critérios claros para distinguir a falsa da verdadeira profecia e o falso do verdadeiro profeta (Dt 13.1-5, 18.20-22). A veracidade total e absoluta era uma da marca da mensagem divina. Tanto o profeta mensageiro quanto sua mensagem escrita eram instrumentos da comunicação divina e dignos de crédito.
  • As Escrituras usam, elas próprias (o seu todo), para apoiar sua inerrância. Às vezes, um argumento inteiro depende de uma única palavra. Por exemplo, em João 10.34, a palavra deuses foi extraída de Salmo 82.6 e seu sentido é encontrado pelo entendimento da leitura “do todo” da Bíblia.
  • As Escrituras confirmam a inerrância em relação ao caráter de Deus. Ele não mente (Nm 23.19, 1Sm15.29, Tt 1.2, Hb 6.18), portanto, a Bíblia que vem da parte de Deus para o homem, também não mente, ou seja, ela é inerrante e infalível.

Outras observações que destacamos ainda são:

  • A expressão “e Deus disse”, ou equivalente, é usada mais de 2.600 vezes no Antigo Testamento, e confirma o testemunho e autoridade da Bíblia.
  • Jesus viveu em harmonia com os ensinos do Antigo Testamento e aprovou a sua veracidade e autoridade, como encontramos em diversos textos. Quero fazer referência apenas a Lucas 4.21 (“Então, começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos”); Mateus 22.29 (“… Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus”); João 10.35 (“… a quem a palavra de Deus foi dirigida… e a Escritura não pode ser anulada…”); Lucas 24.25,27 (“… tudo que os profetas vos disseram! (…) E, começando por Moisés e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”); Mateus 26.54 (“Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que assim convém que aconteça?”)…
  • Os apóstolos e escritores do Novo Testamento também aprovaram as Escrituras (Antigo Testamento). Citamos, dentre os diversos textos apenas: Lucas 3.4 (“Segundo o que está escrito no livro das palavras do profeta Isaías…”); Romanos 3.2 (“… as palavras de Deus lhe foram confiadas [aos judeus]; Romanos 15.4 e 2 Timóteo 3.16 (já citados acima); Hebreus 1.1 (“Havendo Deus, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho”); 2 Pedro 1.21 (já destacado); Atos 1.16 (“Varões irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi…”); Atos 3.18 (“Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado: que o Cristo havia de padecer”)…

 Quanto à inspiração e escolha dos Evangelhos e dos demais livros que compõem o Novo Testamento falaremos em outro momento. Por ora, concluindo esta primeira parte de nosso estudo sobre as Escrituras, apenas recapitulamos sobre a revelação como o ato de Deus pelo qual ele dá a conhecer ao homem, pois este, por si mesmo não podia saber, enquanto por inspiração entendemos que o escritor sagrado é preservado de qualquer erro ao escrever essa revelação. Daí, afirmarmos sobre a inerrância e infalibilidade das Escrituras, hoje composta de Antigo e Novo Testamento, deixadas para ensino e como única regra de fé e prática dos cristãos. Qual foi o processo para se chegar à composição dos Testamentos, a escolha dos livros e sua compilação? É o que pretendemos estudar e destacar no próximo capítulo (post).

 

Referências bibliográficas:

  • ARCHER Jr. Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 1984 (3ª Ed.).
  • DOUGLAS, J. D. O Novo dicionário da Bíblia. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1979 (3ª Ed.).
  • ELWELL, Walter a. (Editor). Enciclopédia Histórico-teológica da Igreja Cristã. Vol. I. São Paulo: Vida Nova: 1888 (1ª Ed.).
  • PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1977(6ª Ed.).

 

Notas:

  • [1] Imagem e texto disponíveis em: <https://www.institutogamaliel.org/teologia-a-inspiracao-da-biblia/>. Acesso em 11/03/2019.
  • [2] Cada palavra que compõe o texto sagrado é produto de inspiração divina? Não queremos explorar aqui esta questão, apenas fazer algumas observações. A expressão do Dr. William Evans, citada por Pearlman “… é como se o próprio Deus houvesse falado cada palavra do livro” (Op. Cit, p. 21) é uma força de expressão para enfatizar o papel do escritor frente à inspiração do texto que lhe foi dado e a escolha das palavras que melhor expressam a transmissão da sua mensagem. Na verdade, entendemos que Deus inspirou seus servos profetas e/ou autores em geral, mas eles transmitiram a mensagem recebida de Deus em suas próprias palavras, com suas figuras de linguagem, símbolos etc., usando seu estilo próprio, sua influência cultural. Às vezes até indoutos (boieiros, pescadores, agricultores…) foram portadores da mensagem de Deus. Se não fosse assim, as diversas versões da Bíblia estariam erradas – embora precisa ter cautela nesta questão também mas isto é papel dos teólogos –. Mas em geral, as versões atualizadas da Bíblia, com palavras mais modernas e compreensíveis ajudam o leitor a entender melhor o texto inspirado, mas que na sua grafia original estava muito distante e diferente de cada língua e cultura.
  • [3] Cf. PEARLMAN: 1977 (q.v.), pp. 21 a 24 – texto adaptado.
  • [4] FEINBERG, P.D. Inerrância e infalibilidade da Bíblia (adaptado). In: ELWELL: 1988, pp. 179 a 184.
  • [5] Destacamos esta posição da Igreja Católica, na 5ª parte de nosso texto “O depósito da fé: cânon, sucessão apostólica, tradição e outras considerações” (In: <http://amorim.pro.br/?p=1523>), onde destacamos o que o COMPÊNDIO do Catecismo da Igreja Católica afirma, em defesa do chamado Depósito da fé: “O depósito da fé é confiado pelos Apóstolos a toda a Igreja. Todo o povo de Deus, mediante o sentido sobrenatural da fé, conduzido pelo Espírito Santo, e guiado pelo Magistério da Igreja, acolhe a Revelação divina, compreende-a cada vez mais e aplica-a à vida”.

 

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Culto e Cultura: a participação humana na adoração a Deus

Já dissemos que cultura é toda criação material ou imaterial do homem que é socializada pelos membros de determinada sociedade, tribo, nação etc. Ela é também o modo pelo qual um grupo humano responde e se relacionada com seu meio ambiente. Também vimos que faz parte do propósito de Deus a diversidade cultural. Depois destacamos como deve ser a relação entre a missão cristã e a diversidade cultural, e neste post, queremos traçar alguns comentários sobre o culto cristão, como uma celebração sagrada e secular ao mesmo tempo pois envolve a participação do homem que aceita o cristianismo em toda parte da terra e em meio à diversidade cultural e suas celebrações a Deus.

1. O culto: uma celebração antropo-teológica

Um dicionário[1] muito antigo que tenho destaca as palavras cultura, cultivo, culto e suas derivações como sendo de uma mesma raiz etimológica latina. A palavra cultura com o sentido tanto como o “efeito de cultivar” a terra, quanto à ideia de “instrução”, ou de uma pessoa que tem “cultura”, neste ultimo caso, uma pessoa “instruída” ou “civilizada”; e a palavra culto, como “… adoração ou homenagem à divindade em qualquer de suas formas, e em qualquer religião” (CUNHA: 1982, p. 233).  E como sabemos que a religiosidade e a consequente crença em seu deus ou deuses são parte da cultura imaterial dos povos, não há dúvida de que a forma de culto destes povos reflete a cultura de quem o celebra e/ou dos seus partícipes crentes.

Para cultuar os seus deuses, na sua busca transcendental de aproximação com o sagrado, povos em geral constroem templos, altares, comidas, amuletos, livros, símbolos etc. e assim expressam sua fé através de orações, promessas, louvor, sacrifícios e assim por diante. Mas queremos estacar, aqui, especificamente, o culto cristão e sua relação com a cultura.

O culto é parte das celebrações dos cristãos a Deus, entendido teologicamente a partir da interpretação das Escrituras, como o Pai, o Filho (Cristo) e o Espírito Santo. É uma forma de adoração expressa através de reuniões coletivas, cujos atos mais básicos, conforme aconteciam na igreja primitiva – igreja do século I – eram: “… a leitura e a exposição das Escrituras; as orações; o entoar de salmos, hinos e cânticos espirituais; e a observância dos sacramentos” (R. G. RAYBURN. In: ELWELL: 1990, p. 20). Sobre os sacramentos ou ordenanças, salientamos dois: o Batismo e a Ceia do Senhor, dos quais falaremos mais adiante.

Ainda sobre os cultos da Igreja Cristã no primeiro século, Robert Hastings NICHOLS (Op. Cit., pp. 22-23) destaca que as reuniões eram realizadas nas casas – pois ainda os cristãos não possuíam templos – e havia dois principais tipos de cultos. Um deles, uma espécie de reunião ou culto de oração, do qual participavam também outras pessoas – não cristãs e/ou não batizadas. Além das orações, tinham também testemunhos, ensinamentos, cânticos de Salmos, surgem os primeiros hinos cristãos, leituras e explicações das Escrituras do Velho Testamento. O outro tipo de culto era a Festa do Amor ou Fraternidade, uma refeição comum, muito alegre, da qual participavam apenas os cristãos batizados. Era durante estas refeições que se celebravam a Ceia do Senhor com parte do pão servido na Festa e também vinho. Este culto era realizado no primeiro dia da semana para comemorar a ressurreição de Cristo. Daí, este dia – o primeiro da semana – ser chamado domingo ou Dia do Senhor, desde o primeiro século. Com o tempo, a forma de celebração do culto – do qual não nos deteremos aqui – foi se modificando, mas seus elementos principais (oração, cânticos, exposição da Palavra, Santa Ceia ou Eucaristia, Batismo etc.) foram mantidos por serem partes integrantes e indispensáveis nas celebrações cristãs.

Quando afirmamos que o culto é uma celebração antropo-teológica queremos enfatizar o lado humano e cultural (antropológico) das pessoas que prestam cultos a Deus, mas seguindo a liturgia cristã aplicada no desenvolvimento do culto (teológico). No seu excelente trabalho sobre o tema[2] o professor Ildemiro Silva de OLIVEIRA destaca a liturgia cristã como o ordenamento do culto, cujos rituais estão voltados para o diálogo entre Deus e seu povo e, vice-versa; expressão derivada do grego com a ideia de um serviço público, isto é, de comum do povo… Mas o termo – liturgia – que se tornou mais conhecido a partir do século XVIII, na verdade, seu contexto antecede a ideia do termo grego como uma forma de serviço comunitário ou público. Segundo ainda o autor, “… o culto, antes de ser uma celebração a Deus, deve ser entendido também como a recapitulação da história da salvação. (…) Ele precisa revelar os propósitos de Deus que se renovam dia-a-dia no seio do seu povo. (…) Cada culto celebrado, seja ele Santa Ceia, Batismo ou qualquer outro ofício diário tanto quanto casual, deve aproximar mais o homem e a mulher para junto do Pai e fomentar maior comunhão comunitária (OLIVEIRA: p. 4).

Mas embora o culto e/ou suas celebrações diárias, semanais, mensais ou anuais sejam atos sagrados com seus ritos de adorações ou de aproximações a Deus, quem os fazem são cristãos ou não, mas seres humanos que não deixam de lado seus aspectos culturais e se prendem apenas aos elementos transcendentais na hora do culto. Até nos momentos mais espirituais como orações, louvores, transmissão ou absorção da Palavra, elementos culturais acompanham os crentes: os gestos, o estilo, a fala, principalmente, os instrumentos, ritmos musicais e assim por diante. Por isso, como veremos, é possível haver num culto cristão trocas de valores culturais e teológicos sem necessariamente perder sua essência e/ou tornar-se uma cerimônia de cunho herético.

2. Ordenanças do culto cristão e sua relação com as culturas

Dois dos sacramentos[3] ou ordenanças que queremos destacar aqui são o Batismo e a Ceia do Senhor. O primeiro, uma espécie de “rito de iniciação” na vida da igreja, e o outro, um ato de comunhão e fortalecimento dos cristãos. E em relação a estas ordenanças acho interessantes as observações feitas por Justo L. GONZÁLEZ, acerca dos elementos naturais e culturais que envolvem as mesmas. Sobre o Batismo, ele afirma que esta ordenança, por ser uma celebração que faz uso da água, um elemento natural, constitui um dom de Deus para o ser humano e não algo que este produza por si mesmo, ou seja, não é um elemento cultural. Há um paralelismo entre a água aplicada no Batismo e a graça de Deus. Assim como a água, a graça também não é produto do esforço humano. Ele destaca ainda que embora haja diversas posições em relação ao modo do Batismo[4] e quem deve recebê-lo, numa coisa todos concordam: o uso da água na cerimônia e a crença na graça de Deus como um favor imerecido do homem.

A outra ordenança, a Ceia do Senhor ou Comunhão, em contraposição com o Batismo, emprega em sua celebração o pão e o vinho. Estes não são produtos diretos da natureza, mas resultados da atividade humana. Há diferentes tipos de pães, sendo o trigo, o principal produto cultivado pelas culturas, mas também há pães de milho, de batata, cevada e outros. Mas sua fabricação demanda diversos tipos de trabalhos como semear o trigo, por exemplo, cultivar a semente, colher e moer o produto, transformando-o em farinha. Depois disto, ainda é preciso adicionar água, fermento, ferver a massa, assar, para depois desse longo processo, obter o pão. Ou seja, o pão é o resultado de elemento natural (trigo) e cultural (o processo de fabricação).

O vinho (ou suco da uva) tem um processo semelhante ao do pão, pois assim como o trigo, a uva é um produto natural cultivável e que para se chegar ao produto final, o vinho, este passa por diversas etapas de atividades humanas. O contraste com o Batismo, que é dádiva gratuita – a graça – de Deus ao homem, a Santa Ceia diz respeito à participação do homem e o que ele pode fazer com aquilo que Deus lhe deu. Voltando então ao que já dissemos, que “… a cultura é o modo pelo qual um grupo humano responde e se relacionada com seu meio ambiente, vemos que a diferença entre a água do batismo e o pão e o vinho da comunhão é paralela à diferença entre o jardim que Deus dá ao ser humano e o resultado do cultivo desse jardim” (Op. Cit: pp. 141-142). Neste caso, o jardim é uma espécie de protótipo ou maquete (por falta de outra definição mais adequada) do Planeta, considerando que água, trigo, uva etc. existiam também lá à disposição do homem. Portanto, “… se o batismo aponta para a graça livre e soberana de Deus, a comunhão nos recorda que, justamente por sua graça, ele nos permite colaborar em sua obra criadora e redentora” (Idem: p. 142).

No culto os cristãos tomam parte segundo os propósitos de Deus. E tanto o Batismo quanto a Comunhão/Santa Ceia são sinal e instrumento da unidade entre os crentes capaz de cruzar fronteiras culturais. A água utilizada no Batismo é a mesma para todas as culturas, mas o pão – um dos elementos da Comunhão – muda de região para região e de cultura para cultura. “A própria variedade cultural implica variedade no pão, e a variedade no pão indica a aceitação das diversas culturas por parte de Deus” (p. 143). Portanto, a combinação destes dois sacramentos/ordenanças apresenta um simbolismo muito grande no culto cristão, pois apontam para a unidade cristã: a água, que simboliza a graça, para a unidade dos cristãos com Deus, e o vinho e o pão, objetos de uma cultura universal, como resultado da unidade entre os irmãos.

3. O culto, a inculturação e a troca de valores culturais

Bem, já vimos que os cristãos utilizam nas ordenanças do culto, elementos que ultrapassam fronteiras culturais: água, pão, fruto da vinha… E embora haja diferenças nas suas celebrações, os cristãos vivem em unidade mediante estes elementos. A grande entidade que os acolhe em seu seio é a igreja[5], a assembleia universal dos remidos por Cristo. Também não é nossa intenção demorarmos aqui sobre seu conceito, história, significado etc., mas de forma sintética refletir apenas no significado que a igreja representa para os cristãos: o papel de uma grande família. Há um paralelismo entre a família chamada igreja e as culturas. Enquanto na igreja, entendida não como uma entidade fechada e com limites definidos, existe toda uma rede de parentes com limites imprecisos, com a cultura acontece o mesmo. As culturas se entrelaçam, mesclam e confundem, e é possível até pertencer a mais de uma delas.

Os crentes em Cristo vivem pelo menos em duas culturas, uma a qual os rodeia e outra, a da igreja ou comunidade a qual pertencem. Isto porque a igreja, segundo a ótica do Novo Testamento, deve pregar a cultura do reino, acerca da qual já falamos em outro momento. Mas há de se esperar que o evangelho pregado pela igreja se acondicione nas mais diversas culturas e prime pela sua capacidade de adaptação. Foi o que aconteceu com o evangelho proposto por Cristo, os apóstolos e a igreja primitiva. Ele conseguiu se ambientar a diversas situações. Ou seja, a igreja primitiva, ao mesmo tempo em que inculturou ao seu culto ritos e símbolos exercidos em outras culturas, reinterpretando-os à sua realidade, também aculturou diversas culturas e povos com sua proposta salvadora. Isso sem alterar seus princípios doutrinários.

Ainda que a inculturação ou enculturação não seja a forma ideal na relação entre a igreja e as culturas e apresenta os seus problemas[6], mas queremos destacá-la aqui por causa de sua importância nas trocas culturais entre os diversos povos e a igreja, sem deixar de considerar, obviamente, que neste intercâmbio os absolutos do Evangelho podem e devem ser adaptados, mas nunca desvirtuados de seu significado real das Escrituras. Nesse sentido, voltando ao estudo feito por OLIVEIRA (q. v.), ele destaca a importância da inculturação para o culto cristão, uma vez que ela o ajuda na interpretação dos valores culturais. Isto porque não há como um cristão viver uma “práxis cristã” ou estabelecer um formato de culto essencialmente puros, sem ser atingido pelo que muito já foi considerado de “esfera pagã” ou “secular”. “O culto cristão, muito mais do que os conceitos simplistas podem oferecer, revela ter sido influenciado por culturas diversificadas. Nesta perspectiva não apenas a história se incube de desvendar essa associação promovida por meio da inculturação, mas também, os próprios indícios bíblicos e teológicos apontam para sua maturação” (Op. Cit. p. 12). Nenhum rito litúrgico está desprovido de influência cultural. E o que a inculturação propõe é reconhecer e conscientizar da necessidade de adaptações extra culturais em sua liturgia, sobretudo na comunicação do evangelho para a cultura a que a igreja se propõe pregar. Desta forma, para propagar o Jesus que tomou forma humana e identificou-se com a cultura circundante de seus dias, as contribuições de outras culturas em todas as partes do planeta são importantíssimas. E o culto cristão torna-se rico, mediante a inculturação, pela diversidade das expressões simbólicas, dinamismo, expressões verbais e corporais, sinais, símbolos e outros elementos culturais que deixam as celebrações ricas, com mais beleza e vivacidade.

Conclusão

O culto cristão tem o objetivo não de desaparecer com as culturas, mas de redimi-las. E a prática deste princípio de redenção das culturas fará acontecer o que está em textos como este: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul e tomarão lugares à mesa no reino de Deus” (Lc 13.29). Para que isto aconteça é preciso que pessoas e culturas do Oriente, Ocidente, Norte e Sul, ou seja, dos “quatro” cantos da terra, se rendam ao Senhor, que um dia humanizou-se e consumou toda a obra de salvação, que é extensiva a “todo aquele que nele crê” (Jo 3.16). Veja mais este texto: “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com palmas nas mãos; e clamavam em grande voz, dizendo: Ao nosso Deus, que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7.9-10). Portanto, quando o culto cristão é celebrado entre as multidões, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em nome do Cordeiro e na cultura destes povos, é o indicativo de ter cumprido o seu objetivo. Reafirmando, para finalizar, que culto, cultura e cultivo são dons de Deus, e para Ele, “… seja glória e majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora e para todo o sempre. Amém!” (Jd, v. 25).

Referências Bibliográficas:

  • CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 1982.
  • ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. I e II. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª ed.).
  • GONZÁLEZ, Justo. L. Cultura & Religião: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • OLIVEIRA, Ildemiro Silva. Culto e Cultura: Influências e relevâncias históricas e contextuais da cultura sócio-religiosa popular e sua repercussão na liturgia do culto cristão. Texto publicado em 06 de Agosto de 2018. In: <https://www.webartigos.com/artigos/culto-e-cultura/159156>. Acesso em: 11/02/2019.
  • NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana: 1985.

Notas:

  • [1] In: CUNHA, vide Referências bibliográficas.
  • [2] OLIVEIRA Ildemiro Silva de.  Culto e Cultura: Influências e relevâncias históricas e contextuais da cultura sócio-religiosa popular e sua repercussão na liturgia do culto cristão. (q.v.). O autor defende que “o culto cristão, apesar de demonstrar ser algo completamente sacro e genuíno, apresenta também seu aspecto secularizado. Presente no dia-a-dia da comunidade sofre grande influência desta, bem como, determina seu status quo de fé e de conduta…”.
  • [3] Sacramentos e ordenanças são termos utilizados por católicos e protestantes, respectivamente. A Igreja Católica celebra sete sacramentos que são o batismo, a confirmação ou crisma, a eucaristia (ou Ceia do Senhor para os protestantes), reconciliação ou penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Os protestantes, após a Reforma do século XVI, conservaram apenas dois destes sacramentos, que passaram a ser chamados de ordenanças, que são o Batismo e a Ceia do Senhor. Para a maioria dos protestantes, a expressão ordenança é mais adequada segundo a interpretação do Novo Testamento, uma vez que esta prática (Batismo ou Santa Ceia) é apenas uma demonstração de fé dos cristãos e não meios transmissores de graça como são entendidos os sacramentos para os católicos.
  • [4]É notável que, ao longo da história da igreja, se tinha discutido tanto acerca da forma e do sentido do batismo – se deve ser por imersão ou não, se somente os adultos devem ser batizados, etc. – e ao mesmo tempo tenhamos perdido de vista o fato simples e claro de que o batismo, seja com for, é sempre praticado com água, e com a mesma água em todas as partes” (GONZÁLEZ: 2011, p. 143).
  • [5] O vocábulo igreja deriva-se do latim ecclesia e ou grego ekklesia (assembleia) significa tanto uma “congregação local de cristãos” (Mt 18.17 At 15.41; Rm 16.16; 1Co 4.17…) quanto “universal” (Mt 16.18; At 20.28 1Co 12.28; 15.9; Ef 1.22). Destacamos o segundo sentido, ou seja, a igreja como uma “assembleia universal” que é parte do Reino de Deus. (Afirmamos isto, pois acreditamos que o “Reino de Deus” tem um sentido mais abrangente do que a Igreja). E em relação a ela, ficamos com o sentido empregado por João Wycliffe e os reformadores que faziam distinção entre igreja “visível” e “invisível”. Seguindo este raciocínio, a igreja invisível consiste somente da reunião dos “eleitos” e, nesse caso, membros das milhares de igrejas locais não participam, necessariamente, da igreja invisível e universal (Fonte: R. L. OMANSON. Apud ELWELL, 1990, Vol, II, pp. 286-287).
  • [6] Justo L. GONZÁLEZ adverte sobre alguns problemas em relação à enculturação, enfatizando, por exemplo,  que “… visto que a cultura é para o ser humano como a água para o peixe, há o sério perigo de que simplesmente tomemos o que nossa cultura nos ensina, a ‘batizemos’, por assim dizer, e façamos pouco para transformar seus elementos negativos. Esse perigo não é imaginário, mas é tão real que a história nos proporciona exemplos abundantes’” (Op. Cit., p. 131).
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Cultura e Missão: breves reflexões

O homem é a mais importante de todas as criatura de Deus, deixado como mordomo ou administrador de suas obras aqui na Terra. Deus, segundo a Bíblia, criou todas as coisas do nada – isto é, criação “ex nihilo” –, e o homem foi o responsável por cuidar das coisas criadas e, a partir destas, inventar outras, chamadas de culturas. Mas o homem falhou, por seu próprio arbítrio, nesta tarefa, desobedecendo ao princípio determinado por Deus, dando origem, com isso, ao pecado. Desta forma, a cultura ou as culturas que surgem a partir daí, são eivadas de bênçãos, por fazerem parte dos propósitos de Deus e pela origem divina que caracteriza a natureza e a imagem do homem, mas também carregam a mancha do pecado por causa da queda e fraqueza do homem.

No post anterior já destacamos o evangelho como uma mensagem supra cultural a ser pregada em todos os lugares e para todas as pessoas. Neste[1], queremos destacar o papel da missão transcultural como um dos meios para que os que já aceitaram o propósito redentor de Jesus levem a mesma mensagem aos demais.

Evangelismo e missão transcultural

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”(Mc 16.15)

Sabemos que evangelização é a proclamação do evangelho ou boas novas da salvação em Jesus Cristo, conforme está descrito nos evangelhos. A iniciativa de buscar o homem que se distanciou é do próprio Deus, que mediante a regeneração do Espírito Santo leva o homem “de volta” ao seu estado original, por intermédio de Cristo. E como “todos pecaram” (Rm 3.23) e todos são objetos do amor de Deus (Jo 3.16), o evangelismo tem como alvo alcançar todas as pessoas e em todos os lugares.

Mas o evangelismo que visa alcançar outras culturas, recebe, via de regra, o nome de “missão transcultural”. E os missionários, preparam-se (ou deveriam) para chegar até estas variadas culturas para anunciarem o Evangelho de Jesus Cristo, procurando ter um conhecimento prévio da cultura onde irá trabalhar. A missiologia, “a ciência da comunicação transcultural da fé cristã”, procura levar o melhor preparo possível a seus alunos participantes, sempre visando minimizar o máximo possível o impacto que terão ao se confrontarem com a diversidade cultural quando de sua prática evangelizadora. O missionário se encontra direta e indiretamente envolvido neste processo de evangelização das pessoas e de transformação das culturas, baseados no IDE de Jesus:

E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mt 28.18-20)[2]

Toda cultura deve ser vista sob a lente dupla, ou seja, a do amor e da presença de Deus, por um lado, e a da corrupção do pecado, por outro. Toda cultura é pecaminosa, mas Deus atua nela. E como a obra missionária consegue isto? Em primeiro lugar, ao se encontrarem com uma nova cultura, os crentes em Jesus Cristo devem tratá-la com respeito, como lugar sagrado no qual a autoridade de Jesus Cristo já é exercida, embora as pessoas que estão ali não o saibam. Foi assim que os primeiros cristãos conseguiram abrir caminho no mundo greco-romano e dar origem a uma igreja que, sendo semita em sua origem, logo se arraigou e se encarnou nessa outra cultura. E em segundo lugar, quem leva o evangelho de uma cultura a outra deve estar consciente de que o leva envolto em um contexto cultural; que leva consigo não o evangelho puro, abstrato, mas o evangelho encarnado em sua própria cultura.

Todo missionário ou missionária, não importa sua procedência ou postura teológica, traz consigo sua cultura. Isto é inevitável e faríamos mal se os culpássemos ou criticássemos por isso. Eu não posso me despojar de minha cultura e não devo exigir que outra pessoa faça o que eu não consigo. O que poderíamos, sim, fazer é estar consciente do fato inevitável de que nossa cultura impacta o modo como entendemos e vivemos a fé.

Por outro lado, embora pedir às pessoas que cruzam fronteiras culturais que se despojem de sua cultura seja exigir o impossível, devemos ao menos esperar que tais pessoas estejam conscientes, pelo menos em teoria, de que seu modo de entender e viver o evangelho – por mais ortodoxo que seja – é seu modo de entender e viver o evangelho dentro de sua cultura e que, ao levar essa mensagem a outra cultura, não deverão se surpreender caso ela se encarne de formas inesperadas.

Aculturação, enculturação e autoctonia

Ademais, podemos acrescentar que o verdadeiro processo de encarnar o evangelho em uma nova cultura tem de ser levado a cabo não por missionários procedentes de outras culturas, mas pincipalmente pelas pessoas que, de dentro dessa cultura e como parte dela, aceitam o evangelho. Nesse caso vale distinguir entre aculturação e enculturação. A aculturação consiste em tentar adaptar a apresentação do evangelho à cultura receptora, e é o que os bons missionários tentam fazer. Eles aprendem a língua das pessoas a quem quer comunicar sua fé; descobrem, por exemplo, que, em uma cultura há costumes muito diferentes, daí adaptam o evangelho a essas culturas. Mas torna-se praticamente impossível para o missionário passar da aculturação para a enculturação, que ocorre quando um número suficiente de pessoas dentro de uma cultura se apossa do evangelho de tal modo que começa a interpretá-lo e vivê-lo dentro de seus padrões culturais, e não mais dentro dos padrões do missionário.

Mas apenas a aculturação e a enculturação não são suficientes para a relação entre fé e diversidade cultural. É preciso que haja uma absorção do evangelho na cultura alcançada pelo missionário e, a partir daí, surgirem as comunidades cristãs. É o que alguns estudiosos defendem. Como exemplo, Paul G. HIEBERT destaca a necessidade das igrejas autóctones, afirmando que “… há uma pressão cada vez maior no sentido de que a igreja em cada ambiente cultural se torne autônoma: que sustente-se a si mesma, que se administre e se auto propague. (…) À medida que o evangelho se torne autóctone para elas, suas teologias (…) também irão variar.” (In: WINTER & HAWTHORNE, op. cit., p. 461). Para Hiebert, é possível aplicar a revelação das Escrituras numa teologia, cuja compreensão se dá a partir da cultura local, e que vai se evoluindo da fase do questionamento até o evangelho se encarnar nesta cultura. E os crentes que vão surgindo neste ambiente cultural vão pouco a pouco descobrindo formas de expressar e interpretar o evangelho em termos dessa cultura. Como diz o próprio termo – autoctonia, característica de quem é natural da região, ou território, em que habita –, é possível existir uma teologia também com características culturais locais, sem adulteração da revelação das Escrituras e num ambiente cristão genuíno.

O Verbo, a diversidade cultural e a cultura do Reino

Aculturação, enculturação, autoctonia…, caminhos utilizados pelos bons missionários cristãos. Mas como a cultura é para o ser humano como a água para o peixe, não há o perigo de que simplesmente tomemos o que nossa cultura nos ensina e acabamos fazendo muito pouco para transformar seus elementos negativos? Há, sim, muitos perigos, e González dedica várias páginas sobre isto. Mas como é preciso correr o risco, os missionários transculturais contam com o poder dAquele que os enviou às culturas a serem evangelizadas. E quem assim os fez foi Jesus Cristo, como já vimos no mandamento à Grande Comissão.

Jesus é o Verbo de Deus ou o Logos que conhece a cada palmo do planeta Terra, objeto de seu amor (Jo 3.16). E sua ordem para evangelizar estende-se à toda ela ou “todo o mundo” (Mc 16.15), para usar o termo bíblico. Portanto, maior do que os interesses dos missionários é o de Jesus pelas pessoas de todas as partes do mundo. Além disso, antes que os missionários cheguem a estes lugares, Jesus já está lá. Ele é Senhor de todos os lugares, mesmo os mais longínquos da Terra. E por conta disso, as culturas ali existentes, já possuem algo de bom ou positivo, por causa da presença de Jesus ali, embora não saibam disso. E se os cristãos missionários tiverem esta convicção, seu trabalho se torna menos penoso e mais produtivo.

Mas as culturas, embora parte delas seja rica em beleza e bondade, precisa ser transformada ou santificada pelo Evangelho, por estarem manchadas pelo pecado e parte dela ser até de inspiração demoníaca[3]. Por isso, na questão da relação entre a fé e a cultura o que se coloca não é como fazer para que nossa fé seja compatível com nossa cultura, mas como nos certificar de que essa fé pronuncia os “juízos corretos” sobre essa cultura. Só que também as culturas precisam conhecer os “juízos corretos” ou valores do Evangelho do reino ou da catolicidade – universalidade ou conforme o todo – de sua mensagem. O evangelho de Cristo (p. ex., Mt 9.35) é acompanhado de sinais e ao ser recebido pelas pessoas, estas se deparam com a proposta de uma outra cultura, a “cultura do reino”. Esta proposta é de quem veio salvar as pessoas, portanto está baseada em sua Palavra, a Bíblia Sagrada. Ela apresenta a mensagem deste reino e serve de parâmetro para as culturas. Assim, todo o conjunto de cultura imaterial como conhecimentos, artes, costumes, crenças, leis, moral etc., manchado pelo pecado, pode ser influenciado – ou até redimido – pela “cultura do reino”, extraída da verdade maior, o Evangelho.

Porém, os missionários que de alguma forma leva a posição de sua igreja a qual pertence à cultura a ser evangelizada precisa evitar o perigo da imposição cultural da mesma. Assim como a grande variedade de culturas tem uma função libertadora e que essa função consiste em livrar toda cultura da ilusão de que são absolutas, os missionários devem atentar para isto quando se deparam com estas diversas culturas.

A verdadeira catolicidade não é uniformidade, mas, muito pelo contrário, é uma variedade tal que toda a igreja em todas as partes do mundo como um único corpo com vários membros, mantém-se em comunicação para o bem de todo o corpo, conforme podemos deduzir de 1Corintios 12.12-13. E o modo como a igreja emprega para se assegurar de sua própria identidade perante as culturas, é o culto, do qual nos ocuparemos depois e também destacaremos num outro momento, sobre a posição cristã na cultura brasileira.

Referências bibliográficas:

  • ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990 (1ª ed.).
  • GONZÁLEZ, Justo L. Cultura & Evangelho: o lugar da cultura do plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • WINTER, Ralph D. & HAWTHORNE, Steven C. Missões transculturais: uma perspectiva cultural. São Paulo: Mundo Novo, 1987 (1ª ed.).

Notas:

  • [1] O texto a seguir é um resumo indicativo do livro Cultura & Evangelho, de Justo L. González (q.v.), com inserções de outras fontes, constantes nas referências bibliográficas.
  • [2] Este e outros textos bíblicos, mencionados no texto foram extraídos da Bíblia Online, versão Almeida Corrigida Fiel. Disponível em: <https://www.biblia online.com.br/> e outros links.
  • [3] Conforme afirma o Pacto de Lausanne, § 10. In. O EVANGELHO e a Cultura. Série Lausanne e Visão Mundial. São Paulo: ABU Editora, 1985.

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Cultura e Evangelho

Ilustração: Cristo & Cultura[1]

Já vimos anteriormente, que cultura é toda criação ou invenção humana, seja ela material ou imaterial, que é socializada pelos membros de uma sociedade. E que nas criações imateriais está relacionado também o aspecto espiritual e religioso, ligado à busca das pessoas por um ser soberano e transcendente. E terminamos este último post afirmando que a religião, em certo sentido pode ser entendida como algo vindo “de fora” para certo grupo social, ou seja, algo supra cultural ou revelado a este grupo e socializado por ele, embora seu modo de crer e de fazer seus cultos estejam associados especificamente à esfera cultural.

Vimos também que no exemplo de Babel, aquela geração ao construir sua torre tinha o desejo de permanecer num mesmo local e sua cultura usada para usurpar o lugar de Deus, ao mesmo tempo em que tentava impedir as ramificações de outras culturas, ao impor uma única língua aos seus moradores.

Neste post, queremos refletir sobre a relação entre o Evangelho com a cultura, como Jesus e sua comunidade foram influenciados e influenciaram a cultura e que é possível aplicar a mensagem a todos os povos sem a imposição de uma cultura – judaica, por exemplo – tida superior ou especial em relação às demais.

1. Cultura vs Evangelho

“Jesus, porém, ouvindo que João estava preso, voltou para a Galileia; E, deixando Nazaré, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali; Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz: A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galileia das nações; O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou.” (Mateus 4.12-16)

O homem é o criador de cultura, uma atividade que está no propósito de Deus. Mas como o homem é racional, espiritual, inteligente e criativo, todas as coisas que foram sendo criadas com o tempo e somadas às demais já existentes, deram – e continuam dando – um significado muito amplo para todo o complexo cultural, isto é, o somatório das coisas criadas, de cada povo no decorrer dos tempos. Este aproveitamento de parte de culturas existentes por outros povos, acontece através dos chamados empréstimos culturais, isto é, manifestações culturais emprestadas e vivenciadas pelos membros de uma determinada sociedade, juntando-se às já existentes, e destinadas a se perpetuar de geração após geração. Nesse complexo cultural, vivido e transmitido às gerações, estão envolvidos também comportamento e certas ideias ou pressuposições que podemos chamar de cosmovisão. E porque a cultura em geral foi afetada pelo pecado, a cosmovisão ou forma de ver o mundo de cada grupo, tornou-se bastante diversificada e distorcida. O homem é um ser cultural e ao mesmo tempo, olha o seu mundo a partir de sua “lente cultural”. E se esta lente está manchada pelo pecado tanto o homem quanto sua cultura carecem de redenção.

No texto de Mateus acima, vemos referências de lugares como Galileia, Nazaré, Cafarnaum etc., que ficam em uma região mais ampla do planeta, hoje chamada Israel. O texto também afirma que o povo desta região estava assentado em trevas, mas para ele raiou uma grande luz. Sabemos que o povo destacado – no norte do antigo Israel – é parte de um grupo maior chamado de o povo judeu; e a grande luz corresponde ao cumprimento da promessa feita pelo Seu Deus, Yahweh: a chegada do Messias, Jesus Cristo, que veio transmitir sua mensagem redentora, o Evangelho ou Boa Notícia, ou ainda Boa Nova. O Evangelho, ao ser pregado e aceito, constitui um exemplo de empréstimo cultural judaico-cristão para o mundo que o aceitou e o aceitará. Sua influência para as culturas tem sido determinante para a base da cultura, hoje,  principalmente do mundo ocidental.

Segundo ainda Mateus 9.35, a mensagem que Jesus Cristo ensinava pelas cidades, aldeias e sinagogas, era também chamada de o “evangelho do reino”. E os sinais de que este reino tinha chegado ao povo eram os milagres que acompanhavam sua mensagem, como a cura de suas “enfermidades e moléstias”. O “Reino de Deus” ou “Reino dos céus” – expressões análogas – é este algo “de fora”, como já vimos, pois foi trazido dos céus ou de Deus para este mundo. E, como Jesus mesmo afirma, seu “… reino não é deste mundo…” (Jo 18.36). É por isto que alguns cristãos falam, inclusive, em “cultura do reino[2]”, por entenderem que o seu livro sagrado, a Bíblia, apresenta a mensagem deste reino e que ela pode servir de parâmetro para as culturas. Isto é, todo o conjunto de cultura imaterial como conhecimentos, artes, costumes, crenças, leis, moral etc., manchado pelo pecado, pode ser influenciado – ou até redimido – pela “cultura do reino”, extraída da verdade maior, o Evangelho. Este reino é acompanhado de poder e de verdade; e Jesus disse para alguns de seus ouvintes que eles estavam errando por não conhecer nem “… as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29). Portanto, as “Escrituras”, principalmente o Novo Testamento, onde consta também e, principalmente, os evangelhos, são a base para se evitar os erros e para a redenção e até a santificação das culturas. Quando dizemos “Evangelho”, estamos nos referindo não só aos ensinamentos e práticas do ministério de Jesus, narrados e/ou escritos pelos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, mas a toda a pregação cristã centralizada nas Escrituras: Antigo e Novo Testamento.

2. Jesus, seus discípulos e sua cultura circundante

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura” (Marcos 16.15).

Jesus é o Deus humanizado, que nasceu de um povo – judeu –, falou a língua deste povo, viveu a cultura deste povo, em tudo foi semelhante aos homens de seus dias, exceto no pecado (Hb 2.17; 4.15). Jesus foi um homem de cultura; que ao mesmo tempo anunciou sua mensagem, como Deus eterno e como “Filho de Deus e homem perfeito” (Ef 4.13). Mas então não há distinção entre cultura e Evangelho? Justo L. González acredita ser difícil distinguir (separar) ambos. E ele apresenta dois motivos: um deles é porque a cultura “… faz parte do que somos” (Op. Cit., p.98), e não podemos nos separar dela. E em segundo lugar, porque Jesus foi, embora divino, também humano, e nesta condição de homem, ele também usou a cultura para comunicar seu Evangelho aos povos.

Quando Jesus nasceu, “na plenitude dos tempos” (Gl 4.4), sua região e as regiões próximas eram dominadas politicamente pelo Império Romano[3], cujo idioma oficial era o latim, e culturalmente pelos gregos. A Língua Grega era o idioma universal da época, seguida pelo Latim.  Possivelmente, Jesus tivesse noções de grego e latim, conhecesse hebraico e no dia-a-dia falava aramaico junto à sua família e seu povo. Ou seja, é provável que Jesus fosse poliglota[4]. Ele era judeu e afirmou para a mulher samaritana que a “salvação vem dos judeus” (Jo 4.22), isto é, do seu povo. Mas ao que sabemos nenhum livro do Novo Testamento foi escrito na língua de seu povo (aramaico ou hebraico). E a mensagem de Cristo, difundida depois de sua morte e ressurreição, cruzou fronteiras, “… deixando de ser uma mensagem puramente judaica e tornando-se também uma mensagem para os gentios” (Ibidem: p 100). Um empréstimo cultural dos judeus para o mundo.

Na época de Jesus e de seus discípulos, a cultura grega imperava com o nome de helenismo, fusão da cultura grega com as dos orientais, os judeus entre eles, conquistadas pelos macedônicos, em especial Alexandre Magno, uns 300 anos antes de Cristo. Dentre os supostos “benefícios da civilização”, propagadas pela cultura helenística, estava a Língua Grega, na qual foram escritos os livros do Novo Testamento. Além disso, embora a cultura grega, considerada pagã pelos cristãos, fosse, por isto mesmo, condenada, textos e ensinamentos dos filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, além da língua, eram muito utilizados nas epístolas e ensinamentos da época. Exemplo disto podemos encontrar em um dos doutores da igreja, Tertuliano, o qual embora “… rejeita o uso da filosofia grega no campo da teologia é o advogado que faz constantemente uso de princípios legais romanos para defender a fé cristã e até para explicar doutrinas como a Trindade e a encarnação. Portanto, embora Tertuliano insistisse na necessidade de rejeitar a filosofia que vinha da Grécia, ele próprio participava dessa filosofia de modos que desconhecia” (Ibidem: p. 102).

Jesus disse: “… Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura” (Mc 16.15). Portanto, os cristãos têm uma mensagem salvadora, que é o Evangelho. Esta mensagem está acima das culturas. Mas também é preciso ir a toda criatura, o que pressupõe conhecer e/ou viver as culturas – ou parte dela –, destas criaturas. Neste caso, como veremos, é importante que o Evangelho, sempre que possível, seja pregado por alguém da própria cultura destas criaturas: povos, tribos, nações…

3. O Logos e a catolicidade dos Evangelhos para e nas culturas

E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre suas cabeças coroas de ouro. (…) E havia diante do trono um como mar de vidro, semelhante ao cristal. E no meio do trono, e ao redor do trono, quatro animais cheios de olhos, por diante e por detrás. E o primeiro animal era semelhante a um leão, e o segundo animal semelhante a um bezerro, e tinha o terceiro animal o rosto como de homem, e o quarto animal era semelhante a uma águia voando” (Ap 4.4,6,7).

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez (…). Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome (…) E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. ( Jo 1.1,2,11,14)

Já destacamos no texto (post) diversidade cultural que o Evangelho, neste caso, a primeira parte do Novo Testamento, é ao mesmo tempo uno (a única mensagem salvadora de Cristo) e quadriforme (escrito sob quatro visões diferentes dos evangelistas). Quero considerar também nesta linha de raciocínio o texto de Apocalipse 4, acima, que fala da visão que João, um dos evangelistas, teve do céu, e lá, a presença de vinte e quatro anciãos e de quatro animais. Os vinte e quatro anciãos, que aparecem assentados em seus tronos, são reconhecidos pela igreja[5] como símbolos das doze tribos de Israel, tratadas no Antigo Testamento, e dos doze apóstolos de Cristo, descritos no Novo Testamento da Bíblia cristã. Neste caso, tanto os representantes dos judeus, representados pelos vinte e quatro anciãos, quanto os apóstolos, adoravam “… ao que estava sobre o trono, ao que vive para todo o sempre” (v. 9) e por meio de quem todas as coisas foram criadas (v. 10). Sabemos que Este que recebe a adoração é Jesus Cristo, personagem central da mensagem a ser pregada a todas as culturas. “Os anciãos reconhecem que um só é digno de ter a preeminência na criação, e Ele é o criador… Ele quis a existência de todas as coisas. Ele tem o direito de lidar com elas em soberana liberdade. Toda a criação deverá reconhecer a sua sujeição a Ele e atribuir ao seu nome a glória e a honra e o poder.” (In: SHEDD, Op. Cit., p. 1460).

Sobre os quatro animais, a aceitação de boa parte dos cristãos[6] é que eles simbolizam os quatro[7] evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João. Estes animais são: o primeiro, um leão; o segundo, um bezerro; o terceiro, um animal indefinido, apenas com o rosto como de homem; e o quarto, uma águia. Hernandes Dias LOPES explica que “… o leão mostra Jesus como rei (Mateus). O novilho [ou bezerro] mostra Jesus como servo (Marcos). O homem mostra Jesus como o homem perfeito (Lucas) e a águia mostra Jesus como aquele que veio do céu e volta ao céu (João)” (Op. Cit., p. 157). LOPES continua afirmando que estes “… quatro seres viventes representam todo o nobre, forte, sábio e rápido da natureza” (Ibidem: p, 157). Portanto, embora fazemos referência ao Evangelho (no singular), mas ele deve ser entendido pela sua catolicidade – a visão universal representada pelos quatro evangelistas.

Além da catolicidade do Evangelho, outro ponto que caracteriza a relação entre o mesmo e a cultura, principalmente a cultura circundante à época de Jesus e de seus discípulos é enfatizado, especificamente, no prólogo do quarto evangelho que é o conceito de Logos ou Verbo, que escrevemos parcialmente acima. Era empregado com frequência pelos escritores cristãos e diz respeito à Deidade de Cristo. Já em Gênesis 1.1 o Logos estava presente na criação. A expressão “todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3), tem relação direta com o ato criativo de Jesus Cristo, o Logos, junto com o Pai, conforme lemos: “no princípio criou Deus [Elohim] o céu e a terra” (Gn 1.1). Desta forma, o “… pensamento do escritor [João] é impregnado do Velho Testamento e não devemos imaginar que o evangelista esteja tomando emprestado um termo ou conceito da filosofia grega daquela época. Ele expõe uma ideia que remonta ao ensino rabínico, concernente à Palavra de Deus. O Logos é o Ser cuja existência transcende o tempo. Sua pré-existência eterna é implícita” (In: SHEDD: Op. Cit., p. 1063).

O conceito do Logos, traduzido em nossas bíblias como Verbo, além de enfatizar a deidade de Cristo, o Verbo eterno de Deus que se encarnou em Jesus Cristo, fala também do seu “alcance universal”: criação (de todas as coisas, Jo 1.3) e luz (de todo o homem que vem ao mundo, Jo 1.9). Assim, todos foram criados pelo Verbo “… e, visto que esse Verbo é a luz que ilumina não apenas todos os profetas, mas todo ser humano que vem a este mundo, se há alguma luz em um ser humano qualquer, essa luz vem do Verbo que se encarnou em Jesus Cristo” (GONZÁLEZ: Op. Cit., p. 106).

O Logos está presente em todas as culturas e pode ser entendido como o princípio da razoabilidade: a “… correlação entre as diversas mentes humanas” (Ibidem: p. 107) e também do universo, conceito defendido por Platão. É nesse sentido que acreditamos que há nas culturas a presença do Logos mesmo antes da chegada de algum missionário a qualquer lugar. “Se Deus é o criador de tudo quanto existe e se Deus está presente e atuante em toda a criação, não é possível pensar que ele esteve completamente ausente de partes inteiras da história da humanidade, de continentes inteiros, até que a fé cristã chagasse a eles” (Ibidem: p. 113). Os cristãos receberam a ordem do IDE e pregai, a partir da Grande Comissão (Mt 28.18-19). Por isso, “… a razão para ir é que Jesus recebeu todo o poder na terra e no céu. Se levarmos a sério esse texto, o propósito de nosso ir, a razão de nosso ir não é levar Jesus Cristo para um novo lugar, e tampouco levar seu senhorio. Segundo esse texto, Jesus já e Senhor desse lugar muito antes de chegarmos lá” (Ibidem: p. 117). Na conversão de Cornélio (At 10), por exemplo, o Logos já estava presente em sua casa antes de Pedro chegar à mesma. Inclusive González diz que o título “conversão de Cornélio”, de Atos 10, bem poderia ser “conversão de Pedro”. Este apóstolo estava incumbido de pregar a salvação, mas tinha uma visão (cosmovisão) muito limitada e restrita à sua cultura. Antes de seguir para a casa e Cornélio, ele tem uma visão vinda Deus, que pede – entre outras mensagens – para que ele: “… não chame impuro ao que Deus purificou” (At 10.15). Percebe-se, daí, que o Logos que já estava nas culturas gentilícias, como no exemplo de Cornélio, preparou o terreno para um dos membros da Grande Comissão aceitar aquela cultura específica de Cornélio e adicionar à mesma o Evangelho de Cristo. E é isto que muitos cristãos missionários não têm visto: a presença do Logos nas culturas e lugares aonde chegam. E também não têm tido a consciência (conhecimento) de que qualquer lugar deste planeta, mesmo aqueles onde ninguém ouvir falar de Cristo foi criado por Ele e a Ele pertence.

Num outro momento, falaremos um pouco mais sobre cultura e missão. Mas, por ora, concluímos que na relação entre a cultura e o Evangelho, este último, embora seja uma mensagem supra cultural (como algo “de fora”, por empréstimo), foi revelado para um povo, dentro de seu contexto cultural que era ao mesmo tempo o resultado da influência das culturas dos povos circundantes. Até os escritores desta mensagem, os evangelistas, apresentaram-na sob seus pontos de vistas, sem mudar o âmago da verdadeira mensagem: o único Evangelho, mas ao mesmo tempo universal (católico), escrito sob a ótica ou cosmovisão de quatros escritores. Também enfatizamos que a diversidade cultural faz parte do propósito de Deus e que os cristãos devem ter em mente que é perfeitamente possível pregar a Cristo e seu reino em todos os lugares, sem destruir as culturas existentes e sim, influenciá-las/santificá-las com a cultura do reino…

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Veja também:

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Referências Bibliográficas:

  • GONZÁLEZ, Justo. L. Cultura & Religião: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • LOPES, Hernandes Dias. Apocalipse: o futuro chegou – As coisas que em breve devem acontecer. São Paulo: Hagnos, 2005.
  • SHEDD, Russel P. (Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1963 (1ª ed.).

Notas:

  • [1] Disponível em: <http://beteldemesquita.com.br/sermons/cristo-cultura-o-evangelho-e-nossa-libertacao-do-cativeiro-cultural-palestra-3/>. Acesso em 29/11/2018.
  • [2] Por exemplo: <https://www.maisqueadoradores.com/page/2017/12/06/o-que-e-cultura-do-reino-serie-cultura-do-reino-01/>. Acesso em 05/12/2018.
  • [3] Evitamos o termo “dominados pela cultura dos romanos”, pois esta expressão é bem simplista, uma vez que nem todos que estavam no território romano eram romanizados. Sua cultura era imposta e necessariamente aceita por todos. A maioria dos pobres e oprimidos pelos romanos ansiava pela libertação do seu jugo político e econômico, mais do que sua cultura.
  • [4]Na verdade, possivelmente Jesus era um poliglota. Devia ter noções de grego, porque esse povo deixou marcas na região na época da ocupação dos macedônios, e de latim, o idioma dos conquistadores romanos. Mas, no dia a dia, ele falava aramaico mesmo, que era a língua do povo judeu”. Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/que-lingua-jesus-falava/>. Acesso em 05/12/2018.
  • [5] Veja, por exemplo, G. R. BEASLEY-MURRAY. Em seu comentário sobre o Apocalipse, ele afirma: “Julgando pela descrição dos anciãos, dada as visões subsequentes, é claro que são seres angélicos, contudo não é impossível pensar deles como sendo os representantes celestiais do povo de Deus no duplo aspecto de sacerdotes e reis, e, neste caso, o número de vinte e quatro, que relembra as doze tribos e os doze apóstolos, simboliza adequadamente o povo messiânico de duas dispensações, como a Igreja sempre se agrada em reconhecer” (In: SHEDD, Russel P. – Editor). O Novo Comentário da Bíblia, Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1963 (1ª ed.).
  • [6] Dentre os que afirmam ser os “quatro animais”, de Apocalipse 4.6, um simbolismo dos quatro evangelistas, está também Irineu de Lyon, por volta do ano 400 d.C. Veja também: < http://www.abiblia.org/ver.php?id=2414>. Acesso em 07/12/2018.
  • [7] No Evangelho de Mateus 10.2-4, estão registrados os nomes dos doze apóstolos: “Simão, por sobrenome Pedro;  André, irmão de Pedro;  Tiago, filho de Zebedeu; João, irmão de Tiago;  Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o Zelote; Judas Iscariotes, o traidor”. Portanto, dos quatro evangelistas, dois deles (Mateus e João) estão na relação dos doze apóstolos. Marcos e Lucas não eram apóstolos, embora deixaram seu inestimável trabalho para os cristãos e o mundo.
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Cultura e religião: o homem e sua busca pelo transcendente

“Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta e coze o pão; e também faz um deus e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela…” (Is 44.14-15)

As criações humanas como fabricação de objetos para o cultivo da terra, fundação de cidades, regras de convivências, crenças, tradições, conhecimentos em geral etc., como já destacamos, são situações que marcam o homem após sua queda e, consequentemente, este processo se deu a duras penas porque o homem caiu de sua posição em que originalmente foi criado.

O texto bíblico acima é um exemplo de culturas ou ações do homem em sua relação com a natureza, da qual ele extrai (cria) objetos (cultura material) para seu próprio uso ou sobrevivência. Mas há também no texto a demonstração de intenção da busca do homem por um ente sagrado, um “deus”, que pode ser representado por uma imagem diante da qual ele se prostra e o adora. Este deus em forma de um objeto concreto (uma imagem) simboliza a expressão de sua crença.

O bezerro de ouro [1]

As crenças das pessoas são aspectos de sua cultura imaterial, relacionadas à sua crença ou religiosidade socializada e aceita pelos membros de determinado grupo social. Usamos a expressão “crença ou religiosidade socializada”, porque sabemos que um aspecto cultural só se fará parte de seu todo (cultural), pelas vias da repetição, aprendizagem etc. pelos membros de um grupo social, sociedade, povo… Desta forma, a religiosidade de um povo é um aspecto de sua cultura total – a soma de seus traços comportamentais – deste povo, e representa sua busca pelo divino, representa, também, um de seus “símbolos” fundamentais por ser a afirmação de seu significado. Conforme destaca o professor Faustino TEIXEIRA (p. 15), a religião serve como um “potente referencial contra o terror da anomia”. O medo do caos social e/ou ausência de regras ou normas levam as pessoas à busca da religião uma vez que ela

… exerce um singular papel de integração das experiências anômicas, facultando um significado para as crises biográficas… Diante do quadro de precariedade e limitação que envolve a situação humana, a religião funciona como um dossel sagrado protetor do nomos[2]…” (Ibidem, p. 15)).

A religião ocupa um lugar importante para o homem na sociedade. O “dossel sagrado”, de BERGER (Apud TEIXEIRA, Op. Cit., p. 15), apresenta o papel da religião como uma espécie de “edifício de representação simbólica” que protege os homens do caos, da falta de regras e leva-os a lutar contra o vazio.

Este pensamento que permeia as mais diferentes culturas constitui “o explicador mais usual e, muitas vezes, o mais acreditado” dos seres humanos na busca pelo Sagrado e Protetor. A religião constitui uma necessidade e interesse dos seres humanos para:

  • suportar e vencer suas dificuldades de existência;
  • buscar os deuses (ou um Deus) que os podem salvá-los dos perigos terrenos;
  • buscar proteção e esperança contra as incertezas da vida, num outro mundo;
  • falar, ser ouvido e receber os deuses em seu próprio corpo… Ou seja, a religião constitui uma “tessitura social”, afirma TEIXEIRA (2014, p. 23).

Mas as religiões, uma vez formalizadas com seus códigos, livros sagrados, ritos/mitos etc., sempre foram acompanhadas de líderes ou guias que, com bases nas mesmas, orientaram e orientam as pessoas de seus grupos sociais. Assim, desde os primórdios, Pré-história e Antiguidade, por exemplo, as principais crenças, depois de serem socializadas e praticadas em grupos, logo encontraram uma classe politico-religiosa, o clero, que exercia liderança e até domínio sobre os seus praticantes (crentes).

Em civilizações antigas como Egito, Grécia e Roma, as formas religiosas mais populares eram as conhecidas religiões de mistério, que tinham em seu bojo uma série de segredos e crenças, reveladas apenas aos seus iniciados na religião, os quais buscavam a salvação e uma bem-aventurança futuras. Surgiu, então, o conceito de “… imortalidade [que] poderia ser obtida mediante a iniciação numa experiência secreta que visava salvar a alma depois da morte” (KROEGER, Op. Cit., p. 279). As principais religiões de mistérios eram as de Elêusis, o orfismo, o pitagorismo, o culto à Ísis, o culto a Mitra e os gnósticos, além de ter exercido influências no cristianismo e recebidas deste, conceito como a ressurreição, por exemplo.  Mas tanto no passado quanto no presente a religião e a cultura estão intrinsecamente relacionados e as mesmas perguntas religiosas feitas no passado, afirma Rubem ALVES (pp. 11 e 12):

… se articulam agora, travestidas, por meio de símbolos secularizados. Metamorfoseiam-se os nomes. Persiste a mesma função religiosa. Promessas terapêuticas de paz individual, de harmonia íntima, de liberação da angústia, esperanças de ordens sociais fraternas e justas, de resolução das lutas entre os homens e de harmonia com a natureza, por mais disfarçadas que estejam nas máscaras do jargão psicanalítico/psicológico, ou da linguagem da sociologia, da política e da economia, serão sempre expressões dos problemas individuais e sociais em torno dos quais foram tecidas as teias religiosas. Se isto for verdade, seremos forçados a concluir não que o nosso mundo se secularizou, mas antes que os deuses e esperanças religiosas ganharam novos nomes e novos rótulos, e os seus sacerdotes e profetas novas roupas, novos lugares e novos empregos (pp. 11 e 12).

A religião está presente também de forma invisível ou sutil e até disfarçada em nosso cotidiano, pois o homem como um ser cultural e também espiritual – portanto, dotado de consciência – tem anseio pelo transcendente, aquele que pode responder aos seus anseios e preocupações. Assim, surgiu a religião, como uma forma de aproximação com o “sagrado”, criando para este fim “… altares, santuários, comidas, perfumes, lugares, capelas, templos, amuletos, colares, livros…” (Ibidem, p. 22), e criam em torno destes símbolos uma aura misteriosa, e a partir disto, os olhos da “fé” passam a estar voltados para os mesmos. Neste sentido, citando Ludwig Feuerbach, Alves afirma que ‘… a consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento. A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos íntimos, a confissão aberta dos seus segredos de amor’ (Ibidem, p. 13).

A religião é a expressão do espirito humano, pois o homem é dotado de razão e “fé”. Esta fé (entre aspas, pois a fé tem um significado muito mais abrangente do que o sentido aqui exposto) recebe alguns questionamentos de cientistas (sociólogos, psicólogos, antropólogos, historiadores…) e teólogos sempre no sentido de encontrar luz para este importante tema, tendo como base a tentativa de ligar (ou não) a religião à necessidade do espírito humano de buscar o sagrado, divino ou transcendente. As ciências humanas, segundo Paul TILLICH,

… acentuam a infinita diversidade de ideias e práticas religiosas, o caráter mitológico dos conceitos religiosos e a existência de grande número de formas não religiosas adotadas por indivíduos e grupos. Dizem, segundo Comte, que a religião caracteriza o estágio mitológico do desenvolvimento humano, e não tem lugar na época científica em que vivemos (Op. Cit, p. 40).

Mas reconhece Tillich que os teólogos podem dar suas contribuições ao afirmar que “… a religião significa que recebemos alguma coisa de fora, que nos é dada e pode voltar-se contra nós. Insistem que a relação com Deus não pode partir de nós e que, portanto, Deus é quem toma iniciativa.” (Idem: p. 40). Por isso, ao considerarmos a religião como esta “coisa de fora”, isso subtende aparentemente algo além da cultura, ou seja, supra cultural, pois não é criação do homem e sim uma “revelação” de um Ser sobrenatural. É neste sentido, que pretendemos falar em outro momento da religião cristã como sendo este algo de “fora” revelado ao ser humano como meio de levá-lo ao seu Criador.

Reafirmamos que a diversidade cultural faz parte do propósito de Deus e que a religiosidade é um aspecto ou elemento de cada cultura, que pode variar de muitas formas: crença em vários deuses (politeísmo ) ou um único deus (monoteísmo) e assim por diante. Como, então, as culturas chegam ao verdadeiro conhecimento da verdade nesta diversidade de crenças? Mais à frente, no post cultura e evangelho, falaremos sobre o Logos e veremos que sua presença se faz notória em todas as culturas, preparando-as para o recebimento das boas-novas reveladas pelo Deus dos hebreus, que foi encarnado, tornou-se o redentor de todas as pessoas, e, consequentemente, também de suas culturas.

Portanto, podemos afirmar que a religião é um aspecto da cultura imaterial de um povo, mas entendemos que a revelação dada pelo próprio Deus dos hebreus (Jeová ou yahweh), que ficou conhecida através do Judaísmo e Cristianismo, implica, a meu ver, um aspecto “supra cultural”, incorporada à cultura judaico-cristã e a todos que depositam sua fé na pessoa de seu Messias e Salvador, Jesus Cristo, cuja mensagem serve para todos os seres humanos, em todas as culturas, no tempo e no espaço.

Referências Bibliográficas:

  • ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Abril Cultural / Brasiliense, 1984.
  • GONZÁLEZ, Justo. L. Cultura & Religião: o lugar da cultura no plano de Deus. São Paulo: Hagnos, 2011.
  • KROEGER, R. C. e C.C. Religiões de Mistério. In: Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã, vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990.
  • TEIXEIRA, Faustino. Cristianismo e Diálogo Inter-religioso. São Paulo: Fonte Editorial, 2014.
  • TILLICH, Paul. Teologia da Cultura. São Paulo: Fonte Editorial: 2009.

Notas:

  • [1] A adoração do bezerro de ouro, por Nicolas Poussin, de I Reis 12:28-32 que retrata o reino de Israel dividido e o rei Jeroboão I, que fica com uma parte do reino sem ser de descendência real, cria dois bezerros para o povo adorar, e esquecer do Deus da linhagem Real. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Bezerro_de_ouro>. Acesso em 24/08/2018.
  • [2] Nomo era um conjunto de famílias (clã) no Antigo Egito. Diversos clãs ou nomos constituíram as primeiras divisões politicas do Egito e eram governados por príncipes chamados nomarcas.
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O Poder Executivo Brasileiro: União e Unidades da Federação – Eleições de 2018

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Com a finalização das eleições de 2018, após o 2º turno, em 28/10/2018, ficaram definidos os cargos correspondes ao Poder Executivo, tanto para Presidente da República, quanto para governadores das 27 Unidades da Federação.

Veja o quadro completo, gravado em PDF em:

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Poder Executivo Brasileiro – 2018 – União e UFs

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Votações aos Presidentes da República: de Collor a Bolsonaro

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Neste post, quero destacar os votos válidos e os votos recebidos pelos presidentes da chamada Nova República: Collor, FHC, Lula, Dilma e Bolsonaro, além de outras considerações.

Veja um breve levantamento que fiz, gravado em PDF, em:

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Votações a Presidentes da República – de Collor a Bolsonaro

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Eleições 2018 – votos válidos e recebidos pelos presidenciáveis: Brasil e Exterior

Neste post, quero destacar os votos válidos, recebidos em números e em percentuais dos candidatos Jair Messias Bolsonaro e Fernando Haddad em todas  regiões do Brasil, no 2º turno das eleições, realizadas em 28 de outubro e 2018.

Consideramos, para efeito de contagem de votos as cinco regiões o Brasil: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Veja o trabalho completo gravado em PDF em:

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Votações – Bolsonado X Haddad – Brasil e Exterior

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Obs.: Na nota de rodapé, página 1, onde se lê  “Acesso em: 29/10/20
“, leia-se, “Acesso em 29/10/2018”.

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O Poder Legislativo Federal: Congresso Nacional – 2018

Resultado de imagem para Poder Legislativo

Com a finalização do Primeiro Turno das eleições, em  7 de outubro de 2018, o Poder Legislativo Federal – Congresso Nacional ficou definido para os próximos 4 anos (deputados) e oito anos (senadores). Veja como ficou o quadro dos cargos dos 513 Deputados Federais da Câmara dos Deputados e dos 81 senadores do Senado Federal, além de seus partidos correspondentes, no texto anexo, gravado em PDF.

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Poder Legislativo Federal – 2018

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